Opinião | Uber, Taxi e o Festival da Canção

Por a 12 de Março de 2018 as 17:03

Confesso já à partida que sou um adepto do Uber.

São conhecidas de todos as vantagens deste serviço digital que veio revolucionar a forma de transportar pessoas nas cidades. Vistas bem as coisas, a Uber é a maior empresa de “táxis” do mundo sem possuir um único veículo e o Airbnb é a maior empresa no ramo da hospedagem sem ser proprietária de um único imóvel.

Isto é a prova de que as aplicações mobile podem ser um elo que aproxima pessoas e negócios.

Pedimos táxis pela aplicação, encontramos alojamento numa aplicação e até podemos encontrar o ou os amores da nossa vida numa app.

Mas estarão de facto estas aplicações a aproximar as pessoas de uma forma real e verdadeira?

Alguém já disse que os smartphones afastam os que estão perto e aproximam os que estão longe. Mas este aproximar está a ser um pouco preocupante, tende-nos a afastar da verdadeira realidade e a criar uma nova e ilusória realidade.

Na extraordinária série do Netflix  “Black Mirror”, vemos todo um novo cenário da obsessão em pontuar pessoas muito bem retratado. Ao assistirmos alguns episódios, temos a sensação de que o que que passa na série, é algo que vai acontecer num futuro longínquo, mas não… é algo que está a acontecer agora.

Uber, Airbnb, Tripadvisor e muitas outras apps estão a medir tudo e todos sob a forma de votação. Somos um número, uma média aritmética.

Restaurantes têm mais clientes se tiverem melhores votações, Uber chega mais depressa se tiver uma média perto de cinco valores, hotéis com boa pontuação são os primeiros a lotar.

Hoje já ninguém pode ser um “razoável três”.

Mas o mais preocupante é a falsidade com que se ganha pontos.

Nos restaurantes pedem-me para dar votos, no TripAdvisor e no Uber encontramos aquela habitual psicologia invertida do motorista, que no final da viagem diz sempre: “vou dar-lhe cinco pontos”.

Todos são simpáticos, muito simpáticos, mas sempre com mira no voto.

Há dias em Lisboa, quando saía com um amigo espanhol de um bar e já sem bateria no smartphone, decidi recorrer ao tradicional táxi para nos levar ao destino. Foi nesse momento que conheci o genuíno e tradicional taxista alfacinha, eu no banco da frente e o meu amigo espanhol no banco de trás.

Ao volante lá ia o Sr. Luís, na casa dos sessenta anos de idade, de camisa aberta, a guiar o seu Mercedes E200 dos anos oitenta, que já tinha feito um milhão de quilómetros sem abrir o motor.

Não estava num Uber, portanto não me recordo do Sr. Luís ter perguntado se a música estava boa, se a temperatura era a adequada e muito menos me questionou se devia seguir o GPS ou se eu tinha algum caminho preferido.

O Sr. Luís não estava minimamente preocupado com estas mordomias, ele desabafava sobre a vida dele, sobre a dos outros e também sobre a dos políticos.

Ele não estava ali a conquistar pontos, nem a procurar uma empatia forçada. Era ele próprio, sem intenções de obter as tão desejadas cinco estrelas por parte do passageiro, de tal forma que a certa altura já falava mal dos espanhóis, com um deles sentado no banco de trás.

Acabei a viagem e se pudesse dava-lhe cinco pontos por ter sido verdadeiro, por ter sido apenas o Sr Luis, genuíno, sem preocupações com a pontuação.

Não será isto dos votos algo mais apropriado para o Festival da Canção?

Por acaso tenho uma boa pontuação no Uber, mas não fiz muito por isso, o que é bom. Assim da próxima vez que chamar um Uber, o motorista já saberá antecipadamente quem eu sou e até pode cantar aquela música do Festival:  “Sei quem ele é, ele é bom rapaz um pouco tímido até…”

*Opinião de Nuno Carvalho, da Click and Play

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