Malta | Um autêntico museu ao ar livre

Por a 9 de Agosto de 2018 as 17:50

Existirão poucos países no mundo com uma dimensão tão reduzida e que, ao longo da história, tenham sido tão disputados quanto Malta. Este pequeno arquipélago do Mediterrâneo tem uma posição estratégica e, por isso, foi invadido por um sem fim de povos, numa mistura que contribuiu para a cultura única que Malta tem hoje em dia e que deixou no país monumentos impressionantes, ingredientes que fazem de Malta um destino turístico sem igual.

Portugal está mais presente em Malta do que se possa imaginar. Pela primeira vez desde que sou jornalista de Turismo – e já lá vão alguns anos – não me falaram em Cristiano Ronaldo quando, em qualquer início de conversa, dizia que era portuguesa. Nesta pequena ilha do Mediterrâneo, quase colada à Sicília e a escassos 200 quilómetros da Tunísia, no Norte de África, os portugueses são bem conhecidos e não é devido ao futebol ou ao Fado.
Ao longo da sua história, Malta foi invadida e colonizada por diversos povos e civilizações – fenícios, romanos, árabes, aragoneses, espanhóis e britânicos, foram alguns dos que passaram por Malta – mas, muito do que o país é hoje em dia, deve-se à Ordem de Malta, uma ordem beneditina fundada no século XI, durante a época das cruzadas, à qual as ilhas do arquipélago foram cedidas por Espanha, no século XVI, e que governou Malta até ao final do século XVIII, quando o país foi invadido por Napoleão.
As marcas deixadas por esta ordem militar cristã são muitas e chegam, inclusive, a Portugal, já que dois dos mais importantes e carismáticos grão-mestres da Ordem de Malta, que governaram as ilhas nos séculos XVII e XVIII, eram portugueses. Manoel de Vilhena e Manuel Pinto da Fonseca são, ainda hoje, figuras históricas incontornáveis, já que foi nos seus mandatos que a Ordem de Malta, e consequentemente o país, viveram os períodos de maior esplendor. Muitos dos mais imponentes monumentos de Malta foram edificados por ordem dos governantes portugueses, como o Forte Manoel, na ilha homónima, ambos baptizados em homenagem a Manoel de Vilhena. É por isso que, em Malta, Cristiano Ronaldo não é o português mais conhecido, até porque o futebol nem é o principal desporto deste país – o pólo aquático ganha por larga margem -, que tem na sua herança histórica e cultural os principais atractivos turísticos.
Estive em Malta entre 14 e 17 de Junho, numa famtrip para jornalistas realizada a convite do Turismo de Malta e da Air Malta, e, enquanto percorria as ruas, não conseguia deixar de pensar que este pequeno país, com apenas 316 quilómetros quadrados de área e 410 mil habitantes, é um autêntico museu ao ar livre, com a vantagem de ser banhado pelas águas quentes do Mediterrâneo e de ter uma cultura única, que reflecte a influência dos vários povos que passaram por estas ilhas ao longo da história. Ingredientes mais do que suficientes para fazer de Malta um destino sem igual.

Paisagem monumental

A chegada a Malta foi já a uma hora tardia e, por isso, só no dia seguinte a paisagem se revelou em todo o seu esplendor. A visita começou por Valletta, a capital do país desde meados do século XVI e que, este ano, é a Capital Europeia da Cultura.
Assim que cheguei ao Upper Barrakka Garden, um jardim localizado no topo da antiga fortaleza de St. Peter & Paul, percebi porque é que Malta é um destino tão procurado para filmes de época. Tróia, Conde de Monte Cristo ou Gladiador são algumas das películas de Hollywood que ali foram rodadas, assim como a primeira temporada da série Guerra dos Tronos, aproveitando o cenário monumental que a capital, assim como toda a ilha de Malta, proporcionam.
O Upper Barrakka Garden é o local ideal para apreciar a paisagem. Este jardim, hoje transformado em miradouro para que os turistas possam captar fotografias panorâmicas, está aberto ao público desde o ano de 1800 e oferece uma vista privilegiada sobre o porto de Valletta, bem como sobre as cidades de Vittoriosa, Senglea e Cospicua, que constituem o verdadeiro centro histórico de Malta. Estas cidades são muito mais antigas que Valletta – Vittoriosa, também conhecida como Birgu, era a sede da Ordem de Malta – e guardam diversas fortalezas, palácios e igrejas da época em que Malta era governada pela ordem dos cavaleiros-monges. Em Malta há, aliás, mais de 360 igrejas, “uma para cada dia do ano”, como costumam brincar os malteses.
Perto deste jardim, encontra-se a co-Catedral de St. John’s, local de visita obrigatória e ainda mais para os portugueses. É nesta catedral que se encontra sepultado Manoel de Vilhena e não se admire se, no meio da visita, encontrar alguns símbolos portugueses espalhados pela igreja. É que esta catedral foi construída após a chegada da Ordem de Malta, da qual faziam parte vários cavaleiros lusos, o que motivou a construção de uma capela dedicada aos portugueses e a colocação de vários símbolos nacionais na decoração deste espaço religioso.
A visita à catedral vale também a pena para apreciar os quadros de Caravaggio. A “Decapitação de São João” é o ex-libris e devo dizer que impressiona olhar para a tela frente a frente, quase olhos nos olhos com São João Baptista.
De visita obrigatória é também o Palácio do Grão-Mestre, edifício que serviu de residência aos governantes da ilha e que, hoje, está transformado num museu, onde os visitantes podem apreciar a história desta ordem militar cristã, através das armaduras e artefactos de guerra em exposição.
Depois de visitarmos o centro histórico de Valletta, apanhámos o elevador do Upper Barrakka Garden para descer até à zona do porto, onde subimos a bordo de um kajjik, embarcações típicas de Malta, que fazem lembrar os antigos barcos rabelo do Douro, para um agradável passeio que nos levou directamente até Vittoriosa.

De Vittoriosa a Marsaxlokk

Depois do passeio de barco, percorremos as ruas de Vittoriosa a pé, passando por edifícios com história, como a estalagem dos ingleses ou o Palácio da Inquisição, cuja fachada esburacada testemunha a violência dos bombardeamentos da II Guerra Mundial. O centro histórico de Malta não foi bombardeado, apenas o porto, mas os estilhaços das bombas deixaram marcas nos edifícios, testemunhos silenciosos da violência do conflito.
E foi enquanto contemplava as marcas da guerra nos edifícios que reparei nas tradicionais varandas maltesas que, à primeira vista, fazem lembrar as mashrabiyas árabes. Audrey Bartolo, a guia que nos acompanhou na ilha de Malta, explicar-nos-ia mais tarde que o estilo foi levado para o arquipélago pelos espanhóis, ainda que tenha, de facto, uma forte influência muçulmana, especialmente do Norte de África, que marcou profundamente a arquitectura espanhola da idade média. Ao que parece, o governo maltês tem concedido apoios aos proprietários que queiram recuperar estas tradicionais varandas em madeira trabalhada e, por isso, por todo o país há milhares delas, totalmente reabilitadas e pintadas com cores garridas, que dão um especial colorido às ruas.
Dá gosto percorrer as ruas de Malta. Por ser um território tão diminuto, as cidades históricas sucedem-se como se de bairros se tratassem, basta virarmos uma esquina para entrarmos numa cidade diferente, sem que nos apercebamos disso. Foi isso que senti quando visitámos Vittoriosa, que está colada a Senglea, mas também de noite, quando jantámos em St. Julian’s, no Wigi’s Kitchen, com vista para Sliema.
Depois de Vittoriosa, a vila piscatória de Marsaxlokk foi o destino seguinte. Localizada na costa Sul da ilha de Malta, esta pequena vila é famosa em toda a Europa pelo seu mercado de peixe, que se realiza aos domingos, bem como pelos muitos restaurantes que servem o peixe fresco, acabado de pescar. Não tivemos a sorte de apanhar o mercado, mas junto ao mar existia uma espécie de pequena feira, onde nos entretivemos a comprar souvenirs, depois de recolhidas as devidas fotografias da vila, cujas cores garridas das casas e barcos lhe conferem um ambiente muito diferente das restantes localidades maltesas.

Mdina e as praias de areia dourada

A manhã do segundo dia seria inteiramente dedicada a visitar Mdina, a cidade que foi capital antes de Valletta, também conhecida como a “Cidade Silenciosa”, uma vez que é totalmente amuralhada, o que contribui para que o silêncio reine no seu interior. Conhecia Mdina de ouvir falar quem já lá tinha estado, sabia que era uma cidade medieval bem preservada e, por isso, as expectativas eram elevadas. Devo dizer que não desiludiu em nada.
Logo à entrada, a imponência do portão e das muralhas tira o fôlego a qualquer um e transporta-nos directamente para a época em que aqueles edifícios eram habitados por cavaleiros e nobres. Não foi à toa que muitas das cenas de Guerra dos Tronos foram ali gravadas, na série Mdina é ‘King’s Land’, o reino central da trama, onde se localiza o famoso trono de ferro, que todos querem conquistar.
As ruas estreitas de Mdina e os edifícios antigos, com fachadas de pedra, são uma verdadeira delícia para quem gosta de locais históricos, assim como a vista que se tem do pequeno miradouro que encontramos ao chegar à outra ponta da cidade. Mdina é um daqueles locais que ficam na memória e que ninguém consegue deixar de visitar numa viagem a Malta.
E foi ainda fascinados com Mdina que seguimos viagem com destino às praias de areia dourada. Golden Bay e Ghajn Tuffieha são das praias mais bonitas em território maltês e, garanto, não vão deixar ninguém desiludido. Mas, como o destino era Gozo, voltámos a fazer-nos à estrada para apanhar o ferry que, diariamente, liga as duas ilhas maltesas. Pelo caminho, mais uma agradável surpresa, a Popeye Village.
Localizada na Anchor Bay e construída como uma autêntica vila piscatória para ser cenário do filme de 1980, a Popeye Village funciona actualmente como um parque temático, com restaurantes, lojas, cinema e um museu onde estão expostos acessórios usados no filme. O local é um dos principais atractivos turísticos da zona e mais um daqueles sítios que não podemos deixar de visitar em Malta. Não é cliché, é mesmo verdade!

A tranquilidade de Gozo

O arquipélago de Malta é constituído por três ilhas principais – Malta, Comino e Gozo – e todas as ilhas são diferentes. Se Malta é a ilha histórica, há muito descoberta pelos turistas, Gozo é um paraíso para quem procura tranquilidade, uma ilha mais rural, perfeita para quem gosta de férias longe da confusão. Confesso que gosto de um pouco de animação, mas Gozo cumpriu as expectativas.
Começámos por rumar aos Ggantija Temples, um complexo neolítico, de templos megalíticos, que são os mais antigos existentes em Malta, com mais de 5.500 anos, e que a UNESCO distinguiu como Património Mundial da Humanidade.
Depois dos templos, fomos para Vitoria, também conhecida como Ir-Rabat, e que é a capital da ilha. Tal como as cidades históricas de Malta, também aqui existe uma fortaleza digna de visita, bem como um sem fim de igrejas e catedrais que os turistas começam a descobrir. A visita à fortaleza decorreu imediatamente após o almoço de ‘pasta’ no restaurante Ta’ Rikardu, à boa maneira italiana, que tanto influencia a gastronomia de Malta.
Já a parte da tarde foi dedicada a descobrir os restantes tesouros de Gozo, nomeadamente os naturais. Primeiro, passámos nas Qbajjar Salt Pans, salinas tradicionais, onde o sal ainda é extraído à maneira antiga, e, depois, seguimos para Wied il-Mielah, uma janela escavada na rocha, com uma espectacular vista sobre o Mediterrâneo, apesar de não ser tão deslumbrante quanto era a janela de Dwejra, também ela imortalizada nas cenas de Guerra dos Tronos – foi com vista para esta janela que se celebrou o casamento de Daenerys e Kahl Drogo, na primeira temporada da série. Infelizmente, a força do oceano e do vento provocaram estragos na rocha, que acabou por sofrer uma derrocada há poucos meses, levando ao desaparecimento desta atracção. Mas, mesmo sem janela, a baía de Dwejra continua a valer o passeio.
A última noite em Malta foi também passada em Gozo, o que nos deu algum tempo para uns passeios a pé pela ilha, que é considerada um autêntico diamante por lapidar. Faltou apenas Comino, a mais pequena ilha do arquipélago de Malta, mas essa será a desculpa para, um dia mais tarde, regressar a um destino que tem tanto de diverso como de fascinante.

“Onde ficar?”

Ficámos três noites em Malta, as duas primeiras na maior ilha do arquipélago e o InterContinental Malta, unidade de cinco estrelas, em St. Julian’s, foi o hotel que nos acolheu. Aberto desde 2003, o InterContinental Malta conta com 481 quartos e suites, incluindo um piso de suites executivas, bem como seis restaurantes, seis bares, Spa, piscina infinita no rooftop e várias salas de reuniões. Esta unidade fica localizada em St. Julian’s, local de grande animação nocturna, onde existem várias lojas, bares e restaurantes. Os preços começam nos 150 euros por noite Já em Gozo, onde passámos a última noite, foi o Kempinski Hotel San Lawrenz que nos recebeu. Este resort de cinco estrelas, localizado em San Lawrenz, uma zona sossegada a poucos minutos de distância de Dwerja Bay, dispõe de 140 quartos e suites, Spa, centro de Ayurveda, bem como restaurante e bar com esplanada.

“Onde comer?”

A gastronomia maltesa é mediterrânica e tem uma forte influência italiana, mas também espanhola. Massas, pizzas e ingredientes como o tomate, o queijo, o pimento e as azeitonas são comuns, assim como o peixe fresco, já que o país é rodeado de mar. Durante os dois dias passados em Malta, tivemos oportunidade de experimentar diferentes iguarias, desde a primeira refeição no Cargo, em Vittoriosa, onde a carta era forte em massas, pizzas e risottos, passando pelo Wigi’s Kitchen, onde jantámos na noite de 15 de Junho, e que é especializado em carne e peixe grelhados. Em Gozo, o almoço de dia 16 foi, como já referido, no Ta’ Rikardu, uma espécie de taberna moderna, junto à fortaleza, cujo forte são as massas, enquanto o jantar foi Gharb Rangers, uma associação desportiva, onde a comida tem uma excelente relação qualidade/preço.

“Como ir?”

Desde Março, a Air Malta, companhia aérea de bandeira maltesa, voa directamente entre Lisboa e Malta duas vezes por semana, às quintas-feiras e domingos, ligações que se mantêm ao longo de todo o ano e que passam a quatro voos por semana em 2019. Os preços começam nos 49 euros por pessoa, para voos de ida.

“Dicas”

Malta é um país europeu, membro da União Europeia desde 1 de Maio de 2004 e que está na zona euro desde 2008. Por isso, não é necessário passaporte para viajar para o país, nem realizar câmbio de moeda. Quanto à língua, o idioma oficial é o maltês, com forte influência na língua árabe, mas fala-se também inglês fluentemente, na sequência da colonização britânica, que se manteve até 1964. O país é mesmo muito procurado por estudantes que pretendem realizar cursos de inglês, já que os preços são, por norma, mais baixos do que em Inglaterra ou EUA. O clima de Malta é temperado, mas, no Verão, atinge temperaturas elevadas, pelo que se recomenda o uso de protector solar e chapéu, assim como repelente de mosquitos, para as noites mais quentes. Quanto ao vestuário, opte por roupa e calçado confortáveis, já que os monumentos a visitar são muitos e há centenas de degraus para subir e descer. Consoante a altura do ano, leve também fato-de-banho, pois as águas de Malta são quentes e convidativas.

* A jornalista viajou a convite da Air Malta e do Turismo de Malta

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