50 ideias para o Turismo | Não imolar o Turismo português: um objectivo a curto prazo

Por a 24 de Janeiro de 2019 as 14:00
Carlos Silva Neves, administrador Grupo Sana

Os recursos humanos directa ou indirectamente afectos à indústria do turismo não podem, em caso algum, ser dissociados da qualidade da oferta de produtos turísticos pelos quais Portugal é actualmente – e cada vez mais – reconhecido. Nestes produtos incluem-se os empreendimentos turísticos, os alojamentos locais, as agências de viagens e de transportes e outros que compõem a oferta nacional na indústria do turismo.

Actualmente, o grau de competitividade dos players do sector está intimamente relacionado com a qualidade dos seus recursos humanos porquanto, embora globalmente caminhemos para a “robotização laboral”, nesta indústria as pessoas, intuitu personae e integradas em organizações estruturadas, serão sempre insubstituíveis e determinantes no relacionamento com o Cliente. São as pessoas que oferecem ao Cliente a elevada qualidade existente, que se reflete nos serviços prestados, e que criam empatia, geram emoções, definem acolhimento e hospitalidade, a par de outras impressões naturalmente relacionadas com a sua (nossa) condição humana. É este tipo de relação que o Cliente, seja em lazer ou trabalho, certamente procura e à qual se fidelizará, recomendando Portugal como um destino incontornável ao nível internacional.

Este artigo é escrito precisamente na semana em que está a decorrer em Lisboa a WebSummit, na qual se discute o desenvolvimento de novas tecnologias digitais (catalisadoras da globalização) e novos desafios mundiais, que continuamente elevam os desafios do sector do turismo de cada País e, em particular, de Portugal – que se afirma cada vez mais como um destino turístico prioritário e de excelência.

Contudo, na minha opinião, o grande desafio que o sector do turismo continua actualmente a enfrentar são mesmo os recursos humanos, nomeadamente ao nível do seu i) recrutamento, selecção e contratação, ii) formação académica e iii) formação profissional (inicial e continuada). É indiscutível que precisamos cada vez mais de recursos humanos com uma formação académica e profissional sólida e aprofundada.

Mas, como podemos criar (e reter) recursos humanos altamente qualificados e motivados? Quais as políticas e acções que as entidades, públicas e privadas, devem adoptar para alcançarmos este objectivo?

Haverá, antes de mais, que fazer um diagnóstico interno.

Em primeiro lugar, temos de analisar os níveis de formação dos recursos humanos que trabalham no sector do turismo; em segundo lugar, há que determinar os níveis e a regularidade afectos à formação profissional, inicial e continuada; em terceiro lugar, devemos repensar as remunerações praticadas.

No âmbito da formação académica, tradicionalmente e em termos gerais, o sector do turismo foi considerado de baixo e médio nível de escolaridade (comparado com outros sectores de actividade), porquanto ainda existe uma grande percentagem de colaboradores com um nível de escolaridade correspondente ao ensino secundário.

Fruto do assinalável e crescente contributo das universidades, politécnicos e escolas de turismo, que permitem aos educandos/formandos acederem a licenciaturas, mestrados ou doutoramentos no sector do turismo e, mutatis mutandis, aos cursos de formação especializada – que permitem aos colaboradores o desenvolvimento das suas competências técnicas, o que contribui directamente para a sua progressão profissional no sector – a tendência de hoje é decrescente no que respeita à existência de colaboradores com um nível de escolaridade mais baixo.

Aliás, não foi por acaso que a Organização Mundial de Turismo, Agência das Nações Unidas responsável pela promoção da sustentabilidade do sector, distinguiu o projecto formativo do Turismo de Portugal – Tourism Training Talent – com o 14.º prémio UNWTO, na categoria Políticas Públicas e Governança, pelo exemplo de capacitação que visa preparar as futuras gerações de recursos humanos no turismo.

Mas voltando ao diagnóstico interno que todos nós, repito, entidades públicas e privadas, temos de fazer e analisar, entendo que temos que procurar e obter respostas às seguintes questões:

1. Que níveis de formação são necessários no sector do turismo?
2. Que capacidades (“skills”) deverão ser procurados / valorizados nos candidatos?
3. Qual é o real valor do domínio de língua(s) estrangeira(s) e das novas tecnologias por parte dos recursos humanos que trabalham no sector do turismo?
4. Como são os Licenciados, Mestrados ou Doutorados considerados e relevados no setor do turismo?
5. Quais os níveis de remunerações justos e adequados para o sector do turismo?

Bem sei que devemos concentrar os nossos esforços na obtenção de respostas concertadas entre todas as entidades actuantes no sector do turismo (Governo, Confederações, Associações, Universidades, Politécnicos e Turismo de Portugal) mas acredito que, acima de tudo, devemos focar-nos na realidade existente, nas necessidades das empresas e nas dificuldades que estas experienciam na procura de recursos humanos com as valências e o expertise necessários.

Os grandes grupos hoteleiros têm, naturalmente, uma estratégia e plano de contratação e formação dos seus quadros muito diferente dos de um empresário que apenas explora uma unidade hoteleira ou um alojamento local, ou dos de outras empresas (agência de viagens, de transportes, de animação e outras) que façam parte do sector do turismo.

Mas qualquer destas entidades reconhece duas coisas: i) que existe a necessidade imediata de criar, para o mercado, colaboradores de excelência, e ii) que sem eles – ou mercê da nossa incapacidade de obtermos níveis de formação académica e profissional adequados, associada a uma política insensível à necessidade de proporcionar níveis de remunerações justos, adequados, dignos e valorizadores do mérito profissional – estaremos, na quota-parte de responsabilidade funcional que nos cabe no sector do turismo, a autoimolarmo-nos e a imolar, a médio e longo prazo, o sector do turismo em Portugal.

Trabalhemos para que tal nunca aconteça. Portugal não o merece, o turismo Português não o merece e os recursos humanos do sector também não; como temos vindo a provar nos últimos anos, quando nos aplicamos somos os melhores, em particular na arte de bem receber.

Por Carlos Silva Neves, administrador Grupo Sana
*No âmbito da celebração dos seus 50 anos, o Publituris convida uma figura do setor a lançar uma “Ideia para o Turismo”.

 

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