Opinião| Como crescer sem perder a identidade?

Por a 19 de Dezembro de 2017 as 12:26

Na medida certa o Turismo pode ser o maior trunfo de um país. Em Portugal, o Turismo cresce e ao que tudo indica vai continuar a crescer. O seu crescimento sustentável cria riqueza, gera emprego e melhora consideravelmente a qualidade de vida das populações. Mas quando se massifica e cresce descontroladamente pode ser um “presente envenenado”, destruindo a identidade cultural dos povos, a beleza natural das regiões e degradando de forma considerável a qualidade de vida de quem vive nas cidades. Qual a justa medida para o sucesso? Por onde começar e, acima de tudo, quando e como parar? Este é o mote de um painel chave do 29º Congresso da Hotelaria e Turismo da AHP- Associação da Hotelaria de Portugal. Porquê? Porque muito se tem falado sobre as “dores do crescimento” do Turismo, as mais das vezes em debates promovidos por terceiros ao sector, e é tempo deste assumir a liderança desta reflexão, como primeiro interessado no crescimento sustentável do Turismo, ‘et pour cause’ do negócio. Ouve-se, ultimamente, sobretudo a propósito de Lisboa e do Porto, dúvidas sobre os benefícios e vantagens do crescimento turístico nestas cidades apagando uma simples constatação: os centros históricos destas duas cidades estão hoje muito melhor do que estavam desde há anos. Por razões diversas,- começando no desenho do espaço público e nos planos urbanísticos, ao investimento na reabilitação, ao investimento privado (e não apenas em alojamento, mas na restauração, no comércio, novas indústrias criativas, etc), na procura e na promoção – Lisboa e Porto ganharam vida, foram regeneradas, criaram novos espaços abertos à população, aos turistas e à diversidade. Foi isso que o Turismo trouxe. Mas, mais uma vez, se hoje estamos bem, convém prever e acautelar o futuro, para que continuemos bem. O debate está na ordem o dia e há tensões e desafios que a gestão articulada das várias necessidades nas cidades coloca. É importante encontrar um modelo que permita monitorizar o volume de turistas versus capacidade de alojamento versus capacidade de habitação versus capacidade das infraestruturas, designadamente de transporte, aeroportuária, segurança, higiene urbana, etc. E, em razão desta monitorização, planear o Turismo. Isso é o que as várias cidades da Europa fazem mas que em Portugal ainda não acontece. É tempo de ultrapassar um modelo de crescimento espontâneo, “orgânico”, e passar para um modelo de ordenamento sustentável. É do interesse de todos que estas nossas duas cidades continuem a ter a capacidade de atração de turistas, visitantes e residentes que hoje têm e que outras, como Coimbra, lugar do nosso Congresso, se deem a conhecer para que possam, também elas, ser um polo de atração maior para quem nos visita e em Portugal pretende viver. Há vários exemplos internacionais com modelos de gestão do Turismo distintos, desde Paris, a Amesterdão, Londres, Berlim, Nova Iorque ou São Francisco. Cada cidade tem de encontrar o seu modelo e caminho. O fim é o mesmo: assegurar que as cidades oferecem qualidade de vida aos seus habitantes e a quem as visita.

*Por Cristina Siza Vieira, presidente executiva da Associação de Hotelaria de Portugal.
*Opinião publicada no Publituris de 13 de Outubro.

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