Portugal nos novos caminhos do luxo

Por a 18 de Janeiro de 2018 as 9:18

Talvez nunca, como nos últimos anos, se sentiu no nosso País a presença do segmento do luxo de forma tão consistente e tão transversal. É certo que, no passado, houve a espaços em Portugal períodos onde alguma afluência (nomeadamente externa, vinda de Angola e do Brasil) acordou o setor da sua letargia, mas nunca de forma a que permitisse investimentos de longo prazo que fossem verdadeiramente “game changing” e nos colocassem num patamar de referência a nível internacional. É certo que foram abrindo umas lojas de marcas de moda internacionais na Av. da Liberdade e meia dúzia de hotéis de cinco estrelas de bom nível, mas não é isso que faz com que um país possa entrar no mapa do luxo a nível global. Recentemente o panorama tem vindo a mudar, apresentando agora características que permitem dizer que se trata de mais que um mero despertar episódico e inconsequente, antes sendo um crescimento estrutural, e não volátil como já aconteceu no passado. O aumento gradual e consistente da procura (seja esta feita por novos residentes/investidores ou por turistas) por parte de populações afluentes, sejam estas vindas da Europa, China, África, Médio Oriente ou Américas (e seja porque razões for, fiscais, de segurança, políticas, etc) faz com que todo o País possa dimensionar-se de forma assertiva para satisfazer esse tipo de procura, gerando por sua vez mais procura pela existência de novas e mais qualificadas ofertas. As leis do mercado fizeram pois com que Portugal atraísse de fora, e despertasse cá dentro, iniciativas de investimento (imobiliários, de retalho, turísticos, de conhecimento, de media, etc) que vieram aumentar o nível da nossa capacidade de resposta às exigências dos clientes de luxo. A mudança, ainda que se centre principalmente nos mais consolidados destinos turísticos portugueses, tem ramificado para outras partes do País onde ainda não havia oferta para este tipo de clientela. Apesar deste crescimento acentuado, não é expectável que Portugal alguma vez se possa comparar em termos de oferta a destinos mais desenvolvidos. Na realidade, não acho que deva ser essa a nossa ambição. Acredito que o nosso País pode afirmar-se sim num nicho não tão explorado e não tão volátil como o do luxo discreto e do “novo luxo”, aquele que não tem um cifrão à frente com o preço que custa para o adquirir. Este “novo luxo” é menos invasivo das culturas locais, antes as procura alavancar como forma de “vender” o que já quase não há, seja em termos de produtos, alimentos, serviços, locais ou modos de vida. É, na verdade, um luxo ao serviço da cultura individual de cada País, e que permite preservar a sua unicidade e tentar perpetuá-la num mundo moderno que tritura as idiossincrasias de forma voraz.

*Por Miguel Júdice, Hotel Quinta das Lágrimas e orador convidado do curso “Luxury Tourism Management”, do ISEG

Um comentário

  1. Luís Miguel Remédio da Silva Coutinho

    11 de Julho de 2018 at 15:49

    Eu não podia estar mais de acordo com este excelente artigo. Nos dias de hoje, MAIS DO QUE NUNCA, importa proteger as idiossincrasias NACIONAIS e também locais, e este tipo de turismo (de luxo discreto, portanto também de bom gosto) parece-me, efectivamente, um meio eficaz de proteger a cultura e o modo de ser portugueses!
    Excelente artigo!

Deixe aqui o seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *