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Brasileiros descobrem Portugal e adoram o Algarve

Por a 24 de Novembro de 2017


O Turismo brasileiro em Portugal está em alta e assim deve continuar nos próximos tempos, segundo as previsões dos operadores turísticos do Brasil com programação em terras lusas. Os brasileiros descobriram Portugal e já não procuram apenas Lisboa e Porto. O Algarve é o novo destino da moda, assim como as ilhas e o Alentejo.


Os brasileiros descobriram Portugal e o interesse não pára de aumentar. “Este deve ser o stand mais visitado da feira”, dizia ao Publituris Bernardo Cardoso, coordenador do Turismo de Portugal no Brasil, por ocasião da 45.ª ABAV Expo, uma das principais feiras brasileiras do sector, que decorreu entre 27 e 30 de Setembro, em São Paulo, ilustrando desta forma o corrupio que se viveu no stand nacional e que demonstra o crescente interesse do turismo brasileiro por Portugal.
Visivelmente satisfeito com o interesse demonstrado pelos profissionais brasileiros pela oferta portuguesa, o responsável mostrava-se confiante quanto ao futuro, até porque, em acumulado, o mercado brasileiro apresenta um crescimento acima de 50% face ao ano passado, em que a subida já tinha sido de 13%. “Esperamos que este seja o melhor ano de sempre”, acrescentou Bernardo Cardoso, explicando que “o mercado brasileiro tem feito uma ascensão grande”, que se deve manter no futuro.
O que tem vindo a mudar são os destinos procurados pelos turistas brasileiros. Lisboa e Porto eram, tradicionalmente, os destinos visitados quase exclusivamente, mas, como diz Danilo Lima, Business Development Europa e Ásia da Trend Operadora, os turistas brasileiros já procuram “destinos diferenciados, já não é só Lisboa”. Ronnie Correa, director da Abreutur no Brasil, corrobora e, apesar de dizer que “Lisboa e Porto são destinos tradicionais para os brasileiros”, destaca que “começa a haver procura e interesse pelo Algarve”, um destino que os brasileiros desconheciam, mas sobre o qual começam a ouvir falar, isto apesar da Região de Turismo do Algarve (RTA) não ter estado presente neste certame turístico (ver caixa).
Ao contrário dos portugueses e dos principais mercados que procuram o Algarve, a motivação dos brasileiros está longe de ser a praia. “No Algarve, os brasileiros não procuram tanto as praias, é mais a noite e aquele ambiente de Côte d’Azur, um ambiente cosmopolita que agrada aos brasileiros”, descreve Daniel Marchante, director executivo da Lusanova, operador turístico português, que há vários anos está presente no Brasil e que conta com programação para Portugal.
Nuno Aleixo, administrador da Nortravel, que também está presente no mercado brasileiro há vários anos, admite que o interesse dos brasileiros pelo Algarve é crescente e diz que as perguntas sobre o destino são recorrentes, principalmente sobre os grandes resorts algarvios. “É o glamour e as pessoas começam a ver que o Algarve é uma referência a nível de destino europeu, já não só ao nível dos destinos portugueses”, justifica.

Alentejo e ilhas

O Algarve corre o risco de vir a ser o novo destino fetiche dos turistas brasileiros, mas não deverá ser o único, já que, como refere Danilo Lima, “há mais procura por outros destinos em Portugal”. Um desses destinos é o Alentejo, onde o mercado brasileiro ocupa já o terceiro lugar em termos de mercados internacionais, com um crescimento ao nível de 37%, segundo Vítor Silva, presidente da Agência Regional de Promoção Turística do Alentejo (ARPTA).
“Pela alta gastronomia, pelos vinhos, pelos azeites, pelas paisagens e mesmo pelas cidades históricas, como Évora, o Alentejo tem sido muito procurado e cada vez mais faz parte integrante dos nossos circuitos”, explica Nuno Aleixo, referindo que a procura dos turistas brasileiros pelo Alentejo tem vindo a conhecer um crescimento tal, que o operador viu-se obrigado a lançar programação para a região. “Até há dois anos, raramente os nossos circuitos passariam pelo Alentejo, hoje em dia já passam naturalmente em Évora, já fazem Estremoz e Vila Viçosa e já começam a fazer outro tipo de produto, porque a procura tem vindo a crescer”, explicou.
As propostas para o Alentejo têm vindo a crescer, assim como para a Madeira, um destino que também tem despertado o interesse dos brasileiros pela sua grandiosa festa de fim-de-ano, cujo fogo-de-artificio é conhecido mundialmente. “Temos uma grande procura pelo programa de réveillon na ilha da Madeira, que tem uma aceitação muito grande aqui no Brasil”, destaca Henrique Rocha, director da Transeuropa, que também conta com programas para Portugal.
“A Madeira já é um sucesso consolidado no Brasil”, acrescenta Nuno Aleixo, explicando que a Nortravel programa o réveillon madeirense no Brasil há quatro anos, tendo já um autocarro completamente cheio só com turistas brasileiros e está na expectativa de esgotar também um segundo, à semelhança do réveillon de 2016, quando o operador teve “dois autocarros de brasileiros na Madeira”.
Destino que também começa a dar que falar no Brasil são os Açores. As ilhas portuguesas foram, há cerca de um ano, objecto de uma grande reportagem da Globo, que passou em horário nobre e que colocou o arquipélago no imaginário dos turistas brasileiros. “Neste momento, a grande novidade são os Açores”, afirma Nuno Aleixo, para quem “o efeito multiplicador dessa reportagem foi fantástico”, o que permitiu que o operador tivesse já levado “oito ou nove grupos de brasileiros aos Açores”, num programa que visita quatro ilhas do arquipélago.
Daniel Marchante concorda e diz que também na Lusanova “já há grupos a pedir os Açores”, uma vez que se trata de “um destino novo, que está a causar um grande interesse”.

Língua, cultura e gastronomia

O interesse dos brasileiros por Portugal não é de hoje, mas ganhou força com a abertura dos voos da TAP entre o Brasil e Portugal, pois como diz Henrique Rocha, que também conta com programação em terras lusas, “o brasileiro passou a ter uma visão muito melhor e diferente de Portugal”. Irina Fouquet, Travel Consultant da TT Operadora, concorda e diz que “o interesse dos turistas brasileiros por Portugal sempre foi grande e continua a crescer porque é um país que não tem nenhuma barreira idiomática e os brasileiros gostam bastante disso”.
A língua é, como refere Henrique Rocha, “um elemento facilitador”, assim como o são as semelhanças culturais e a gastronomia, que agrada aos brasileiros. “Há um vinculo familiar em muitos brasileiros, a cultura portuguesa tem muito a ver com a cultura brasileira, por isso, creio que este é o primeiro ponto de interesse. Em segundo lugar, está a gastronomia, em que Portugal também tem um elo muito forte com o Brasil. Por isso, é fácil fazer Turismo em Portugal”, refere o responsável da Transeuropa.
A gastronomia e os vinhos são, aliás, uma das principais motivações dos brasileiros que visitam o Alentejo e o Douro, regiões onde o enoturismo dá cartas e que os brasileiros apreciam. “O Douro e o Alentejo também têm muita procura por causa dos vinhos”, afirma Ronnie Correa, enquanto Irina Fouquet acrescenta que “há um grande interesse por degustações vínicas”.
Já Ana Maria Santana, directora-geral da Schultz, operador brasileiro que tem filial em Portugal e que, por isso conta com programação própria, considera que “o brasileiro já se sente em casa em Portugal”. “Nós estamos a vender Portugal como nunca vendemos antes, estamos a vender muito. É um País encantador que, embora pequeno, tem muita história e muita cultura. A gastronomia também ajuda porque é algo com que os brasileiros estão familiarizados. Nós temos muito da cultura portuguesa”, revelou a responsável, explicando que, “hoje, Portugal é o destino número um na Europa” para a Shultz.
E também para a Trend Operadora Portugal é hoje “o destino Top na Europa”, com Danilo Lima a sublinhar que os turistas brasileiros procuram “principalmente cultura”. “Geralmente, quando falamos em compras e diversão, os brasileiros acabam por ir mais para a América do Norte, mas sempre que falamos de cultura, falamos de Europa e em Portugal. A cultura é o principal motivo da viagem do brasileiro a Portugal”, afirmou.
Outro dos aspectos mais referidos pelos operadores ouvidos pelo Publituris foi a qualidade do produto que Portugal oferece, com Nuno Aleixo a destacar que, “acima de tudo, neste momento, é a consistência do nosso produto que atrai os turistas brasileiros. A consistência do produto é muito grande”.

Preço

As expectativas de todos os operadores turísticos brasileiros ouvidos pelo Publituris estão em alta. Danilo Lima revela que a Trend Operadora regista, actualmente, crescimentos de 28% ou 29% ao nível das dormidas de turistas do Brasil em Portugal e, por isso, diz que, “se depender da Trend, no futuro o número de turistas brasileiros que visitam Portugal vai crescer ainda mais”.
Mas há ameaças, com a inevitável subida de preços à cabeça. “Penso que, no futuro, Portugal tem tudo para que a procura se mantenha em alta. Portugal está preparado para receber turistas, tem boa hotelaria, boa gastronomia, bom serviço e um bom custo-benefício. Mas é preciso ver se esse custo-benefício, com a procura que existe, se vai manter, porque há o risco de Portugal se tornar um destino caro”, alerta Ronnie Correa, numa opinião que é partilhada por Nuno Aleixo, que diz que “já começa a haver uma tendência, natural pelas taxas de ocupação que estamos a ter, mas que começa a assustar o brasileiro, que é o crescimento do preço em algumas alturas”. “Os turistas brasileiros já perceberam que, quando querem ficar nas duas principais cidades portuguesas, Porto e Lisboa, e querem ficar mais centrais e em hotéis e quatro ou cinco estrelas, os preços evoluíram muito rapidamente em dois anos, com crescimento de tarifas muito elevado”, refere o administrador da Nortravel.
Outro dos problemas identificados pelos operadores turísticos que actuam no Brasil prende-se com a falta de conhecimento do mercado brasileiro sobre os destinos portugueses, o que leva Danilo Lima a afirmar que “é preciso fazer mais marketing”.
Já Ana Maria Santana, que agradece o apoio das regiões portuguesas, nomeadamente ao nível da elaboração dos roteiros e brochuras, diz que o operador sentiu necessidade de promover famtrips para dar um maior conhecimento sobre Portugal aos agentes de viagens brasileiros. “Fizemos um trabalho interessante, em dois anos consecutivos levámos os agentes de viagens para conhecer o destino. Na primeira famtrip levámos 120 agentes de viagens de todo o Brasil. Na segunda foram 96 agentes, e com isso disseminámos muito o que é Portugal no Brasil”, explicou, considerando que o operador está agora a “colher os frutos desse trabalho”.¶

“Não temos condições para ir a todas as feiras”

Confrontado com o grande interesse que o Algarve está a despertar junto dos turistas brasileiros, Desidério Silva, presidente da Região de Turismo do Algarve (RTA), explica a ausência da entidade regional na ABAV com as prioridades identificadas, nas quais não se encontra esta feira brasileira. “Num contexto das prioridades, a ABAV não tem sido uma feira prioritária. Não temos condições para ir a todas as feiras e, até aos últimos dois anos, o Turismo do Algarve entendeu que o investimento nesta feira não tinha retorno”, disse o responsável ao Publituris.
Apesar de não ter estado presente na 45.ª ABAV Expo, Desidério Silva diz que “o importante é passar a mensagem”, motivo pelo qual a RTA tem vindo a realizar outras acções no mercado brasileiro, como os convites a bloggers e jornalistas do Brasil para visitarem a região, o que “pode ter um efeito muito superior a estar na feira”.
Desidério Silva reconhece que os brasileiros “são turistas importantes porque é um mercado que tem capacidade de compra”, ainda que continue a ter o problema do transporte aéreo. “A principal dificuldade tem a ver com o transporte aéreo, o turista chega a Lisboa e nem sempre tem os meios para chegar à região. Ajudaria se a TAP voasse mais de Lisboa para Faro”, considera.
O responsável não estranha o interesse dos brasileiros pelo Algarve e realça que a região “se tem afirmado pela beleza natural, pelo clima, língua, qualidade da hotelaria e pela gastronomia”, numa oferta que vai muito além da praia e que tem atraído igualmente turistas dos EUA e Canadá, à semelhança dos brasileiros, daí que a prioridade face a estes mercados passe agora pela “fidelização”. “A nossa preocupação é agarrar todos aqueles que conhecem a região pela primeira vez. O importante, nesta fase, é a fidelização. Além dos mercados principais, como o britânico, temos que ter uma atenção especial aos novos clientes. É isto que faz do Algarve uma região cada vez mais sustentável”, concluiu.

* A jornalista viajou a convite da ABAV para São Paulo

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