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“Há que atrair mais turistas mexicanos a Portugal”

Por a 26 de Junho de 2017


Em vésperas da visita do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ao México, o embaixador do México em Portugal, Alfredo Pérez Bravo, destaca as oportunidades de investimento que as empresas portuguesas podem encontrar no destino. As similaridades entre México e Portugal em termos turísticos também foram abordadas.

Embaixador do México
O México é o 8º destino que mais turistas internacionais recebe a nível mundial. Alfredo Pérez Bravo, embaixador do destino em Portugal, considera que a larga experiência que o país tem no sector turístico pode servir para colaborar com Portugal que, releva, deve captar turistas provenientes do México. A abertura de uma ligação aérea regular é um dos desafios que a Embaixada do México tem na sua agenda.

Como decorreu o último ano turístico para o México?
O México é um país com uma grande tradição turística. Desde que eu era uma criança, o México já era um país muito atractivo ao turismo mundial, por várias razões: pelas suas praias, história, monumentos, pela sua gente. Recordo que havia lugares como Puerto Vallata ou Acapulco, onde iam os grandes artistas de Hollywood ou o jet7 da altura, e isso dava muita publicidade ao México. Desde há muitos anos, o México desenvolveu uma infra-estrutura extraordinária. 2016 foi o ano em que o México recebeu mais turistas estrangeiros. Recebemos 35 milhões de turistas estrangeiros, isto significa que o México passou a 8º lugar do mundo nos países que recebem mais turistas. Estamos, sem dúvida, no primeiro lugar na América Latina, que mais turistas estrangeiros recebe e estamos em segundo lugar na América, porque há que reconhecer que os EUA continua a ser um país que recebe muitos turistas, tanto Califórnia, como Flórida, Nova Iorque. Acrescento ainda algo que muitas vezes não se comenta, mas que é muito importante, que é o turismo interno. Calculamos que, por ano, há mais de 80 milhões de mexicanos que visitam outros pontos que não a sua cidade, outras cidades, outros lugares no México. Se somarmos estes 80 milhões de turistas nacionais aos 35 milhões internacionais, estamos a falar de um universo de quase 120 milhões de turistas que durante o ano estão a mover-se no México. Isto significa que o México tem uma enorme infra-estrutura para receber, para dar alojamento, alimentar, serviços médicos para atender esta quantidade de turistas. O tema de segurança é um tema muito importante, porque sabemos que o Turismo é hiper sensível a qualquer situação em qualquer lugar. Fui embaixador em 48 países na minha carreira e em muitos dos países onde estava a trabalhar notei como o Turismo vai e vem dependendo da situação política, de segurança, de desastres naturais, é muito sensível. No caso do México, estamos convencidos que o turista deve ter todas as garantias, todos os apoios, porque é uma indústria muito importante.

O que significa o Turismo economicamente para o México?
O Turismo estrangeiro representa quase 20 mil milhões de dólares de receitas, é o terceiro ingresso mais importante da economia mexicana. Em termos sociais, tem um papel fundamental, porque emprega directamente quase três milhões de pessoas. Mas há empregos indirectos, que são vários milhões que não consigo contabilizar. Para não me enganar, diria que o turismo estrangeiro cresceu, de 2015 a 2016, 8,8%. Este é um dado muito importante, porque, no caso do México, as políticas de promoção e atenção ao Turismo foram muito eficazes. É certo que, a maior parte desse Turismo, vem dos EUA e do Canadá, mas é interessante que o México recebe turistas durante todo o ano. Há um grande número de turistas, como dizia, dos EUA, canadianos, mas também estão a viajar muitos latino americanos, como brasileiros, argentinos, colombianos, que gostam de ir ao México desfrutar e não é tão caro para eles. Temos também um bom número de turistas europeus, que são dos mercados tradicionais: britânicos, franceses, alemães, que gostam muito do México. E a este grupo de turistas europeus está a começar a juntar-se os portugueses. Em 2015, recebemos 27700 turistas portugueses e, em 2016, recebemos 32800 turistas portugueses, um aumento de 18,4%. Este turismo português começa a ser importante, mas ainda é muito pequeno. Parece-me que 32 mil pessoas de Portugal a visitar o México, é uma boa notícia, mas pode crescer muito mais. Devíamos receber entre 150 mil a 200 mil turistas portugueses por ano. Antes de ser embaixador em Portugal, fui também embaixador do México na Rússia, estive cinco Invernos na Rússia. Quando cheguei, em 2007, só viajavam para o México por ano menos de mil turistas russos. O que fizemos para alterar este número que realmente cresceu de uma maneira impressionante? Primeiro, alterámos o tempo que demorava a dar um visto para o México aos turistas russos. Passámos de 45 dias a dois minutos, porque passou a visto electrónico. Foi a primeira embaixada do México a incorporar o visto electrónico. Outra das coisas que é muito importante é dar informação. Se for agora à rua e perguntar a qualquer pessoa o que sabe sobre o México dizem-me “tequila”, “Cancun”, “Mariachis”, mas essa não é uma informação suficiente para tomar uma decisão como turista. O Turismo no século XXI compreende o mundo todo. A decisão como turista não é sobre um ou dois lugares, estão na mesa todas as possibilidades. É muito acessível poder viajar. A informação é muito importante, difundir mais quais as opções de Turismo que o México oferece e depois disso há algo muito importante. Quando se começa a ver que cresce o Turismo de um país para o outro, como é o caso de Portugal para o México, precisamos de fazer outras coisas. Uma das coisas que é fundamental é a conectividade. Se começamos a ter um maior número de turistas precisamos de oferecer-lhes conectividade. O problema não é de camas, quartos, mas de voos. Temos vários desafios pela frente. Um desafio de logística que tem que ver com conectividade aérea, porque parece-me que se queremos aumentar o Turismo, comércio e câmbios entre Portugal e o México temos que fazer com que hajam voos directos entre os dois países.

Mas existem voos charter…
Os voos charters são uma opção importante, mas não a única e devemos procurar várias opções. No tema dos charters, o primeiro que temos que fazer é que os charters sejam durante todo o ano e não somente numa época do ano. Temos estado a conversar e creio que vamos ter boas notícias com o Grupo Barceló, que são na realidade os que operam os únicos charters que existem no momento de Lisboa a Cancun. Segundo, penso que este é um assunto que terá de ser resolvido neste ou no próximo ano, que são as companhias aéreas nacionais – TAP e AeroMéxico -, tenham um voo directo de Lisboa para a Cidade do México, Cancun, Monterrey ou Guadalajara, ou do Porto. Sei que, em princípio, as companhias aéreas decidem frequências e rotas dependendo de quantos clientes vão comprar esse destino, mas estou seguro que, como ocorreu noutros casos, uma vez que exista essa facilidade as pessoas passam a utilizá-la. Esse é um dos desafios.

Mas já está em conversações com as companhias aéreas?
Quando cheguei aqui há dois anos, aproximei-me da TAP, mas estava num processo de privatização, que depois se reverteu e enfim. Vamos tentar novamente com a TAP, agora que as coisas parecem estar um pouco mais definidas. No caso da AeroMéxico, vamos tratar que este seja um tema que a companhia aérea mexicana tenha presente. Este é um desafio que queremos cumprir.

E que mais desafios existem?
O outro é que estou convencido que o Turismo deve ser um exercício, uma política, fenómeno, actividade que se vê nos dois sentidos. Agora que tenho o privilégio de viver em Portugal e quando vejo as maravilhas que há em Portugal – Portugal é um dos países mais bonitos do mundo… Cada metro quadrado de Portugal é maravilhoso e é uma surpresa. Portugal está bonito, tem tantas coisas e não vejo os mexicanos a desfrutarem. Quiçá o maior numero de mexicanos vem a Fátima, que é algo importante. Há que atrair mais turistas mexicanos a Portugal, mas vejo algo mais importante em Portugal. Creio que vocês, Portugal, é a minha opinião como observador, são o ponto perfeito para se tornarem o ‘hub’ de três continentes. Se vocês desenvolverem mais os aeroportos, outros pontos de comunicação, portos, etc. Este seria o ponto onde se tinham de ligar conexões da América do Norte, América Central, ou seja, de toda a América, de África e a Europa.

Que estratégia é que o Governo mexicano tem para o Turismo?
O Turismo é muito importante no México, mas representa apenas 9% do PIB. É o terceiro ingresso da economia mexicana. O primeiro é o comércio. O México é uma das maiores economias mundiais, somos neste momento a economia número 14. Em termos de comércio exterior, o México é a nona economia. Temos um comércio próximo dos 700 mil milhões de dólares por ano, mais de três vezes a economia portuguesa. O México tem um comércio bilateral com os EUA de pouco mais de 500 mil milhões de dólares, é o nosso principal sócio comercial. O comércio entre o México e Portugal é de 600 milhões de dólares por ano. O que Portugal e o México comercializam num ano, equivale a 10 horas com os EUA. O segundo é algo que é uma realidade, são as remessas dos mexicanos que vivem nos EUA. Nos EUA vivem 36 milhões de mexicanos em quatro gerações, muitos desses enviam dinheiro às suas famílias no México. Em 2016, recebeu-se 26 mil milhões de dólares em remessas. É o país no mundo que mais remessas recebe. O Turismo é muito importante, mas há que definir que a economia mexicana conta apenas com 9% vindos da actividade do Turismo. Nós sabemos qual é o nosso potencial e qual é a estratégia a seguir. Primeiro, o que o México oferece são três mil anos de história. É um dos países com uma das culturas mais antigas. O México é um país privilegiado em termos de geografia, porque temos de um lado o oceano Pacífico, do outro o Atlântico, temos também o mar das Caraíbas e o mar de Cortez, que está abaixo da península da Califórnia. Tudo isto dá-nos mais de 11 mil quilómetros de praias. Temos também uma zona desértica muito importante. Na parte norte do México, há uma zona desértica e semi-desértica, que contrasta com uma zona de selva. Toda a zona de selva e desértica está cruzada por cadeias de montanhas. O México é um dos países do mundo com mais montanhas. Temos uma geografia que nos permite ter todos os micro-climas, os micro-sistemas, e isso dá ao México algo que é único. Somos dos sete países com maior diversidade. A gastronomia mexicana é, ao mesmo tempo que a da China, a mais variada no mundo, reconhecida como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Isto permite-nos desenvolver uma série de turismos que é praticamente todo o leque de turismo que se possa pensar. No México há Turismo de praia, cultural, histórico, eco-turismo, turismo de saúde, turismo desportivo, turismo de luxo. Outro desafio: Como fazer com que os portugueses viajem a outros lugares que não seja Cancun e Riviera Maya? Queremos que vão aí, mas também que vão a outros lugares interessantes do México, como Guaca, Yucatan, Zacatecas, Guanajuato, a própria Cidade do México. Também temos, como em Portugal, rotas gastronómicas, de vinho. Há outro turismo que é muito importante, que é o desportivo, desde desportos aquáticos, Fórmula 1, Temos o Rally Baja 1000, temos competições de vela, de cavalos, enfim. Há um sem número de actividades. (…)A actividade turística no México desenvolveu-se enormemente. Este é um ponto onde o México pode colaborar, cooperar com Portugal: desde a parte de intercâmbio de experiências, de cooperação técnica na área do Turismo e de investimentos conjuntos.

Investimento português
Existem empresas portuguesas no desenvolvimento de unidades hoteleiras?
O Turismo é muito atractivo e se quiseres assegurá-lo tens de que associá-lo com o desenvolvimento de infra-estruturas – construir hotéis, resorts – o grupo português mais importante no México é a Mota Engil, que com sócios mexicanos, está a iniciar a construção de um resort em Costa Canuva, em Nayarit. Vão construir um resort com casas, hotéis e campo de golfe. Este é um projecto maravilhoso, de milhares de milhões. Penso que a obra deve começar este ano.

Que parcerias é que Portugal e o México podem desenvolver?
O México é um mercado muito atractivo para o investimento português. Não está a chegar investimento mexicano a Portugal. Tivemos um problema, com a empresa Ado-Avanza, que ficou com a sub-concessão do Metropolitano de Lisboa e a Carris, mas com a mudança do Governo desistiram da concessão. A partir desse problema, há mais de um ano e meio, deixou de chegar investimento mexicano [em Portugal], mas vamos tratar de que regresse. O próprio presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, vai visitar o México, de 16 a 18 de Julho. O que queremos é que o presidente viaje com empresários portugueses e ver que outros negócios podemos unir com empresários mexicanos. Creio que os empresários do sector turístico deviam acompanhar o presidente Marcelo, porque há um mundo de oportunidades.

Estando como observador em Portugal, o que considera que Portugal pode aprender com o México no Turismo?
Diria que, apesar de tamanhos distintos, o México e Portugal são muito parecidos. Primeiro, porque o México e Portugal têm mar, conhecem-no e vivem com ele. Segundo, ambos têm jóias arquitectónicas e tesouros culturais maravilhosos. Portugal tem muito que oferecer ao Turismo, o México também. Em qualquer área de Turismo, México e Portugal deveriam sentar-se e unir esforços, não importa os tamanhos. Podem intercambiar cooperação. É simplesmente sentarmo-nos e desenhar projectos de colaboração e o Turismo é um deles.

 

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