Crónica de Tim Vieira | Uma cabine de 3,5 m2, mas uma experiência de 10 mil km num comboio

Por a 17 de Julho de 2019 as 15:41

Quando viajamos, habituamo-nos a hotéis com quartos grandes e luxuosos, camas king-size, belas instalações de spa e ginásio, e fácil acesso a um restaurante superior. Esperamos ter serviço de quarto, um pequeno-almoço completo incluído, serviço de Wi-Fi rápido, assim como acesso a 200 canais de televisão aos quais podemos assistir num grande ecrã no nosso quarto. Esperamos ser recebidos por uma rececionista que fale a nossa língua e que esteja sempre à nossa disposição. Tudo isso enquanto ainda aproveitamos as vantagens de um programa de fidelização.

E se eu lhe dissesse que não vai conseguir ter acesso a nada disto, mas que provavelmente será a sua aventura de férias mais inesquecível de todos os tempos, o que me diria?

Sim, leu corretamente o título deste artigo, o seu “quarto” será uma cabine com apenas 3,5 m2, que será partilhada com outros companheiros que provavelmente não falam inglês. No entanto, certamente irá encontrar mais pessoas e sorrir mais durante esta viagem do que em qualquer estadia num hotel de 5 estrelas. Para comunicar com estranhos, usará os gestos, fará sons estranhos e usará todas as suas capacidades de atuação, até que, eventualmente, recorrerá ao Google Tradutor para ajudá-lo.

A viagem no comboio transiberiano será provavelmente uma das experiências mais relaxantes e gratificantes que terá o privilégio de experimentar, pelo menos para mim foi!

A nossa cabine não tinha casa de banho, mas apenas um banheiro unissexo que servia todas as 10 cabines da nossa carruagem. Não havia chuveiro e apenas água fria para as mãos e o rosto. Usar o banheiro foi uma experiência fascinante na primeira pessoa, já que quando puxava o autoclismo, um buraco abria-se e mostrava os carris. Não preciso de entrar em grandes descrições porque quero que durante um momento visualize este cenário: puxar a água que elimina as suas últimas refeições russas. Todo o tempo ouvia-se o som do comboio que vinha diretamente do buraco e que nos lembrava que a viagem continuava. Durante esta viagem, imaginei quantos milhares de refeições teriam sido “lançadas” no mesmo buraco nos últimos 40 anos em que esta carruagem tem estado em circulação.

A nossa cabine também não tinha pontos de carregamento para os nossos telemóveis, pelo que tivemos de utilizar os pontos de carregamento comuns nas cabines centrais. Surpreendentemente, os nossos telefones acabaram por durar muito mais no comboio, já que não tínhamos Wi-Fi ou qualquer outro tipo de receção móvel. Recorremos aos telemóveis simplesmente para tirar fotos e usámo-los como relógios para confirmar o tempo, que incidentemente se move mais devagar do que em qualquer outro lugar do mundo.

Deparámo-nos com 20 horas de luz do dia quando viajámos durante as noites brancas e ainda assim dormimos tão profundamente, já que nos sentíamos embalados como bebés pelo movimento monótono do comboio. Não são necessários comprimidos para dormir ou quaisquer outras ajudas quando entramos em sonhos maravilhosos no nosso beliche básico, que apenas tem um travesseiro e um lençol fornecidos pela companhia.

À medida que nos familiarizámos mais com o ambiente e nos aventurámos, explorámos o resto do comboio. Movemo-nos de carruagem em carruagem, abrindo as portas de separação que rangiam e batiam quando fazíamos o nosso caminho. No percurso para a carruagem do restaurante, deparámo-nos com todos os tipos de passageiros e rapidamente apreciámos o facto de não termos sido colocados na mesma cabine com alguns dos jovens soldados de aparência rude. Havia pontos turísticos interessantes e muitos cheiros peculiares à medida que avançávamos ao longo das carruagens e, muitas vezes, tivemos que conter a respiração e acelerar o ritmo, concentrando-nos na nossa missão de chegar ao outro lado. Devo admitir que, nesta fase, não fizemos novos amigos, evitámos o contato visual e seguimos em frente rapidamente.

Assim que chegámos ao restaurante e ao bar, ficámos agradavelmente surpresos ao ver como poucos passageiros recorriam aos seus serviços. Mas rapidamente apercebemo-nos que esta pouca afluência devia-se aos preços caros e à oferta dececionante da comida russa. Descobrimos que os moradores locais preferiam levar comida ou sair nas estações para comprar refeições e bebidas. Isto fez com que esta carruagem fosse a nossa favorita, pois pedimos sandes simples e muitas cervejas que tinham preços razoáveis para os estrangeiros. Foi aqui que também passámos o tempo a jogar às cartas e a conversar com quem conseguíssemos comunicar.

Algumas das nossas melhores memórias em família são desta carruagem, dos momentos em que jogámos às cartas, fizemos quizzes, lemos ou simplesmente conversámos sem qualquer dispositivo eletrónico por perto e totalmente isolados do resto do mundo, enquanto desfrutávamos de alguma comida e bebíamos cerveja gelada e chá quente.

Do lado de fora, observámos maravilhosas paisagens naturais da Taiga, montanhas e extensos rios, mas também vimos alguma pobreza extrema e a vida quotidiana das cidades e do campo. Muitas casas são feitas de madeira e parecem cansadas e frágeis, vimos também muitos edifícios soviéticos assustadores e que não têm personalidade, e que são exatamente o que se esperaria ver no período da Cortina de Ferro da Rússia. Isto faz-nos pensar o quão difícil foi a vida para os russos durante a maior parte da sua história – desde os Cosaks até à queda da União Soviética parecia haver sempre algum conflito. Observámos sepulturas em massa em memória dos Gullahs assassinados aos milhares por Stalin depois da Segunda Guerra Mundial. É certo que é uma história intrigante e esperada, já que a Rússia é, afinal, o maior país do mundo.

Durante nossa viagem de São Petersburgo à Mongólia, parámos e ficámos em algumas belas cidades, onde os guias locais se orgulham que as visitemos e as mostram entusiasticamente. As suas histórias de vida pessoal são incríveis e normalmente envolvem assassinatos e explosões, tornando-os eternamente lendários, mas ficamos com a sensação de que existem muitas outras destas histórias violentas.

A cultura e a arte são evidentes e existem em abundância, os russos valorizam-nas como podemos comprovar nos seus museus e galerias. Há muitos jovens artistas e músicos talentosos nas ruas a tocar e a pintar, à espera de serem “descobertos”.

A cozinha russa e os alimentos estrangeiros caracterizam-se pelos mais elevados padrões e não nos desapontaram. Há parques e cafés maravilhosos onde nos podemos simplesmente sentar e ver os moradores, que, na sua maioria, estão muito bem vestidos e cujas vidas no final são muito semelhantes às do nosso próprio país de origem.

Quando regressámos à nossa cabine, parecia que à medida que ficávamos mais tempo nela mais espaçosa estava, já que todos acabámos por encontrar a nossa posição favorita – aquela que nos ajudava a relaxar e a sentirmo-nos mais ligados uns aos outros, principalmente quando uma ou outra parte do corpo se tocava.

Todos nós, os cinco, decidimos ficar na mesma cabine e foi reconfortante testemunhar o quão relaxados crescemos juntos, especialmente quando começou o stress com as lutas por conquistar espaço e ângulos confortáveis. Acabámos por encontrar conforto uns nos outros, pelo que não consigo imaginar não ter todos os meus entes queridos comigo nesta viagem.

Ouvi as conversas entre os meus filhos e percebo o quanto os amo. Também fiquei a admirar ainda mais a minha esposa, pelo seu talento único em ajudar todos a sentirem-se confortáveis, implorando o bom senso e o amor incondicional.

Será que interessa o facto de não termos todos os luxos de um quarto de hotel convencional, de termos espaço limitado, de não termos acesso Wi-Fi, de não podermos comunicar livremente e de, literalmente, termos de nos aguentar com as idas à casa de banho?

O que interessa é que temos milhares de quilómetros de incríveis, paisagens panorâmicas, temos chuva leve e pacífica, sol e estrelas… tudo incluído. Temos conversas com significado e uma riqueza de memórias que permanecerão para sempre com os meus filhos, mesmo depois de eu morrer. Conhecemos as nossas forças e tornámo-nos mais fortes, mais agradecidos por tudo o que temos, ao vermos as antigas cidades atingidas pela pobreza ao longo da viagem. Tornámo-nos mais ricos com esta aventura familiar e sei que, no futuro, vou sentir saudades e que vou querer repetir de novo a experiência sem luxo, sem Wi-Fi, spa, ginásios ou pequenos-almoços incluídos e até mesmo partilhando novamente instalações sanitárias.

No final, quando as coisas correm mal, aprendemos a ser russos e dizemos “Isto é a Rússia, tudo pode acontecer”. Também conhecemos muitos novos companheiros e aprendemos a amar a mãe Rússia durante a nossa aventura. Também – e mais importante – experimentámos o luxo final de tudo, o tempo para a família… que é o melhor da vida.

Por Tim Vieira

Nota de editor – Tim Vieira está, desde junho, a viajar pelo mundo acompanhado pela família. Durante 118 dias irá visitar 11 países (Rússia, Mongólia, China, Vietname, Tailândia, Singapura, Nova Zelândia, Austrália, Malásia, Japão e Canadá).

 

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(English version)

A 3,5m2 Train Cabin but a 10.000km experience

When we travel, we have grown accustomed to hotels with big luxurious rooms, king-size beds, gorgeous spa’s and gym facilities and the easy access to a top restaurant. We expect room service, a full breakfast included, fast Wi-Fi service, along with 200 TV channels watched on a large flat screen in our room. We expect to be greeted by a receptionist that speaks your language and always be at our beck and call. All this while still enjoying the advantages of some loyalty program.

What if I told you that you won’t get any of this but it will most probably be your most unforgettable holiday adventure ever.

Yes, you heard me correctly, your “room” will be a mere 3,5m2 train cabin, shared with another 3 room mates who most probably don’t speak any English. Nevertheless, you will surely meet more people and smile at more people during this trip than during any stay in a 5 star hotel. In order to communicate with interesting strangers, you’ll use hand signals, make odd sounds and use all your acting skills, until you eventually decide to use Google translate to assist you.

This Trans-Siberian train trip will probably be one of the most relaxing and gratifying experiences you will ever be privileged enough to experience.

Our Cabin has no en-suite bathroom but only one unisex toilet for all 10 cabins on our carriage. There is no shower and only cold water for your hands and face. Using the toilet is a fascinating experience all on it’s own, when you flush, a hole opens up and you can see the train track rushing by below you. I don’t need to explain this point any further but will let you take a moment to visualize the view as you pump away on your foot pump to flush away your last few Russian meals. All the while the sound of the train comes right through the hole reminding you that the journey continues. I found myself wondering how many thousands of meals had been dropped down this same hole over the last 40 years that this carriage has been in use….

Our cabin has no charging point for our mobile phones, so we have to make use of the communal charging points in central cabins. Surprisingly our phones last a lot longer on the train as we have no Wi-Fi or any mobile reception for that matter. They are simply used for taking photos and as glorified clocks to confirm the time, which incidently, moves slower than anywhere else on the globe. We have 20 hours of daylight as we are travelling during the white nights and yet we sleep so deeply as we are rocked like babies by the train’s monotonous motion. No sleeping pills or any other sleeping aids required as we enter wonderful dreams while sleeping on our basic bunk, with the provided pillow and sheet.

As we become more familiar and adventurous, we explore the rest of the train, moving along from carriage to carriage, opening the separation doors which squeak and bang as we make our way through the train. En-route to the restaurant carriage we see all sorts of fellow passengers, and quickly appreciate the fact that we’ve not been allocated a cabin with some of these brut looking young soldiers. There are interesting sights and lots of peculiar smells as we carry-on along the carriages, sometimes having to hold our breath and accelerate our pace, focussing on our mission at hand of getting to the other side. I must admit, at this stage we made no new friends, avoided eye contact and moved along quickly.

We finally arrive at the restaurant and bar carriage and we’re pleasantly surprised to see how few passengers make use of it. On closer inspection we realise it’s due to the expensive prices and rather disappointing Russian food offer. We find out that the locals prefer to bring food onboard or pop out at stations to buy meals and drinks. This makes this carriage a favourite for us as we order simple toasts and lots of beers which is very reasonably priced for us foreigners. It’s also where we spend time playing cards and striking up conversations with anyone we might hear speaking a language we can communicate in. Some of our best family time memories are made in this carriage, we play cards, do quizzes, read or simply converse together without any electronics and totally isolated from the rest of the world, while munching away on snacks and drinking cold beer and hot tea.

Outside, there’s wonderful natural views of the Taiga forests, mountains and expansive rivers and at the same time we see some extreme poverty and everyday life passing by in the cities and country side. Many houses are built of wood and look tired and frail, we also see many of the Soviet buildings and these are almost scary looking bland and characterless and are exactly what you would expect to see back in Russia’s iron curtain period. It makes you think how tough it’s been for Russians, for most of their history since the Cosaks till the fall of the Soviet Union there seemed to always be some or other conflict. We see mass graves in remembrance of the Gullahs murdered in their thousands by Stalin after world war 2. Admittedly, it’s an intriguing history which should be expected as Russia is after all the largest country in the world.

During our trip from St. Petersburg to Mongolia we have stopped and stayed at some beautiful cities, where local guides are so proud to have you visit and enthusiastically shown you around. Their personal life stories are incredible and normally involve murders and explosions making them forever legendary, you get the feeling however that there are many more of these violent stories to come in the future.
Culture and art are evident and in abundance, Russians value these and have wonderful museums and galleries celebrating such. There are many young talented artists and musicians on the street playing and painting, just waiting to be discovered.

Russian cosine and foreign foods are of the highest standards and value and we haven’t been disappointed. There are wonderful parks and coffee shops where you can just sit and see locals in the larger cities who are mostly very well dressed going about their lives which in the end are very similar to our own back home.

Back in our cabin it seems to be getting more spacious the longer we stay in it, as we all find our favourite position, we enjoy this lounging around, feeling connected to each other by having one or other body part touching. All 5 of us have decided to stay in one cabin together and it’s been comforting to witness how relaxed we have grown together, especially as it started stressfully with fights for space and comfortable angles. We now find comfort in each other and I can’t imagine not having all my loved ones with me on this trip. I listen to the conversations between my kids and realize just how much I love them. I’ve also increased my admiration for my wife, with her unique talent of making everyone comfortable by imploring common sense and unconditional love.

Who cares that we don’t have all the luxuries of a conventional hotel room and that we have limited space and no Wi-Fi and can’t communicate freely and that we literally have to contemplate our toilet visits.

What we do have is thousands of kilometres of amazing scenic views, we have light peaceful rain, sun and stars all included. We have meaningful conversations and a wealth of memories created that will stay with my kids forever even after I’m gone. We got to know our strengths and we become stronger, more grateful for all we have, as we see the old poverty stricken towns along our journey. We have become so much richer with this family adventure and I know that in the future I will miss it and that soon I will hope to do it all over again with no luxuries, no Wi-Fi, spa’s, gyms or breakfast included and yes even sharing toilet facilities again.

In the end when things go wrong we have learnt to be Russian and say “This is Russia anything can happen”, we have also met many new Comrades and grown to love mother Russia during our adventure. We have also experienced the ultimate luxury of all, family time …. which is the Best of all once you know about it !!!

 

 

3 comentários

  1. Pedro Baptista

    18 de Julho de 2019 at 10:25

    Be a traveller not a tourist! A great and wise sentence someone said once. Traveling is by far the best investment in ourselves and together with the most important people of our lives…

  2. Sybil VR Kleinmichel

    18 de Julho de 2019 at 7:36

    Bravo, Tim! What a courageous, adventurous and brilliant example of how to live, think and write. Sitting in my garden in Germany with my fat cat, you have taken me there to another time and place with this beautiful narrative. Making me wanna to reconnect with my own family, rough it again and get back to what really counts: Time together, uninterrupted by outside issues, slowing this whole damn thing down and reconnecting to love, time together and all things worthwhile on this side of the radishes. Thank you.

  3. Jose monteiro

    18 de Julho de 2019 at 4:46

    Muito bom, é espantástico, quer dizer: é um espanto e fantástico . Aproveitem o máximo que possam e o que resta da viagem seja ótimo. Saúde e boa disposição, nada de stress. Um ab

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