“Se não conseguirmos criar experiências inovadoras vamos perder o comboio”

Por a 24 de Maio de 2019 as 12:08

Debater o alojamento turístico de uma ponta à outra, ou seja, desde a hotelaria ao Alojamento Local (AL). Este foi o mote que reuniu, no passado mês de abril, perto de 350 participantes na primeira edição da European Hospitality Summit, uma iniciativa organizada pela Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP). A cimeira foi o ponto de encontro para vários especialistas e atores do setor que alimentaram os diversos painéis nas duas salas da Academia das Ciências, em Lisboa.

“A nossa intenção era provocar um debate alargado sobre o alojamento turístico no seu todo e, para isso, trouxemos à discussão e à reflexão os temas mais atuais e aqueles que mais preocupam os profissionais da indústria e que constituem os verdadeiros desafios no futuro destas atividades”, refere ao Publituris Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP.

O programa contou com 16 painéis e perto 29 oradores, entre vários moderadores distribuídos por dois palcos. Em cima da mesa estiveram, ao longo do dia, várias temáticas em discussão como “Tendências e Perspetivas do futuro do Turismo em Portugal”, “O boom do Alojamento Local”, “Megatendências digitais da reserva, ao acolhimento, ao hóspede” ou “A importância da formação na indústria”. Em paralelo, decorreram diversos workshops dirigidos aos profissionais do setor. “Pretendíamos que os temas fossem abordados na perspetiva das problemáticas com que hoje estas atividades se defrontam, mas também na perspetiva da oportunidade, daí que tivéssemos optado por abordar matérias como a inteligência artificial ou as novas tendências digitais”, acrescenta a responsável da associação. A tecnologia esteve também em destaque com a presença de várias ‘startups’ que apresentaram diversas soluções de negócio inovadoras.

Para Ana Jacinto, a iniciativa tem pernas para andar no futuro, a avaliar pelo balanço positivo que faz da primeira edição. “A European Hospitality Summit quer assumir-se e destacar-se como um amplo espaço de ‘networking’ e de possibilidade de inserção de novos agentes que certamente irão contribuir para o desenvolvimento desta esfera em que trabalhamos”, assegura.

Desafios do setor: consolidar e inovar é preciso
Os constrangimentos atuais e os desafios futuros do Turismo foram duas das temáticas que serviram de base aos trabalhos da primeira edição da cimeira sobre alojamento turístico. Numa altura em que o país está a caminhar a passo mais brando, face aos anos anteriores, os vários oradores apontaram soluções. “Temos de estar preparados para não crescer como nos últimos anos. O crescimento tem de ser feito agora em valor. Temos de pensar na diversificação de mercados”, refere Lídia Monteiro, diretora de marketing do Turismo de Portugal, que integrou o painel “Tendências e Perspetivas do futuro do Turismo em Portugal”. Adolfo Mesquita Nunes, que participou no mesmo debate, não se mostrou reticente com os constrangimentos do setor. “Depois de termos crescido a dois dígitos e mesmo com destinos como a Turquia e Tunísia a renascer, não faz sentido falarmos em final de ciclo. Há sim um abrandamento. Era preciso fazermos muita coisa muito mal feita para darmos cabo disto”, afirma. Sobre a possível estratégia de o país apostar mais na promoção de destinos menos evidentes, como o interior, o orador disse acreditar que este processo irá acontecer naturalmente e que, com o tempo, os visitantes vão dispersar pelo território à procura de novas experiências. “É preciso promover a marca Portugal como um todo e não apostar em realidades geográficas que ninguém conhece”, sublinha.

O ‘Brexit’ acabou também por marcar presença e sentar-se à mesa com os participantes. Cristóvão Lopes, diretor-executivo do Falésia Hotel, disse que este assunto é “uma preocupação real” para os hoteleiros do Algarve “devido ao peso deste mercado na região”. Lídia Monteiro relembrou que o Turismo de Portugal tem atuado neste sentido e destacou a campanha ‘Brelcome’, levada a cabo pela entidade junto do mercado do Reino Unido e, que, de acordo com a responsável, já impactou sete milhões de britânicos.

Sejam quais forem os passos dados daqui em diante, é imperativo que todo o setor caminhe lado-a-lado com a inovação, de forma a elevar a experiência no país, defendem os convidados da cimeira. Neste âmbito, Paulo Rego, da PT Empresas, que integrou a mesa redonda sobre tendências digitais, deixou uma crítica aos hotéis nacionais: “Os hotéis em Portugal ainda estão muito longe da tecnologia. Nunca fui a uma unidade que tivesse um ‘vídeo wall’, com ‘self check-in’ e ‘check-out’. A minha estadia ainda não é digital”, alerta. Para o porta-voz da empresa de telecomunicações, há já “vários meios disponíveis que permitem personalizar a estadia do cliente e “acrescentar-lhe valor”, indica. Neste sentido, exemplifica: “Por exemplo, todos os meses vou à Madeira, em trabalho, e fico sempre alojado no mesmo hotel. Sempre que lá chego tenho um bilhete no quarto a indicar a oferta de um vinho da Madeira. Mas eu não gosto desta bebida e opto sempre por um gin. O hotel já deveria ter percebido o meu gosto e personalizado a minha estadia com a oferta de uma bebida que me agrade”, aponta.

O caminho é só um para Adolfo Mesquita Nunes: “Se não conseguirmos criar experiências inovadoras vamos perder o comboio”, conclui.

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