Opinião | Turismo: Atenção à Europa

Por a 18 de Janeiro de 2019 as 10:27

O Turismo no nosso país vive um momento positivo. Crescemos em todos os índices, batemos recordes, ganhamos prémios importantes. Ótimo!

Os prémios internacionais são merecidos. Refletem os resultados.

No entanto, o otimismo não pode dificultar a reflexão sobre a realidade complexa do Turismo, sobre as razões dos progressos, mas também sobre os desafios difíceis que encaramos.

Os prémios, apesar de enriquecerem muito a nossa imagem, não garantem, por si só, o sucesso.
E aqui os responsáveis institucionais do Turismo, sendo compreensível a valorização dos resultados apresentados como fruto da sua atuação, têm um papel de realismo e ponderação a desempenhar, num quadro de visão nacional, sem pressões corporativas de qualquer setor ou território, por mais importante que seja.
Nesse sentido refiro, hoje, um tema que considero prioritário: a Europa.

A questão prioritária do Turismo neste momento, para além das preocupações com a diversificação, é dar a máxima atenção aos mercados europeus, tendo em conta que surgem sinais que apontam para uma desaceleração do crescimento, e que a conjuntura internacional, nos mercados que mais nos tocam, dá sinais de abrandamento.
Estamos provavelmente no fim de um ciclo e no início de uma nova fase para a qual temos de nos preparar.

Consolidar Europa.  Diversificar
Aponta-se frequentemente como prioridades a diversificação de mercados e a captação de turistas com mais poder de compra.

Trata-se de objetivos que devem ser permanentes. Mas seria errado subestimar o que já somos no Turismo e pensar que está adquirido para sempre.

Em Portugal «esquece-se» sistematicamente que 88% das chegadas de turistas internacionais aos países europeus provêm da própria Europa, maior destino e maior gerador de turistas do mundo.

É a OMT que o diz. E anuncia que assim vai continuar para além de 2030.

Em Portugal «esquece-se» que cerca de 85% do total das dormidas (2017) dos turistas estrangeiros (42 milhões) provêm de 30 países da Europa. Que 80% provêm de 15. Que 75% provêm de 10. E que mais de 60% do total das dormidas provêm de cinco desses países (Reino Unido, Alemanha, Espanha, França, Países Baixos). Mais: nas receitas as percentagens são da mesma ordem. É evidente que a maioria dos prémios conquistados deve-se, sobretudo, a esta base europeia.

Portugal, tal como os outros países europeus, não tem turistas europeus a mais. E não pode perder os que tem para os seus concorrentes europeus. Não conheço nenhum país europeu que queira ter menos turistas europeus.
Claro que são importantes os turistas de outros continentes e devemos trabalhar para os conquistar.
Sem subestimar, nunca, os europeus. Uma base objetiva permanente e similar aos dos outros destinos turísticos europeus e de toda a Europa.

Certeza: Portugal não terá sucesso no Turismo se enfraquecer a sua posição no mercado da Europa.
Em 2018, já tivemos quebras de dormidas de britânicos, alemães e franceses. Só a quebra de dormidas de britânicos pode aproximar-se de um milhão. Mesmo sem o imprevisível Brexit e a anunciada desaceleração da economia na Europa. E a crise da UE.

São realidades sérias que exigem certezas e rigor estratégico, prioridades bem precisas e atuações atempadas.
Nova fase ou novo ciclo, o Turismo português tem de se preparar para os desafios que já aí estão.
Bom Ano!

Opinião de Vítor Neto, empresário e gestor, presidente do NERA, Associação Empresarial da Região do Algarve

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