Quinta da Comporta. O homem sonha e a obra nasce

Por a 11 de Junho de 2019 as 15:26

Quem percorre o muro branco que rodeia a  Quinta da Comporta – Wellness Boutique Resort na vila do Carvalhal, não imagina que dentro está possivelmente um dos hotéis do qual muito se falará daqui para a frente. Seja pela diferenciação do produto, seja pelo conceito da hotelaria que se pretende implementar na unidade, combinando a hospitalidade asiática com a assertividade da cultura europeia.

Miguel Câncio Martins é o proprietário e mentor da Quinta da Comporta – Wellness Boutique Resort. Para lá do arquiteto com uma obra reconhecida – foi responsável por projetos como o Heritage Av. da Liberdade e o Conrad Algarve – está um apaixonado pela Comporta, local onde passou a infância. Mais do que um projeto de hotelaria, o Hotel Quinta da Comporta é um sonho antigo do arquiteto.

Em 2012, Miguel Câncio Martins deu início ao hotel, com a escolha e compra da propriedade de quatro hectares. A situação económica e a ausência do país – o arquiteto vivia nessa altura em Paris -, levaram a que, somente em 2016, retomasse o projeto. Com a aprovação do financiamento do Portugal 2020 concluída, deu-se início às obras em março de 2017. Dois anos depois o hotel abriu e o sonho parece concretizado.

Miguel Câncio Martins tem a autoria de todo o hotel e até criou a marca e o logotipo. Nota-se a preocupação em não ser “excessivamente construtivo”. O edifício central da propriedade, um antigo armazém onde se guardava o arroz, foi mantido e é nele que estão distribuídos os 61 quartos do hotel com diversas tipologias. De raiz construíram-se os edifícios do restaurante, do Spa e as villas.

“O arquiteto Miguel Câncio Martins quis manter a traça do património edificado, podíamos ter construído mais unidades de alojamento, mas a ideia era manter a sustentabilidade do local e da Comporta. O arquiteto gosta de ver a Comporta como um local único, preservado, sustentável, e que possa ser reconhecido internacionalmente”, refere Ana Beatriz, responsável da ABC Hospitality, empresa de consultoria que está a assessor o projeto. A decoração reflete as várias viagens e os locais onde Miguel Câncio Martins já esteve. Um deles é Las Ventanas al Paraíso, no México, um dos sítios que mais inspira o arquiteto.

Marie-Hélène Moreira é a diretora da Quinta da Comporta – Wellness Boutique Resort e a responsável por implementar o serviço hoteleiro que se pretende de elevada qualidade. Francesa, mas filha de pais portugueses, trabalhou em Portugal no início da carreira, mas foi na Ásia que passou os últimos anos, trabalhando para marcas como a Aman Resorts e a Orient Express, em locais como Bali ou a Tailândia. Juntou-se ao projeto em junho de 2017, quase dois anos antes da conclusão. Após uma entrevista com Miguel Câncio Martins, a empatia foi imediata. “Acredito numa hotelaria virada para o cliente, ‘out of the box’, uma hotelaria que vem primeiro do coração, inspirada no serviço da Ásia, combinada com o lado eficaz da Europa”. Encontrar um equilíbrio em que as pessoas conseguem “ser simpáticas e trabalhar de coração aberto” é uma das missões da diretora geral.

Nada foi deixado ao acaso na elaboração do conceito e do serviço que sustenta o hotel. Por essa razão, a equipa, composta por mais de 80 colaboradores, foi contratada meses antes da abertura da unidade. No caso dos responsáveis das diversas áreas, estão a trabalhar há um ano e a restante equipa desde dezembro do ano passado. Vêm dos quatros cantos do mundo, desde Singapura ao Brasil, passando pelo Nepal. Mas também há portugueses, como o diretor de F&B, José Viegas, que trabalhou anteriormente na China e no Dubai. Em comum, têm as competências e os valores que a marca exige. “Precisamos de standards, mas também precisamos de incutir-lhes bom senso, a vontade, a flexibilidade, em suma, uma hotelaria que vem do coração”, refere Marie-Hélène Moreira. A inspiração que é transmitida pela formação constante é também suportada pelas condições oferecidas, garante Ana Beatriz. “A empresa oferece salários acima da média e condições de alojamento e transporte”.

Conceito
“The guest come here, stop the time and move slowly with the wind” (O cliente chega, o tempo pára e move-se devagar com o vento). A expressão é de Marie-Hélene Moreira e serve para ilustrar o conceito do Hotel da Quinta da Comporta e aquilo que se pretende que o hóspede sinta quando está na unidade. A experiência começa logo na chegada, o cliente é convidado a baixar o botão do volume de stress. Não há uma receção convencional, mas uma equipa que recebe o hóspede. “A partir do momento em que entra no resort a ideia é que não tenha de regressar à receção. Estamos onde o cliente estiver. No futuro até o ckeck-in será feito no quarto. Estamos a tentar aliviar a alma do cliente quando chega ao hotel”, refere a diretora.

A história da Comporta ligada ao cultivo, colheita e armazenamento do arroz foi transposta para o resort, seja nos edifícios, antigos celeiros, seja na restauração, ou até mesmo no Spa. O arroz é o fio que conduz toda a história do hotel. “No pequeno-almoço há uma água de arroz doce e no Spa um welcome drink de água de arroz” são alguns exemplos referidos.

A unidade está ainda a trabalhar numa marca própria de produtos de Spa com origem no arroz, à semelhança do que a Caudalie fez com o vinho. A marca chama-se Oryza e já esta a ser testada no Spa do hotel. A coleção de produtos vai ser lançada antes do final de 2019 e a expetativa é que seja comercializada na exterior e até para outras unidades hoteleiras.

Celeiros do Canadá, lustres de Bali e mármore nacional
Miguel Câncio Martins foi exímio na conjugação de materiais que compõem a arquitetura e a decoração do hotel. No restaurante, que recria um Celeiro Antigo do Canadá, encontram-se lustres de Bali e mesas de mármore. A decoração e a arquitetura conferem um ambiente tranquilo ao resort, que tem como pano de fundo o arrozal. Aberto ao público, o restaurante é liderado pelo Chef João Sousa, que estava anteriormente no Vila Vita Parc Hotel.
Os 61 quartos do edifício central são complementados com as quatro pool villas, que dispõem de três quartos, sala de estar, kitchenette e piscina privada.

A unidade é vocacionada para o mercado de lazer, perspetivando-se que a procura seja proveniente essencialmente da Europa – há uma comunidade muito grande de franceses na Comporta – e da América, mas também de mercados como a Rússia e Ásia. Os portugueses também são esperados, sobretudo nos fins-de-semana.

“Vamos apostar no segmento de lazer e retreats. Em julho e agosto vamos ser muito procurados para férias de praia. Os hóspedes vão ter muitas atividades ao seu dispor com sugestões para atividades e terra, no mar e no ar. Fora desses meses, vamos ter hóspedes que vêm passar fins-de-semana e/ou à procura de uma experiência mais holística e de relaxamento”.

Pontualmente, sobretudo em época baixa, a unidade também irá receber eventos corporate de lançamento de marcas de luxo, como por exemplo. O Hotel Quinta da Comporta integra a Small Luxury Hotels of World, beneficiando dos canais de comercialização da soft brand. Está ainda em outros canais de comercialização com operadores do segmento de luxo, como a Virtuoso ou a Mr&e Ms Smith. O preço médio de abertura do hotel é de 260 euros/noite. Mas na época alta esse valor pode chegar aos 500 euros.

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