Opinião | Há coisas que nunca ardem, mas vale a pena prevenir

Por a 17 de Agosto de 2018 as 10:52

Incêndios e catástrofes naturais são cada vez mais uma ameaça à prosperidade que o Turismo promete. Veja-se o que aconteceu em Portugal no ano de 2017, mais de 500 mil hectares ardidos, 111 mortos e muitos feridos. Para além das aldeias e casas destruídas, centenas de empresas foram afetadas e mais de 10 mil pessoas ficaram sem emprego. No plano da atividade turística, o resultado foi a destruição parcial ou completa de empreendimentos turísticos, hotéis, parques de campismo, casas de turismo em espaço rural, e de atrações turísticas ligadas à natureza, designadamente percursos pedestres e de ciclismo, áreas protegidas e praias fluviais. A paisagem tornou-se negra e a recuperação demorará anos.

Este cenário que agora se repete na Grécia e na Califórnia impacta na imagem e na competitividade dos destinos turísticos.

No caso do Centro de Portugal, a maior região turística do país, cerca de quatro dezenas de investigadores espalhados por 17 instituições de ensino superior apresentaram propostas de revitalização da região que vão para além da paisagem negra, com o argumento de que o referencial competitivo de um destino assenta mais na estratégia do que nos recursos naturais . No Centro, a riqueza cultural, a diversidade de produtos e a vontade de virar a página são expoentes que ninguém consegue fazer arder.

Existem produtos menos vulneráveis à natureza, mas sobejamente valorizados pelos turistas. É o caso da gastronomia, dos vinhos, da religião e da cultura. Por outro lado, o Turismo é cada vez mais uma forma de estar, por isso, convoca-se a aposta no turismo termal, o desenvolvimento de rotas culturais que contem histórias sobre as gentes e os espaços e a educação para a sustentabilidade, já que grande parte dos problemas ambientais que herdamos decorrem da negligência dos utilizadores.

Apesar da vontade de recuperação, medidas preventivas orientadas para a previsão, planeamento e alteração de comportamentos de risco são amplamente recomendadas para evitar o flagelo e a deterioração do vastíssimo património ambiental que caracteriza o Centro em particular e qualquer destino no geral. A justificar uma prevenção cada vez mais assertiva deve estar a consciência de que, não são só as paisagens que ficam devastadas: é o equilíbrio do ecossistema que se deteriora.

O Turismo é um dos principais motores da economia portuguesa, mas não é solução para tudo. A resignação e otimismo que levam os empresários a promover a revisitação não é a chave do sucesso duma atividade que deve ao capital natural a sua génese. Prevenção, planeamento e educação para a sustentabilidade são amplamente recomendados para que os flagelos não se repitam.

Por Antónia Correia, directora da Escola de Turismo e Hospitalidade da Universidade Europeia.
Artigo publicado na edição de 3 de Agosto do Publituris.

Um comentário

  1. António Ferreira

    23 de Agosto de 2018 at 19:37

    A Doutora Antonia correia e uma grande conhecedora do turismo em Portugal.
    Este artigo reflete tudo o teremos de fazer para que o nosso pais e o mundo se organizem para termos uma maior qualidade de vida

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