Queda do mercado britânico preocupa Algarve e Madeira

Por a 16 de Agosto de 2018 as 16:02

As descidas apresentadas pelo mercado britânico, principalmente no Algarve e na Madeira, estão a preocupar as autoridades de Turismo centrais e regionais, mas também a hotelaria, que clama por mais e melhor promoção. Mas nem só com promoção se conseguirá colmatar a descida do principal mercado emissor de turistas para Portugal que, este Verão, deverá ficar longe dos números de outros anos.

O crescimento do Turismo nacional tem sido animador e, em Maio, voltou a ser positivo, com aumentos globais de 3,5% no número de turistas, mas também de 9,5% nos proveitos, de acordo com os mais recentes dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). Os números são positivos e mostram a pujança que o sector turístico nacional tem vindo a apresentar.

No entanto, nem tudo é cor-de-rosa e há mesmo algumas nuvens cinzentas a acumularem-se por culpa do Reino Unido, o principal mercado emissor de turistas para Portugal, que assume uma importância ainda maior no Algarve e na Madeira, as regiões portuguesas que, por norma, acolhem o maior número de turistas britânicos.

É que, até Maio, o mercado britânico desceu 6,1% em hóspedes e 7,4% em dormidas, uma tendência preocupante, que fez já soar as campainhas das autoridades turísticas nacionais. “Claro que o mercado inglês nos preocupa, porque é um dos nossos principais mercados”, disse recentemente aos jornalistas Ana Mendes Godinho, secretária de Estado do Turismo, quando confrontada com as descidas do Reino Unido.

A dimensão das quebras começa a ser preocupante, tanto que o Turismo de Portugal e a Secretaria de Estado do Turismo lançaram, em Junho, um plano de combate à sazonalidade para Algarve e Madeira, iniciativa que, como explicaria Ana Mendes Godinho, é dirigida à época baixa e funciona como “uma campanha de marketing muito táctica”, com o duplo objectivo de reforçar a presença de Portugal no Reino Unido, assim como noutros mercados emissores, naquilo a que a governante chama de “diversificação de mercados” e que tem sido uma das apostas para colmatar quebras em mercados tradicionais, como o britânico. Mas muito mais terá que ser feito se Portugal quiser voltar aos números de outros tempos.

Impacto

A descida do mercado britânico vem-se sentindo desde Outubro de 2017 e pode ser explicada por uma série de factores, com o Brexit à cabeça, mas também a desvalorização da libra face ao euro, que tem puxado para cima os preços nacionais, levando os britânicos a optarem por destinos mais económicos, como a Tunísia, Turquia e Egipto, agora já sem grandes problemas de segurança. Depois, é preciso ter em conta a falência de companhias como a Monarch, Niki ou airberlin, que traziam milhares de turistas britânicos e cuja capacidade ainda não foi reposta, mas também o clima, este Verão pouco convidativo a banhos de praia. “As razões que justificaram os aumentos da procura ao longo dos anos anteriores, explicam também as descidas que agora se verificam”, resume Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), e uma das vozes mais críticas.

O presidente da AHETA denuncia os “momentos de enorme preocupação” que os empresários e hoteleiros do Algarve vivem, até porque, “em 2017, os britânicos já haviam descido” 8,5% nos hotéis algarvios, o que, segundo o responsável, representou menos “82 mil turistas e 450 mil dormidas”. Este ano, as quebras continuam, atingindo os 9,2% “até ao final do mês de Junho”, com Elidérico Viegas a estimar que esta quebra possa “ultrapassar os 10% no final do ano, mais ou menos 120 mil turistas e 700 mil dormidas”.

Na Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) existe igualmente “alguma preocupação”, até porque, refere Cristina Siza Vieira, directora executiva da associação, “estamos a falar do principal mercado no Algarve, e do segundo na Madeira”. Para a responsável, é “determinante” repôr as rotas que desapareceram, até porque “a diminuição da oferta leva a que os preços dos bilhetes de avião aumentem e, com a desvalorização da libra face ao euro, essa situação ainda se agrava mais”.

Dora Coelho, directora executiva da Associação de Turismo do Algarve (ATA), compreende as queixas e diz que “os actuais números são preocupantes para todos”, motivo pelo qual considera que “o Algarve tem de saber reagir atempadamente de forma a contrariar esta tendência”, ideia também defendida por Roberto Santa Clara, presidente da Associação de Promoção da Madeira (AP-Madeira). “Sendo o maior mercado emissor para a Madeira – dados de 2017, em hóspedes e dormidas -, naturalmente que tem um impacto directo na performance do destino e, por essa razão, requer um acompanhamento quase diário”, explica, defendendo ainda que “é vital ir percebendo os sinais do mercado e potenciar as oportunidades de negócio”.

Promoção precisa-se

“Manda o bom senso e, já agora a técnica, que quando se vende menos se deve promover mais”, diz o presidente da AHETA e parece ter razão, já que também Roberto Santa Clara defende que, “em 2019, é vital reforçar a promoção de Portugal, e no caso da Madeira em particular”. O responsável madeirense sublinha que “não podemos baixar os braços e apenas usar os números do Turismo como uma bandeira que alavanca a economia”, mostrando-se confiante quanto ao “novo período de contratualização entre as regiões e o Turismo de Portugal”, que está à porta e para o qual diz ter “natural expectativa” de “boas notícias”.

Mas Elidérico Viegas vai mais longe e defende que é necessário mudar também o âmbito da promoção, que deverá ser “inteligente e desenvolvida em parceria com o sector privado”, uma vez que, sublinha, “concentrar meios financeiros nos operadores tradicionais não parece a estratégia correcta e mais adequada no actual quadro concorrencial”, pois estes “operadores estão mais focados no regresso aos destinos onde têm grandes investimentos e que apresentam preços imbatíveis, encontrando-se pouco receptivos aos destinos de proximidade, considerados alternativos e pouco rentáveis”, considera. Para o responsável, “as estratégias promocionais não podem centrar-se nos apoios à operação, mas antes no ‘independent Traveller’, canais online, comercialização directa e transporte aéreo”, pois no Algarve a maioria das vendas já é “assegurada através da comercialização directa online”.

Dora Coelho concorda com a necessidade de incrementar a promoção e diz que, por isso, a ATA está a trabalhar num “projecto suplementar de promoção do Algarve”, com “acções especificas para fomentar o crescimento turístico durante os meses de Inverno”, com o qual espera “recuperar o vazio deixado pela insolvência das companhias aéreas”.

Na Madeira, a prioridade é semelhante, já que também Roberto Santa Clara diz que o destino tem vindo a trabalhar em “prol da recuperação da oferta de transporte aéreo”, “felizmente” já com bons sinais a aparecer, como confirmaram as “as recentes notícias de aumento de capacidade da British Airways e da Jet 2”, bem como sobre a “reintrodução de duas ligações semanais da Thomas Cook UK e o ligeiro aumento de capacidade da TUI UK para o W18/19”.

A campanha lançada pelo Turismo de Portugal e Secretaria de Estado do Turismo para a época baixa é, de forma geral, encarada como positiva, até porque, sublinha Dora Coelho, mostra que as autoridades continuam “a ter uma atenção e sensibilidade adequadas para avaliar as especificidades de cada região”.

Já Cristina Siza Vieira diz que “todas as iniciativas que visem aumentar da taxa de ocupação entre os meses de Outubro e Março, bem como a estada média, são bem-vindas”, mas entende que é necessária também “uma reflexão de fundo sobre o posicionamento do Algarve” e aponta o “investimento nas infraestruturas hoteleiras” como prioridade, lembrando que o “Algarve foi excluído das linhas do Portugal 2020, pelo que as condições de acesso ao crédito são bem mais gravosas, e é natural e imprescindível fazer um ‘refrescamento’ da oferta”.

Expectativas

Ana Mendes Godinho não se cansa de falar na diversificação de mercados como forma de compensar as descidas dos tradicionais e, para Elidérico Viegas, esta é uma aposta correcta, já que “os mercados com pouca expressão nas dormidas totais – França, Bélgica, Dinamarca, Suécia, Polónia, Canadá, Itália e Suíça – vêm mostrando comportamentos que surpreendem pela positiva, todos registam subidas muito interessantes”, motivo que leva o responsável a afirmar que “tem lógica e faz sentido o desenvolvimento de acções promocionais direccionadas para estes mercados, tendo em vista consolidar estes aumentos”.

Ainda assim, o responsável está apreensivo e considera que, apesar da subida dos preços, que tem permitido o crescimento dos proveitos, se as “descidas na procura” se mantiverem, “os proveitos totais e, sobretudo, os resultados empresariais só podem diminuir”, diz, alertando as perspectivas não são de crescimento nos próximos anos”.

Dora Coelho mostra-se mais confiante e acredita que o projecto que a ATA está a desenvolver vai contribuir para “tornar o Algarve numa fonte de atracção de novos públicos durante todo o ano e num destino competitivo capaz de fidelizar clientes e de voltar a conquistar os mercados que têm vindo a decrescer”, afirmando que “a expectativa é que a região consiga recuperar ou até mesmo ultrapassar os números obtidos no ano transacto”. No entanto, a responsável alerta que “esta perspectiva não será, à partida, concretizável já́ neste Verão, mas possivelmente até ao final do ano”.

Na Madeira, Roberto Santa Clara diz que a região tem vindo também a trabalhar “na consolidação de mercados importantes, como o holandês e o francês”, além dos EUA e Brasil, que “têm um elevado potencial de crescimento”. Em relação ao mercado britânico, o responsável espera que “exista um reajuste da procura e que, em 2019, se assista a uma efectiva recuperação”, caso não se verifiquem alterações no mercado.

Mais reticente está a AHP, que invoca um inquérito realizado junto dos seus associados, segundo o qual o mercado britânico deverá cair para 32% dos inquiridos do Algarve e para 59% dos inquiridos na Madeira. “Por isso, não sabemos se iremos atingir os números de outros anos, mas sabemos que há uma aposta grande em mercados como o americano, o brasileiro ou o chinês e que o número de turistas provenientes desses países tem aumentado”, conclui a responsável.


Procura britânica na easyJet continua em alta
Apesar da descida do número de turistas britânicos em Portugal, a easyJet continua a ter os seus voos cheios, com José Lopes, director da easyJet em Portugal, a afirmar que a low cost britânica está “a crescer no mercado britânico para Portugal, nos quatro aeroportos”.
“Não sentimos nenhum retrocesso, antes pelo contrário, Portugal continua a ser um destino com boa apetência, aliás, se não fosse, não estaríamos agora a abrir, para o Inverno, que não é a altura mais forte em termos de aviação, mais uma rota do Reino Unido para Faro, a Faro-Manchester”, disse o responsável, durante o Farnborough International Airshow 2018.
José Lopes diz não acreditar que “o Turismo britânico vá deixar de escolher Portugal como um dos principais destinos de férias”, apesar de compreender as queixas da hotelaria. “A hotelaria queixa-se que há menos britânicos porque houve uma companhia importante a ir à falência [Monarch]. Aquilo que nós temos sentido é que, nas nossas rotas, nomeadamente para Faro e Funchal – onde essa companhia operava com mais força -, continuamos a ver o tráfego a crescer. Portanto, não vemos nenhuma retracção, pelo contrário, o mercado britânico tem continuado a subir”, explicou.
Ainda assim, José Lopes acredita que o mercado “levará algum tempo a ajustar-se”, uma vez que muitas das rotas da Monarch “não eram rentáveis” e “as companhias que ficam não vão operar rotas se não forem rentáveis. Por isso, poderá levar algum tempo, mas o mercado ajustar-se-á”, acrescentou.

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