Opinião | Consumo sem Rendimentos?!

Por a 4 de Março de 2019 as 13:01

É praticamente inegável que o consumo das famílias depende, em grande medida, dos seus rendimentos (compostos, essencialmente, por salários). Contudo, tem emergido um padrão bastante enigmático na generalidade dos países (incluindo em Portugal): a queda dos salários e o concomitante aumento do consumo.

Esta tendência costuma ser designada como o “efeito Ratchet”, segundo o qual as famílias não diminuem o seu consumo quando perdem rendimentos porque já estão acostumadas a um certo padrão de vida e não o querem perder e porque também não querem mostrar às demais famílias que estão mais pobres.

Assim, a única forma que as famílias têm ao seu dispor para contrariar a queda dos seus rendimentos e manterem o poder de compra passa pelo recurso ao crédito, sobretudo porque as suas poupanças são quase inexistentes. O endividamento tem permitido que as famílias compensem a perda de rendimentos, sustentem ímpetos consumistas, alimentem desejos de consumo conspícuo ou ostentatório e imitem os estilos de consumo dos vizinhos “Joneses”.

Este comportamento das famílias poderá parecer insustentável e irresponsável, mas isto pode ser facilmente contrariado por duas razões. Por um lado, o crédito é concedido pelos bancos, os quais atestam que as famílias têm capacidade de honrar os seus compromissos. Por outro lado, as famílias sentem-se na verdade mais ricas (mesmo tendo menores rendimentos) porque as suas casas estão agora mais valiosas.

Ainda que esta evolução pareça perigosa, os seus efeitos são sempre positivos nos períodos de crescimento. Afinal de contas, as famílias consomem mais (logo sentem-se mais satisfeitas e optimistas), as empresas pagam menos salários e vendem mais produtos (logo têm mais lucros), os bancos concedem mais crédito (logo têm mais lucros), e o Estado recebe mais impostos (logo tem mais receitas). O pior acontece quando a economia abranda e, nesses casos, a história da última crise pode voltar a repetir-se. Mas como é típico do bom pensamento português, “águas passadas não movem moinhos”.

Por Ricardo Barradas, professor universitário ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa.

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