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Turismofobia (ainda) não é ameaça em Portugal

Por a 1 de Março de 2018


Em 2017, Portugal terá recebido mais de 20 milhões de turistas, muitos dos quais com destino a Lisboa e Porto, as duas maiores cidades do País, que têm registado também os maiores crescimentos turísticos. O crescimento do Turismo tem vindo a pressionar essencialmente os bairros históricos de Lisboa e Porto, motivando críticas e acusações de excesso de Turismo. Daí até ao surgimento de movimentos de Turismofobia pode ser um passo, como tem acontecido pela Europa. Mas, por enquanto, ninguém parece acreditar na hipótese destes movimentos ganharem força.

Com 50 mil habitantes e 30 milhões de turistas por ano, Veneza é actualmente um dos maiores exemplos de como o excesso de Turismo pode contribuir para o surgimento de fenómenos sociais perversos. A turismofobia é, actualmente, um dos mais citados.
Há muito que os canais venezianos foram invadidos por turistas e com isso chegou também um inevitável aumento dos custos, seja da habitação ou dos serviços. Viver na cidade é cada vez mais um luxo que muitos não querem, e poucos podem comportar. Resultado: Veneza tem perdido mil residentes a cada ano, as lojas de bairro foram substituídas por cadeias internacionais e a pressão causada pelos cruzeiros traz graves ameaças ambientais. Daí ao surgimento de movimentos anti-turismo foi um salto.
Em Julho de 2017, cerca de duas mil pessoas percorreram as ruas de Veneza em protesto contra o aumento das rendas provocado pelo aluguer turístico e os prejuízos ambientais causados pelos cruzeiros. Barcelona seguiu rapidamente o exemplo de Veneza, com várias manifestações contra a chamada ‘invasão do século XXI’ e, a partir daqui, a palavra turismofobia entrou definitivamente no dicionário de muitas cidades europeias. Lisboa e Porto, incluídas.
As críticas a um possível excesso de Turismo nas duas maiores cidades portuguesas começaram quase em surdina, à medida que os bairros históricos foram assistindo a um aumento da procura, e dos despejos para que as casas dessem lugar a estabelecimentos de alojamento local ou hotéis. Hoje, já são públicas, como as da deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, num artigo de opinião assinado no Jornal de Notícias, no Verão passado, sob o título “Turismo, Oportunidade ou Maldição?”, em que constatava que “a vida em certas zonas das cidades está a tornar-se insuportável. As rendas dispararam, a circulação em certas áreas é impossível e os preços também. A Lisboa e o Porto de que os turistas tanto gostam vão desaparecendo a cada dia”.
Mas das críticas à existência real de movimentos de turismofobia vai um largo passo e, como diz Graça Joaquim, professora da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril (ESHTE) e especialista em questões sociais, este fenómeno, em Portugal, ainda é “bastante incipiente, quando comparado com outros países ocidentais”. Graça Joaquim explica que a turismofobia tem “várias causas distintas”, mas elege a “gentrificação acelerada” e as “questões ambientais graves” como os gatilhos que espoletaram o surgimento de “grupos de activismo claramente hostis, e na fronteira da violência para com o Turismo”, em cidades como Barcelona e Veneza. Apesar de ser possível identificar as causas deste fenómeno, a especialista adverte que “muitos dos problemas que são comumente atribuídos ao Turismo têm, na verdade, a ver com as relações laborais, com a desregulamentação e especulação do mercado imobiliário, com a desorganização pública na área da higiene urbana e não, directamente, com o Turismo ou, sobretudo, com os turistas”. De qualquer forma, Graça Joaquim, sublinha que, em Portugal, “o fenómeno não está estudado”. Ou não estava.

WTTC identifica risco em Lisboa

Em Novembro de 2017, durante a 3.ª Conferência Internacional sobre Turismo, Adolfo Mesquita Nunes, anterior secretário de Estado do Turismo, alertava que não se pode dizer que “há um excesso de Turismo se não conseguimos definir o que é o excesso de Turismo”. No mesmo debate, participou também Olivia Ruggles-Brise, directora de comunicação do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC, sigla em inglês), que já na altura dizia que a situação em Lisboa ainda não é preocupante, mas que é preciso tomar medidas para evitar que se chegue a um ponto de não retorno, alerta deixado com base num estudo que o WTTC se preparava para lançar e que viu a luz do dia pouco tempo depois.
“Coping With Success”, o estudo do WTTC que analisa a realidade turística de 68 cidades por todo o mundo, foi lançado em Dezembro e aconselha os governos e autoridades turísticas a agirem, se não quiserem ver fenómenos como a Turismofobia crescer. E deixa o alerta: “quando o excesso de Turismo vai longe demais, a sua repercussão é difícil de reverter”. Nesse estudo, Lisboa é apontada como uma das cidades em risco, ao lado de Marraquexe ou Praga. Para chegar a esta conclusão, o WTTC faz um cruzamento entre alguns indicadores para medir em que ponto está a concentração turística em cada cidade e concluiu que várias das metrópoles analisadas, como é o caso da capital portuguesa, apresentam um ou mais sintomas de alerta. Dos nove indicadores utilizados no estudo – importância do Turismo, crescimento das chegadas, densidade turística, intensidade turística, críticas negativas no TripAdvisor, sazonalidade das chegadas, concentração nas atracções e monumentos, poluição do ar e prevalência dos locais históricos – Lisboa apresenta maior risco no que diz respeito à limitada sazonalidade das chegadas e ao seu crescimento, que atingiu já um nível médio, no estudo do WTTC. A gentrificação dos bairros históricos, as críticas negativas em plataformas online, que começam a aparecer, e a crescente dependência económica da actividade turística são também motivos de preocupação, enquanto a poluição do ar e a concentração turística nos principais monumentos são os pontos menos críticos.
Como solução, o WTTC recomenda a definição de uma estratégia sólida, com um plano a longo termo, além da monitorização permanente dos resultados, num trabalho que deve envolver todos os players de mercado.

Nem excesso de turismo, nem turismofobia

Ao Publituris, Vitor Costa, presidente da Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa, diz não conhecer o estudo do WTTC e duvida mesmo que Lisboa esteja em risco de sofrer de excesso de Turismo, preferindo destacar as vantagens que o crescimento da actividade trouxe à capital, desde logo a nível económico, sem esquecer que “o Turismo deu uma projecção enorme e um grande prestígio a Lisboa”.
O responsável não concorda com a ideia de que há um excesso de Turismo em Lisboa, diz que não alinha “no ‘coro das velhas’ sobre o perigo da chamada ‘turistificação’” e invoca mesmo um estudo de opinião realizado há cerca de um ano, segundo o qual “90% dos residentes tem uma opinião positiva ou muito positiva sobre os turistas e sobre a contribuição do Turismo para a capital portuguesa”. Ou seja, se a grande maioria dos residentes em Lisboa está a favor do Turismo, é impossível que “exista qualquer fenómeno de turismofobia crescente em Lisboa”, defende.
Mas Vitor Costa reconhece que existem criticas, apesar de não considerar que as mesmas se tratem de manifestações anti-turismo, atribuindo muitas dessas vozes a opiniões “cínicas e elitistas”, uma vez que, “para alguns, a sustentabilidade parte do pressuposto que o Turismo é um fenómeno negativo”. O presidente da Entidade Regional de Turismo reconhece que Lisboa está em transformação e que estamos a assistir a fenómenos como o da “gentrificação nos bairros históricos”, mas defende que este é “um fenómeno complexo e multifacetado”, que “não se resolve combatendo o Turismo”.
Opinião idêntica tem Melchior Moreira, presidente da Entidade Regional de Turismo do Porto e Norte de Portugal, que não acredita que o excesso de Turismo seja um problema em Portugal e lembra as taxas de ocupação por cama e quarto, que rondam os 55% e 69%, respectivamente. No caso do Porto, a taxa de ocupação/cama foi de 54% em 2016, segundo dados do INE, pelo que, refere o responsável, “há uma margem de crescimento muito grande”.
Tal como Vitor Costa, também Melchior Moreira prefere destacar os efeitos positivos e sublinha que “o Turismo é um fenómeno altamente dinâmico, que depende em grande medida do comportamento da conjuntura interna dos mercados emissores”, pelo que, “os fenómenos de concentração da procura de hoje (ou do passado) não serão necessariamente os do futuro”, defende.
E também Melchior Moreira reconhece que o Porto está a passar por mudanças, que não considera, no entanto, negativas e diz que o problema é que essas transformações estão “a ser debatidas de forma, muitas vezes, emotiva”, e não de um modo “racional e prospectivo”, como seria necessário.

Garantir a sustentabilidade

E também o Turismo de Portugal considera que as principais cidades portuguesas não estão a sofrer de excesso de Turismo, tema que o instituto tem vindo, no entanto, “a seguir com particular atenção”, seja através da análise de dados disponíveis em Portugal, seja pela observação de medidas tomadas noutros destinos. “É um tema actual, que tem vindo a ser abordado em diversos fóruns internacionais em que participamos e em que são discutidos indicadores e potenciais soluções”, destaca o presidente do Turismo de Portugal, Luís Araújo, explicando que o organismo tem vindo a acompanhar de perto “casos internacionais de pressão turística, monitorizando indicadores como, por exemplo, a densidade turística, que relaciona a procura turística e a área do território”. Luís Araújo diz que este é “um indicador internacionalmente utilizado para benchmark nesta matéria” e que tem mostrado que Lisboa e Porto “estão ainda bastante abaixo de outras cidades europeias”.
O presidente do Turismo de Portugal defende que não se pode comparar a realidade portuguesa “com a de outras cidades europeias”, até porque, “por enquanto, em Portugal, a relação entre turistas e habitantes locais tem sido de equilíbrio”. Ainda assim, Luís Araújo admite que “num destino que, ano após ano, atinge resultados recorde em todos os indicadores, é natural que o Turismo seja um assunto na ordem do dia, precisamente no que toca à sua sustentabilidade enquanto actividade” e invoca a Estratégia para o Turismo 2027, lançada pelo Governo para guiar a actividade turística nacional nos próximos 10 anos e na qual estão previstas “acções concretas” e “objectivos claros de promoção da sustentabilidade social e ambiental do País, que passam também por uma desconcentração da procura e redução da sobrecarga dos destinos tradicionalmente mais visitados”.
Em Lisboa, o pensamento é idêntico, uma vez que também Vitor Costa defende que “a sustentabilidade implica uma gestão adequada para que o Turismo possa crescer com qualidade” e volta a sublinhar que o caminho não deve passar por limitações. “O meu conceito de sustentabilidade não é o de ‘limitar’ o Turismo, nem ‘combater’ os ‘efeitos do Turismo’, nem ‘apagar a pegada turística’, mas sim, pela positiva, de gerir o crescimento, criando condições para que o Turismo possa continuar a dar a sua contribuição para o nosso desenvolvimento”, refere, salientando que “a isto acresce uma estratégia de melhor equilíbrio territorial de utilização turística”.
Melchior Moreira concorda que “há, certamente, um debate e uma análise a desenvolver” sobre o tema, motivo pelo qual a Entidade Regional de Turismo “está em permanente contacto com as instituições que tutelam de uma forma directa a gestão da cidade”.
É que uma má experiência dos turistas que nos visitam pode ter graves consequências na imagem do País enquanto destino turístico, uma possibilidade em que, por enquanto, ninguém acredita, pelo menos no “curto e médio prazo”, conclui Graça Joaquim.

Algarve diz que é “ridículo” falar em excesso de turistas

No Algarve, não há excesso de Turismo e Desidério Silva, presidente da Região de Turismo do Algarve, considera mesmo que é “ridículo” que se fale sequer nisso, uma vez que a principal região turística do País continua a sofrer com a sazonalidade e não vai além dos 65% de ocupação ao longo de todo o ano. “Em relação ao Algarve, essa questão não se põe. Tomara nós podermos dizer que temos excesso de turistas, mas não temos. Aliás, temos uma taxa de ocupação anual que não passa dos 65% e temos meses com 30% ou 40% de ocupação. É evidente que precisamos dos turistas”, refere o responsável em declarações ao Publituris.
Desidério Silva salienta que a região tem uma forte tradição turística desde os anos 80 e que nunca se viu confrontada com situações de turismofobia, considerando que não será agora, “que vai havendo oferta diversificada”, que o fenómeno se vai manifestar e atribui as críticas ao excesso de turismo às “opiniões de alguns pseudolíderes, que acham que podem emitir essas opiniões e criar esse ruído”. “Se começarmos a fazer ruído e a alimentar essa questão, os únicos prejudicados somos nós, enquanto destino turístico, e os empresários que investem no Turismo. Portanto, enquanto houver taxas de ocupação que ainda estão abaixo daquilo que é a sua sustentabilidade e muita oferta que não está a ser ocupada, obviamente que a questão não se põe”, refere.
Em Lisboa, pelo contrário, Desidério Silva entende que “o risco existe”, mas adverte que estamos a falar de uma “cidade que tem tido um crescimento muito grande” e onde se tem vindo a criar essa percepção, principalmente “quando o alojamento local começou a ter uma oferta estabilizada, o que pode ter criado alguma ‘dor de cotovelo’ e, por uns, acabam por pagar todos”, diz, considerando, no entanto, que “Lisboa não é exemplo de tudo”.

AHP quer controlar volume de oferta de alojamento

Muitas das críticas aos efeitos do Turismo têm surgido devido ao crescimento do alojamento, especialmente do alojamento local, mas também da hotelaria. Apesar de considerar que “estamos muito longe de ter excesso de turistas em Portugal”, a Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) reconhece que é necessário “acautelar algumas situações, principalmente quando falamos de cidades como Lisboa ou Porto e da sua capacidade de carga”. Foi por esse motivo que a Turismofobia foi um dos temas debatidos no último congresso da AHP.
A associação considera que “é fundamental que exista um equilíbrio entre quem habita e quem visita”, defendendo, por isso, que é necessário “controlar o volume de oferta de alojamento para que não percamos a identidade, logo o que nos distingue”. “Para que o Turismo seja sustentável, tem que haver um limite nas zonas que sofrem uma maior pressão turística”, refere a associação, numa nota enviada ao Publituris.
Mas, acrescenta a AHP, é preciso ter em conta que, a nível nacional, a ocupação da hotelaria só agora ultrapassou os 70%, além da estada média ainda continuar muito baixa, na ordem das duas noites, motivo pelo qual defende que a prioridade deve passar por levar a que os turistas “prolonguem a sua estadia e conheçam as regiões menos visitadas”. “Para evitar o excesso de Turismo, há que distribuir a procura por todo o território, como acontece com outros países, como por exemplo, a Itália ou a França, devendo o Turismo de Portugal promover incentivos para aumentar a estada média dos turistas no nosso País”, defende a associação.

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