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“Começo a ter dúvidas se o novo aeroporto vai acontecer em 2022”

Por a 22 de Março de 2018


A terminar o segundo mandato à frente da Confederação do Turismo Português (CTP), Francisco Calheiros anuncia que se vai recandidatar às próximas eleições.

Que balanço é que se pode fazer do mandato que agora termina? Quais foram as principais vitórias e o que é que fica por fazer?

Estava na lista do engenheiro José Carlos Pinto Coelho, em representação da APAVT, antes de ser presidente. Foi aí, durante dois mandatos, que comecei a inteirar-me mais das questões que tinham a ver com a Confederação do Turismo Português. Pelas circunstâncias que tinham a ver com a minha vida, considerei que estavam reunidas as condições, em 2012, para ir para a presidência. Fiz um primeiro mandato e um segundo mandato que acaba agora.
Se pudermos dividir a Confederação em duas áreas, temos a área que tem a ver com ser o órgão de cúpula do Turismo; e depois existem questões completamente diferentes que têm a ver com o ser parceiro social, estar no Conselho Económico Social e, sobretudo, no Conselho Permanente da Concertação Social (CPCS); e, isso, para muitos de nós, é uma certa aprendizagem. É uma área com muita legislação laboral, com muita política, porque a CPCS tem o Governo, as entidades empregadoras e sindicatos.
Há quatro Confederações que estão no CPCS. A Confederação dos Agricultores Portugueses (CAP) mudou [de presidente] o ano passado, o João Machado penso que fez seis mandatos, o António Saraiva já começou o terceiro mandato na CIP- Confederação Empresarial de Portugal e o João Vieira Lopes, da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), começa agora o ser terceiro mandato. Portanto, não fazia qualquer sentido que não me propusesse a fazer o terceiro mandato. Falei com as várias pessoas envolvidas, nomeadamente, com o presidente da Assembleia-Geral, o presidente do Conselho Fiscal e as principais associadas da CTP, que consideram que as coisas correram bem e fazia sentido fazer um terceiro mandato.
Em relação ao balanço do mandato, é evidente que ficam muitas coisas por fazer e que se fizeram muitas. Mas temos de ter a noção que foram três bons anos do Turismo. Há muitas coisas que estão por fazer, há muitas coisas que apareceram – o aeroporto há quatro anos não era uma prioridade como é agora -, há situações antigas que não se resolveram, estou a lembrar-me da questão dos Direitos de Autor e Direitos Conexos. Antes de cá estar, há 14 anos, já era tema nas reuniões de direcção. Mas diria que o último mandato foi um mandato em que as coisas correram relativamente bem. Estamos aqui para estar ao serviço das associações e as associações ao serviço dos seus empresários. É evidente que se fez muita coisa, foi neste mandato que demos entrada no Conselho Económico e Social Europeu. Reforçámos o número de associados, desde o outro mandato que a CTP é extremamente representativa, diria que temos cá praticamente todas as grandes associações e todos os grandes empresários. Mas foram três anos bons do Turismo, houve bons impactos para o sector e, no fim do dia, bons para as empresas.
Houve situações que se materializaram e que quero destacar. Há seis anos, falávamos, em plena crise, que a situação financeira das empresas portuguesas do Turismo eram extraordinariamente débeis. Diria que, das coisas que me deram mais prazer neste último mandato, foi que a guerra dos preços, que era uma guerra grande que tínhamos, de alguma forma começou francamente a ser vencida. Ou seja, os preços praticados são melhores e há um estudo feito pelo Turismo de Portugal que mostra que a situação financeira das empresas, ou seja, as vendas, os resultados e a autonomia financeira melhoraram. Posso dizer que, neste momento, a saúde financeira das empresas ligadas ao Turismo está bastante melhor do que há três anos.

Vai recandidatar-se. Reúne o consenso das associações nesta decisão?
A lista está terminada, os convites estão feitos e é, claramente, uma lista de continuidade. Na presidência da Assembleia-Geral mantém-se o grupo Pestana e na presidência do Conselho Fiscal o Grupo Vila Galé. Eu estou pela APAVT, e as restantes associações também se mantêm. Não há nenhuma surpresa, 99% dos órgãos sociais mantém-se.

Que impacto é que teve para a confederação ser um presidente a tempo inteiro neste segundo mandato?
Quando assumi a presidência da CTP, alguém me perguntou se era melhor estar a part time ou a full time. Na altura tinha a seguinte dúvida: as pessoas não se deviam profissionalizar demais na actividade associativa, porque não se deve perder a noção do que é o mercado empresarial. Hoje em dia, digo-lhe, sem nenhuma dúvida, um lugar destes deve ser feito praticamente a full time. Era isso que acontecia na CAP, CIP e a 80% na CCP. Este cargo exige fazer muita coisa, preparar muita coisa, fazer muitas intervenções, tem Conselhos Permanentes de Concertação, semanalmente ou de quinze em quinze dias. Tenho a sorte de estar ligado a empresas que não me dão muito trabalho, nomeadamente à Solférias, da qual sou accionista, isso permite-me ter uma ideia muito concreta do que é a actividade turística. Hoje em dia, sou mais defensor de que esta actividade seja feita em full time porque é muito exigente. Passados seis anos à frente da CTP, não tenho dúvida nenhuma que, depois do que o Turismo cresceu, depois dos problemas que surgem todos os dias, esta tem de ser uma actividade a tempo inteiro. Depois, tem-se outra capacidade de acção, outra visibilidade, mais exposição ao sector.

Depois de um ciclo de quatro anos seguidos de bons resultados, pergunto-lhe qual é a situação actual das empresas de Turismo?
Estão melhores. Quando começámos a ter bons anos de Turismo perguntavam-me o que é preciso fazer agora. A minha resposta é sempre a mesma. É preciso mais anos como estes. Não é num ano que se consegue consolidar a situação financeira e patrimonial de uma empresa, é ao longo de vários anos e isso tem estado a acontecer. Durante este mandato de 2015-2018, tivemos três bons anos de Turismo, quer de aumento de dormidas, quer de receitas e RevPAR. Isso reflectiu-se nas várias empresas e, sobretudo, também no dinamismo da actividade. As empresas, hoje em dia, estão mais fortes, mais sólidas, mais capazes de investir, o que é extraordinariamente positivo, porque é nestas alturas que devemos repensar e fazer os nossos investimentos para nos prepararmos para alturas menos boas.

Está confiante que este ciclo de bons resultados se vai manter este ano, mesmo com a questão do Brexit?
Todas as informações que temos é no sentido de que 2018 vai continuar a ser um bom ano de Turismo. Quais são os mercados dos quais dependemos? O primeiro mercado é o português, esquecemo-nos disso. Está confirmado que a Economia portuguesa cresceu 2,7% em 2017 e a principal razão foi a procura interna. O mercado interno vale 30% da procura turística. Portanto, não há razão nenhuma para que o nosso mercado interno não continue numa subida igual à que já fez em 2017.
Em segundo lugar, os nossos mercados tradicionais são Espanha, França, Alemanha, etc. Vamos deixar o Reino Unido de lado. Os nossos mercados tradicionais não estão em crise. Portanto, continuam em fase de crescimento, também aí não vemos qualquer problema. O próprio mercado brasileiro, que há cerca de dois anos teve uns altos e baixos, está a corresponder. O que tínhamos para perder com o mercado angolano, já perdemos em 2016 e 2017. Qual é o mercado que temos em dúvida? O inglês. Não há dúvida que em 2017 o mercado inglês já começou a mostrar incerteza. Diria que o principal problema do mercado inglês é a desvalorização da libra e, portanto, as pessoas pensam duas vezes antes de sair. Mas também há quem pense que isso pode ser uma oportunidade, no sentido que, em vez de irem para voos mais longínquos, vão para destinos mais perto. O mercado britânico é uma incógnita e, se tivesse que apostar, diria que não vai crescer, pelo contrário. Mas temos várias novidades, como os EUA e a China. Para os EUA triplicámos os voos que tínhamos há cinco anos e estamos a falar de uma rota extraordinariamente importadora. Não tenho os números, mas arriscaria que na rota Portugal-EUA serão 80% de americanos e 20% de portugueses. Além dos voos directos para a China, que começaram a meio do ano passado. Quanto é que vai crescer o mercado chinês e o mercado americano? Imenso.

E a recuperação de outros destinos concorrentes, como a Tunísia, terá impacto?
Sempre combati isso. Existe um problema no país A. O país B, que é a Alemanha, por exemplo, era cliente do país A e muitos dos alemães não vão querer ir ao país A porque está em crise, mas não têm de vir para Portugal. Podem ir para Espanha, Itália, República Dominicana, México. Não aceitamos que tenhamos subido o Turismo por demérito dos outros, subimos por mérito nosso. É uma oferta maior que está em cima da mesa. Estamos numa fase ascensional há quatro, cinco anos e ela é estrutural. Os franceses redescobriram Portugal, estão a vir maciçamente, a comprar casa. Outra das coisas que não nos podemos esquecer é que hoje temos mais uns milhares de estrangeiros a viver cá, que são uns turistas muito importantes, porque gastam, utilizam, etc.

Na última entrevista que deu ao Publituris elogiou o Simplex +, mas havia ainda questões por fazer. Por exemplo, o problema dos Direitos de Autor e Direitos Conexos. Conseguiu-se resolver parte do problema com a GEDIPE. Mas reclamavam um balcão único que permita falar com uma identidade apenas. Em que estado está esta questão?
Em primeiro lugar, o Simplex+ foi uma óptima medida e continua a ser. Penso que na altura terei dito que o Simplex é algo de dinâmico e tem sido. A segunda questão, os Direitos de Autor e Conexos, já antes de chegar à CTP, há 14 anos, eram falados. Avançou, mas não está resolvido. Em que fase estamos neste momento? O tal balcão único de que falei tem todas as condições para andar. Estamos na fase de operacionalização. As entidades gestoras já aceitaram entre elas que haja um balcão único, já está uma entidade dentro do Governo a tratar disso, há um balcão da AHRESP e estamos a estudar se pode ser uma solução em cima desse balcão. Teria muita satisfação se, no final do mandato, dissesse que o assunto dos Direitos de Autor e Conexos, ao fim de vinte anos, está resolvido. Mas teve grandes andamentos, uma das coisas que queríamos era não estar a negociar com 20 entidades diferentes. Tenho muita esperança que este ano o balcão único seja uma realidade.

Regulação e Fiscalidade

Em matéria de fiscalidade, há algum dossier em cima da mesa com o Governo?
Há o IVA dos eventos. A APAVT tem sido extraordinariamente incisiva nesse assunto. Não faz qualquer sentido este IVA. Estamos a lutar com a vizinha Espanha, onde temos uma desvantagem gigantesca. Estamos o mais possível do lado da APAVT e apoiá-la nesse sentido. Depois, temos a questão do IVA do golfe, temos de continuar a lutar até sermos competitivos e com valor acrescentado em relação aos outros destinos.
Mas temos de dividir a fiscalidade do Turismo da fiscalidade em geral para as empresas. E a fiscalidade em geral para as empresas é violentíssima. Havia uma baixa prevista de IRC que se interrompeu. Tentámos que os pagamentos por conta acabassem neste Orçamento de Estado e não acabaram. Penso que, quer as empresas, quer os particulares, estão com um nível muito alto de fiscalidade. A CTP não se cansa de dizer: quando olhamos para um Orçamento de Estado, é como nas empresas, tem duas grandes rubricas, as receitas e as despesas. As receitas são os impostos de que estamos a falar. Para baixarem tem de haver um contraponto, ou seja, a despesa também tem de baixar. E hoje em dia, a economia está com uma agressividade brutal. Tudo se mexe. E o que é que vemos a mexer seriamente no Estado? Nada. Nós, empresa, temos de nos adaptar todos os dias para conseguirmos ser concorrenciais. E eu pergunto? Na Educação? Na Justiça? Na Segurança Social? O que é que está a mudar?

As empresas terão de se adaptar ao Regulamento Geral sobre a Protecção dos Dados Pessoais, que se prevê que entre em vigor em Maio. Durante o congresso da APAVT, o presidente pediu que fosse a CTP a dirigir este processo com o Governo. O que é que têm feito nesta matéria?
O que o Pedro Costa Ferreira disse, e bem, novamente, é que esta questão da protecção de dados é uma questão transversal. Ou seja, é uma questão que tem a ver com as agências, os rent-a-cars, hotéis, etc. No seguimento desse congresso da APAVT, chegámos cá, inteiramo-nos do dossier e foi feita a primeira reunião com as associadas. Depois fez-se uma sessão de esclarecimento com todos os associados que quiseram vir para explicar exactamente o que está em causa.

Qual é o programa da sua candidatura para o próximo mandato?
O programa vai ser a junção de três peças: a primeira é o “Roteiro para a Competitividade”, que elaborámos com a PwC; as linhas programáticas para o ano 2018; e o terceiro são as eventuais situações que vão aparecer.
Quanto às linhas programáticas, a primeira questão é o aeroporto de Lisboa. Não gosto de ser alarmista, mas é uma coisa que me preocupa imenso por várias razões. Não há dúvida que o Turismo cresceu nestes últimos anos, muito mais do que alguma vez alguém teria pensado. Portanto, a situação do aeroporto é premente. Em segundo lugar, não há dúvida nenhuma que estamos a entrar numa fase em que começamos a não ter slots e estamos a falar da operacionalização de uma nova infraestrutura em 2022. É tardíssimo. E olhando para o que avançou em 2017, já começo a ter dúvidas sobre o que é que vai acontecer em 2022. Será que vai estar pronto? Perdeu-se o ano de 2017. Dois exemplos que ilustram isso: estudo de sustentabilidade, no máximo no dia 1 de Setembro, estava cá fora. Já o viu? Eu não. Que grandes avanços tivemos em 2017 face ao novo aeroporto? Quem vai pagar o aeroporto é a ANA, é isso que é suposto. Isso depende de um contrato que será feito entre a Vinci e o Governo. Está feito? O acordo com a Força Aérea já está fechado? As contrapartidas camarárias já estão acertadas? Estou apavorado.
Em suma, duas preocupações: aeroporto em 2022 é tardíssimo e da forma como isto está a correr será que o novo aeroporto estará pronto em 2022?
Depois, até 2022 temos que optimizar o actual aeroporto o mais que pudermos e o que é que vemos: podemos ter mais frequências por hora, mas para isso é preciso um sistema informático que a NAV demora dois anos a fazer. Os empresários do Turismo fizeram tudo bem. Temos o melhor País do mundo, montámos as melhores infraestruturas para receber os turistas, mas eles agora não vêm porque não têm onde desembarcar.
Além do aeroporto, temos a questão dos recursos humanos. Hoje em dia, todos ouvimos que não há gente para trabalhar no sector.
Vamos imaginar estes números: das Escolas do Turismo de Portugal saem três mil alunos por ano e de outras escolas saem mais três mil; e vêm mais quatro mil emigrantes [o que penso que não vêm de todo]. São dez mil, contra os 50 mil que estamos a recrutar ao ano. Portanto, há um problema de recursos humanos dramático. Isto é algo com que temos de nos preocupar.
Estamos preocupados com isto, estamos a conversar com o Turismo de Portugal, com Escolas Hoteleiras, estamos a conversar com as nossas associadas.

Mas um dos pilares de actuação não devia ser também valorização das profissões e o aumento dos salários?
Aí penso que temos comunicado mal. Ainda no outro dia vi qual foi a profissão que maior aumento de ordenados teve. Chef de cozinha.
Sou liberal q.b., mas há uma coisa em que acredito verdadeiramente, que é a economia e as leis do mercado a funcionarem. Quando digo que são necessários 50 mil postos de trabalho por ano e nós arranjamos 10, não tenho dúvida nenhuma que a consequência vai ser o aumento de ordenados, como é óbvio. Os recursos humanos no Turismo são um bem muito escasso e, portanto, vai ser claramente valorizado, não tenho dúvida nenhuma. Agora, penso que temos de comunicar melhor isto. Há uma frase da Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP, que diz: “Só ficarei contente quando os pais quiserem que os filhos digam que querem ir trabalhar para a Hotelaria e Restauração”. Penso que ela tem toda a razão. Mas esse passo ainda demora, não nos podemos esquecer que a actividade turística é muito recente, tem o seu caminho que está a ser feito com passos muito sólidos.

Quais são as outras linhas programáticas desta candidatura?
Uma delas é a gestão de destinos, somos pela antecipação do problema e não deixar que isto chegue ao ponto de Barcelona e Veneza.
Depois, temos o novo modelo de ‘governance’ do Turismo que vamos propor. Acreditamos mesmo que faz todo o sentido ter um Ministério do Turismo. Temos um estudo feito sobre o porque é que deve haver um Ministério do Turismo e porque é que o Turismo de Portugal deve ter outro tipo de tratamento. No dia 20 de Fevereiro, tivemos uma reunião com todos os ex-secretários de Estado do Turismo e os ex-presidentes do Turismo de Portugal, onde apresentámos em primeira mão o estudo e queremos saber qual é a visão deles. Penso que daqui a dois meses teremos uma posição mais elaborada sobre isso.
Um quinto assunto tem a ver com o Novo Quadro Comunitário Portugal 2020-2030. Queremos lutar para que haja uma dotação e um programa específico para o Turismo. E, finalmente, gostávamos de, neste mandato, lançar as bases de uma organização europeia de Turismo. Tudo se decide em Bruxelas, mas quem de nós está em Bruxelas a tratar do Turismo? Onde está uma Confederação Europeia? A maior parte da legislação da Europa faz-se em Bruxelas e depois faz-se a transposição para cada Estado-Membro. Se queremos lutar por um Quadro Comunitário de Apoio com um programa específico para o Turismo, temos de estar lá. Percebemos isso bem quando, no ano passado, conseguimos reunir empresários e associações para uma visita oficial a Bruxelas.

Lançar as bases significa o quê?
Em Portugal temos quatro confederações, em Espanha há uma, que depois tem várias divisões. A primeira coisa que temos de saber é como, nos vários países membros, o Turismo está organizado. A segunda questão é reunir esta gente toda e começar a lançar as bases, primeiro saber se estão no mesmo comprimento de onda que nós. Há de facto a necessidade face à importância que o Turismo tem vindo assumir.

Legislação Laboral

Tem dito que não é aconselhável mexer na Legislação Laboral. Porquê?
O que digo é o seguinte: o desemprego bateu o seu recorde há três, quatro anos quando chegou aos 17%. Sou daqueles que considero que o desemprego é a maior praga que pode existir na sociedade. E há um filósofo muito ligado à Economia que diz que é a única coisa para qual não estamos preparados. E o desemprego é algo que nos afecta directamente e toda a gente indirectamente. Quando o País está com uma taxa de desemprego de 17%, isto quer dizer que há pessoas à sua volta, seja um irmão, um primo, um tio, que estão desempregadas. Isso também tem grande impacto na vida das empresas, porque as pessoas também começam a ter um comportamento nas empresas completamente diferente, ou seja, não arriscam, com medo que algo lhes possa acontecer. Este desemprego tem vindo sustentadamente e estruturalmente até aos 8%. Já falámos em Dezembro em 7,9%. Estamos com taxas em que é preciso recuar 15 anos para chegar lá, e que estão abaixo da Comissão Europeia e que continuam a descer. Portanto, é um erro mexer numa situação que está a correr tão bem e é um sinal em contrário que se vai dar aos empresários. Basta olhar para os jornais e ver o que os grupos hoteleiros estão a recrutar. As pessoas querem recrutar estes milhares de pessoas em 2018 com as actuais condições. Se começamos a dizer que vamos penalizar as empresas por causa da contratação a termo, vamos obrigá-las a pagar mais de TSU e que vamos acabar com o banco de horas individual, há um travão. Portanto, deixem, ao menos, para a discussão poder ser lógica, que o desemprego pare de descer. Isto tem estado a descer tão bem e a correr tão bem. Quanto menos desemprego houver, mais aumentos vai haver para as pessoas, menos precariedade vai haver, menos contratação a termo. É a economia a funcionar. Na altura da crise, lutava muito pelas medidas activas de emprego. Falei muito disto na CPCS. Sou completamente contra a questão de se mexer na legislação laboral. Já lá vão dois anos e meio deste Governo e ainda não se mexeu.

Turismofobia

À medida que o Turismo cresce, é expectável haver mais proibições e condicionamentos à actividade turística?
Se nada se fizer, sim. Temos basicamente três zonas de grande pico na cidade de Lisboa. É evidente que, no Bairro Alto e no Castelo de São Jorge não se pode ter autocarros de 52 lugares. O que temos de fazer é criar novas centralidades. Por exemplo, no Parque das Nações, que é uma zona nova, colada ao aeroporto, à Ponte Vasco da Gama e à A1, que tem o Oceanário e esplanadas. Você pode pôr lá mais 100, 200, 300 mil turistas. Em Lisboa, temos Sintra e Cascais a 20 e poucos quilómetros. Estamos em conversas com a CP – Comboios de Portugal. Temos que investir mais em comboios, porque lá fora toda a gente anda de comboio. O turista que vem a Lisboa tem que ir um dia a Cascais, outro a Sintra. Tem que ter comboios bons. Penso que não se compra um comboio há trinta anos em Portugal. Sintra já está cheia de autocarros, mas se as pessoas forem de comboio a Sintra ou a Cascais, as situações são diferentes. Estamos longe de destinos como Barcelona ou Veneza. Mas como tivemos picos no Bairro Alto, etc, é bom que falemos do assunto e que se crie novas centralidades para que estas zonas não tenham mais turistas. Se não fizermos nada, sim, vamos ter mais restrições.

Qual é a sua posição relativamente à proposta do PS de o condomínio regular o Alojamento Local (AL)?
O Alojamento Local é uma nova forma de Turismo. Gosto de dar o exemplo das companhias aéreas. Tínhamos as companhias aéreas regulares, depois os charters e depois as low cost. Nenhuma é melhor que a outra. O AL é uma nova forma de Turismo, a qual apoiamos, como é evidente. À semelhança de qualquer outra actividade que esteja no terreno, ela tem de ser regulamentada, legislada e controlada. Se tiver um problema com um turista num AL, é igual a ter um problema com um turista num hotel ou num parque de campismo. O AL, à semelhança de todas as actividades turísticas, tem de pagar os seus impostos. Posto isto, sobre a proposta do PS, a minha opinião pessoal é a opinião geral, se essa proposta passar, a actividade baixa 90%. É que a proposta do PS é muito violenta. Ou seja, temos várias hipóteses: uma é dizer, os proprietários do AL gastam mais energia, têm de pagar mais condomínio, isso até é razoável. Agora, se dentro de condomínio for possível votar que o andar X pode ou não ser Alojamento Local, 99,9% vai dizer que não. Onde é que o AL vai sobreviver? Vai sobreviver em prédios preparados para o efeito. Porque quando você tiver cinco andares, em que um é AL e o restante não, os condóminos vão importar-se. Se houver uma proposta, em que o alojamento local, sem qualquer condição, tem de ser aprovado pelos condomínios, 90% dos Alojamentos Locais fecham. Não tenho dúvidas.

Secretaria de Estado do Turismo

Qual a sua opinião sobre o trabalho da Secretaria de Estado do Turismo (SET)?
Penso que o Turismo devia ser um exemplo para os outros sectores, porque é o sector que está a criar emprego, é o grande contribuidor para o crescimento do PIB e para o equilíbrio da nossa Balança Comercial. Como é que isto se faz? De duas maneiras: através de um sector privado que está muito unido; e há um entendimento entre o sector privado e o sector público que dificilmente acontece noutros sectores. Portanto, as relações com a SET são as melhores possíveis, falamos frequentemente, é uma ajuda, está sempre disponível, é uma pessoa que conhece o sector, conhece muito bem os dossiers, é extraordinariamente interessada e com um grande dinamismo. Uma das situações que ajudam muito a este estado do Turismo tem exactamente a ver com isto, entre o sector privado há uma união extraordinária, há uma Confederação onde estão todos, é a grande casa do Turismo, onde cada vez mais se fala a uma só voz e há um entendimento entre a tutela e a confederação muito boa.

Defendeu por diversas vezes mais verbas para a promoção. Qual é o seu entendimento sobre esta matéria agora?
O novo modelo de ‘governance’ tem duas grandes linhas: a da criação do Ministério do Turismo e a do Turismo do Portugal. Vamos propor que o Turismo de Portugal seja uma organização empresarial do Estado. O que queremos é que o Turismo de Portugal, embora sendo um organismo público, tenha de se reger por regras privadas. O que digo é que não há dúvida que a aposta no online teve resultados, depois isto tudo tem um efeito de bola de neve, a grande realidade é que a grande promoção que podemos ter é das pessoas que cá vêm. Continuo a dizer que tem que se fazer mais com mais. Reconhecemos que as coisas agora estão a correr bem. Há dois princípios relativos à promoção que não abandonamos: a verba tem de ser maior, veja as cativações que estão a ser feitas para ERT’s e tem de haver um maior envolvimento dos privados. Tem havido maior envolvimento dos privados e é isso que queremos continuar.

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