“Era fundamental termos maior flexibilidade por parte do Aeroporto de Lisboa”

Por a 20 de Julho de 2018 as 17:23

Portugal é um mercado estratégico para o Grupo Lufthansa, que continua a lançar novos voos em território nacional, apesar do esgotamento do aeroporto da capital. Numa entrevista ao Publituris, Stefan Kreuzpaintner, vice-presidente de Vendas EMEA do Grupo Lufthansa, e Patrick Borg-Hedley, country manager da Lufthansa em Portugal, falam dos problemas da infraestrutura, mas fazem um balanço positivo da operação em território nacional, assim como das mudanças na relação das companhias aéreas com o trade, devido ao NDC.

O Turismo em Portugal tem crescido muito e isso tem tido reflexos no tráfego aéreo. Como estão os resultados da Lufthansa nas rotas portuguesas e qual é a expectativa para o segundo semestre do ano?

SK: Estamos muito satisfeitos com as rotas portuguesas. Aumentámos agora a capacidade, estamos a realizar um voo adicional para Frankfurt, que é o nosso principal hub, e também começámos a voar da Madeira para Munique, uma rota de lazer, mas que mostra que Portugal continua a estar no nosso mapa estratégico, é um importante destino, basta olharmos para os nossos números de passageiros acumulados até Maio e para as nossas perspectivas. Não nos podemos queixar, estamos muito contentes, estamos acima dos resultados do ano passado e daquilo que tínhamos estimado há seis meses.
Estamos muito satisfeitos com as reservas antecipadas para o pico do Verão, mesmo com o aumento de capacidade, as vendas estão a correr bem, temos um maior aumento de passageiros do que lugares adicionais à partida de Portugal. Só podemos estar satisfeitos e optimistas.
Portugal está a ter um grande crescimento, também a nível financeiro, creio que a reestruturação de há alguns anos atrás, está a ter efeito, o país esta a crescer e, para nós, isso é muito atractivo, porque Portugal sempre foi um destino forte no segmento de lazer, mas agora também está a crescer no tráfego de negócios. Esse é um ‘mix’ que estamos sempre à procura, e Portugal ainda tem muito potencial no tráfego de negócios, assim como de lazer, apesar de, nos últimos anos, se ter sobrevalorizado o tráfego de lazer. Agora está a equilibrar.

Falou na nova rota para o Funchal, que foi lançada a 31 de Março, o que nos pode dizer sobre os resultados desta rota, como está o load factor e quantos passageiros já voaram entre a Madeira e Munique?

SK: Estamos agora a entrar na época alta e, por isso, os números ainda são sensíveis. Mas começámos a voar para a Madeira há alguns anos, desde outro destino, e estamos agora a complementar esse serviço com este voo de Munique, o que mostra o sucesso que temos tido no Funchal.

PBH: Começámos a voar para o Funchal em Novembro de 2016, à partida de Frankfurt, tinha eu acabado de assumir funções aqui, no escritório de Lisboa.

SK: Esta nova rota Funchal-Munique é um grande passo em Portugal, não só porque aumentámos a capacidade, mas também porque já vendemos essa capacidade adicional, o que é um primeiro sinal de que a rota vai ter sucesso, também de uma perspectiva financeira. O primeiro passo é vender para optimizar a operação e garantir que tudo está afinado, se assim continuar nos próximos anos, vamos ver o que pode acontecer.

E nas restantes companhias do Grupo Lufthansa, que também têm operação em Portugal, os resultados são igualmente positivos?

SK: Estamos muito satisfeitos com os resultados da Swiss, é uma companhia com uma operação de grande sucesso em Portugal. A companhia duplicou a operação desde 2015, quando voava apenas uma vez por dia para Portugal, agora tem duas ligações por dia e, no horário de Verão, aumenta ainda mais o número de voos. O mesmo se passa com a Brussels Airlines, que voa desde Lisboa e do Porto.
Quando falamos no Grupo Lufthansa, é normal que a Lufthansa continue a ser a principal marca, mas também temos que contar comas nossas outras companhias premium, como a Swiss e a Brussels – também a Austrian Airlines, apesar de não voar para Lisboa.

Já referiu que os resultados em Portugal são positivos e que a expectativa para o Verão é boa, que novidades está o Grupo Lufthansa a preparar para o mercado português no próximo Inverno?

SK: Bom, posso dizer que a rota Porto-Munique vai manter-se no Inverno, já era uma rota que tínhamos no Inverno passado e vamos continuar a operá-la, assim como a rota Funchal-Munique, que vai continuar com uma frequência por semana, e vamos ter, por parte dos nossos parceiros da Brussels, um aumento para 11 frequências semanais durante o Natal. Além disto, também a rota do Porto-Zurique vai ter um aumento, passando de três para cinco frequências semanais, no Inverno.
Temos expectativas altas, as reservas antecipadas para o período de Inverno estão ainda muito baixas, mas se não acreditássemos no mercado e no potencial de Portugal, não colocaríamos tanta capacidade no mercado. É um sinal de que acreditamos no mercado e creio que os nossos números dizem tudo, temos mais de 200 frequências para Portugal – no Verão vão ser 202 – no conjunto do Grupo Lufthansa. Penso que são números impressionantes.

PBH: No ano passado, seguimos a estratégia de expandir o horário de Verão, correu muito bem e, por isso, vamos dar-lhe continuidade, até porque é um pedido do mercado e queremos ir ao encontro das expectativas dos nossos clientes.

Aeroporto

A Lufthansa tem uma nova operação em Berlim, já que ficou com parte dos activos da airberlin, depois da insolvência desta companhia. Como está a correr esta aposta, uma vez que Berlim é um destino com muita procura, mas pouca capacidade aérea?

SK: A insolvência da airberlin foi, como é obvio, uma grande oportunidade para a Lufthansa. A Lufthansa sempre deixou claro que queria contribuir para a consolidação da aviação na Europa e, enquanto maior grupo de aviação, queremos ser parte activa nesse processo, especialmente no nosso mercado doméstico e a airberlin era muito forte no nosso mercado doméstico. Por isso, a insolvência da airberlin trouxe a oportunidade de termos mais frota em Berlim – porque já tínhamos operação lá com a Eurowings – e de aumentarmos a capacidade.
Berlim é, de facto, um destino muito interessante de incoming, mas também nas viagens de negócios. Infelizmente, o aeroporto tem diversas limitações e não poderemos crescer tão rápido como planeado.

O problema do aeroporto de Berlim é comum a Lisboa, onde também há diversas queixas sobre o esgotamento da capacidade. Qual é a visão da Lufthansa sobre este problema?

SK: É verdade, o aeroporto de Lisboa está bastante congestionado. Fui responsável pelo mercado português e espanhol até 2015 e, nessa altura, o aeroporto de Lisboa não estava tão congestionado. Mas estou a par dos problemas e sei que, nos últimos dois anos, o tráfego cresceu muito, isso é muito visível, é visível através dos nossos números e do grande aumento de capacidade de algumas companhias.
Sim, é verdade que o aeroporto está num ponto crítico em termos da disponibilidade de slots e claro que, quanto mais congestionado um aeroporto está, mais atrasos vão existir, entre outros problemas.
Falando pela Lufthansa, que oferece um serviço premium, era fundamental termos uma maior flexibilidade por parte do aeroporto de Lisboa, de forma a garantir que temos uma operação pontual e confiável. Estamos a avaliar com a infraestrutura aeroportuária as possibilidades que poderemos implementar no curto prazo para melhorar essa flexibilização. Existem algumas ideias em cima da mesa, nomeadamente em volta do horário nocturno e outras medidas, o que penso que é essencial para garantir a possibilidade de crescimento no futuro.

Neste momento, está em discussão a abertura de outro aeroporto no Montijo, na margem sul do Tejo, que deverá estar pronto em 2022. O que pensa desta hipótese?

SK: Sinceramente, não tenho dados nem informação que me permitam pronunciar sobre essa questão, mas será importante que exista um aumento de capacidade.

Relação com o trade

Sobre a relação da Lufthansa com o trade, têm existido algumas mudanças, que têm merecido críticas por parte destes parceiros. Qual é o objectivo da Lufthansa com estas mudanças?

SK: É um novo caminho, que para a Lufthansa começou em 2015, quando foi publicada a nossa nova estratégia de distribuição, que decidiu cobrar 16 euros pelas reservas geradas através dos GDS, para equilibrar o custo dessa vantagem. Ao mesmo tempo, convidámos os nossos parceiros a acompanharem-nos neste caminho e, por isso, estamos a oferecer diferentes soluções, como os canais ‘direct connect’, que permitem que os agentes de viagens se liguem directamente ao nosso inventário, seja através das soluções API, seja através de soluções mais simples, como as disponíveis online.
Em 2016/2017, também começámos a mudar um pouco a forma das nossas ofertas, não só da oferta disponível nos GDS, como nos nossos canais, com a primeira diferenciação de preço que implementámos para as reservas avançadas e na bagagem. Não foi uma grande mudança, mas mostrou ao trade que a nossa estratégia é mais do que apenas cobrar 16 euros nas reservas dos GDS. Penso que essa mensagem é importante, não queremos prejudicar ninguém.

Mas há diversas queixas por parte do trade, não especificamente sobre a Lufthansa, mas sobre esta mudança que está a acontecer. Será uma questão de comunicação?

SK: Sim, é verdade, mas este é um caminho que está a ser continuado em 2018, em que estamos a oferecer preços completamente diferentes nos canais directos que estão disponíveis para os agentes de viagens. Ainda na semana passada, anunciámos que as nossas tarifas Light ponto-a-ponto vão ser exclusivamente vendidas nos canais ‘direct connect’ e nos sites das companhias do Grupo Lufthansa.

Como disse, vejo esta mudança como um caminho, e acreditamos que os parceiros do trade vão acompanhar-nos, porque é uma situação benéfica para ambos, mas claro que é uma grande mudança. É muito mais do que cobrar 16 euros, não se trata de eliminar alguns itens de preço e em alguns canais, é uma mudança inovadora.

PBH: Temos estado em conversações com os agentes de viagens nos últimos meses e creio que aprendemos imenso com esse diálogo. É uma mudança para ambas as partes. O que estamos a fazer é a usar o IATA NDC – New Distribution Capability e tecnologia avançada, porque a tecnologia que ainda usamos, nos dias de hoje, é dos anos 90 e nós queremos ir mais além e ser mais rápidos, de forma a disponibilizarmos a nossa oferta de uma forma mais imediata aos agentes de viagens.
É verdade que temos recebido um feedback misto, mas há muito interesse naquilo que estamos a fazer e, é por isso, que convidamos os nossos parceiros a embarcarem connosco nesta viagem, a viagem do NDC, uma ferramenta que está a crescer, como mostram as estatísticas da IATA, já que cada vez mais companhias aéreas se estão a juntar ao NDC e a obter níveis de certificação elevados. Ao mesmo tempo, também os GDS clássicos anunciaram, no ano passado, que passariam a ser certificados ao mais alto nível no NDC, o longo de 2018, e alguns já o conseguiram. Por isso, acredito que este caminho está a crescer, está a ganhar volume e, como qualquer tecnologia, vai tornar-se mais barata à medida que vai evoluindo.

SK: Como referi a propósito da airberlin, como maior grupo de aviação, o Grupo Lufthansa quer ser parte activa da consolidação da aviação na Europa e o mesmo acontece no capítulo da distribuição. Em 2015, começámos a maior mudança no que diz respeito à distribuição e a nossa ambição, de uma perspectiva estratégica, é moldar a indústria e não ser apenas um actor passivo. Claro que esta ambição leva a discussões, porque quando somos os primeiros a dar um determinado passo, temos sempre vantagens, mas também temos desvantagens.

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