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IVA, o principal inimigo do Golfe

Por a 14 de Fevereiro de 2017


Uma das principais armas turísticas para combater a sazonalidade – o golfe – tem vindo a ganhar cada vez mais destaque, fruto também dos prémios internacionais que os seus campos têm conquistado. Para o Turismo de Portugal, este é um produto estratégico, mas há críticas vindas do sector com um alvo identificado: o IVA. Depois, discute-se o marketing, tecnologia, mercados e os números. Muitos.

O golfe é um dos produtos estratégicos para o Turismo de Portugal. Senão, vejamos os números do Conselho Nacional da Indústria do Golfe (CNIG) relativamente a 2016: cerca de dois milhões de voltas, sendo que, destas, 82% são realizadas por estrangeiros. Mais: as receitas directas foram de 120 milhões de euros e as indirectas de 600 a 700 milhões. Em comparação com 2015, registou-se um aumento de cerca de 9,5% no número total de voltas. O Turismo cresce em Portugal e o golfe, claro, segue a tendência. Há a destacar, no entanto, que se trata de uma indústria que “tem um importante contributo para combater a sazonalidade do sector, nomeadamente no Algarve”, região com mais campos – 39. A afirmação é de Filipe Silva, do Turismo de Portugal e espelha bem a relevância do produto. Aquele responsável falava durante a Conferência Nacional do Turismo Residencial e do Golfe e chamava a atenção aos presentes sobre o que representa o golfe em Portugal. Mas Filipe Silva tinha mais dados para apresentar. “Os meses de Março, Abril e Outubro foram os mais fortes em 2016. Já tinha sido assim em 2015 e 2014”, acrescentando ainda que os números “têm vindo a evoluir favoravelmente ano após ano”. O próprio CNIG, em resposta a algumas questões colocadas pelo Publituris, explica que “sem o golfe, a economia do Algarve ressentir-se-ia fora dos três meses de Verão, já que é este produto turístico que mais combate a sazonalidade e mantém em funcionamento, durante todo o ano, hotéis, rent-a-cars, restaurantes, comércios e serviços da região”.

IVA, esse maldito

Significa, então, que tudo vai bem no sector do golfe em Portugal? Segundo alguns testemunhos de elementos relevantes no sector, há um detalhe que necessita de resolução: o IVA. Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo Português (CTP), também falou na conferência sobre golfe e colocou o dedo na ferida: “O Governo não pode limitar um produto que tantas receitas traz ao País e que reduz, em muito, a sazonalidade em regiões do País que sofrem desse mal”. Calheiros continuou e foi mais longe: “É fundamental que a possibilidade de redução do IVA – que actualmente está nos 23% – esteja em cima da mesa no próximo Orçamento do Estado”, alertou. Para o responsável máximo da CTP, “um destino ‘premium’ para o golfe como é Portugal e que tem recebido prémios nesta modalidade, a nível internacional, deve ser bem tratado e caminhar no sentido da modernização”.

A finalizar, mais um dado: “Temos uma quota de mercado de 19% e um total de 90 campos. Em Espanha, onde existem mais de 300 campos, a quota de mercado é de 21%. É importante reflectir sobre estes números e perceber a nossa qualidade e margem de progressão”, concluiu.

Golfe

Alinhado ao discurso de Francisco Calheiros esteve Tiago Caiado Guerreiro, senior partner da Caiado Guerreiro & Associados, que incidiu a sua intervenção sobre a competitividade fiscal. “O agravamento do IVA em 17% no produto golfe foi uma medida sem sentido, pois faz com que turistas de elevada capacidade financeira e que se hospedam em hotéis de quatro e cinco estrelas no nosso País, prefiram outros destinos mais competitivos a nível fiscal”.

Para Tiago Caiado Guerreiro, “de cada vez que existe um fenómeno com rentabilidade financeira, cria-se um imposto”, referindo-se à taxa turística que alguns municípios portugueses têm aplicado nos últimos anos. Já o CNIG recua alguns anos para apontar um erro estratégico. “Em 2012, após um longo e penoso esforço devido à crise de 2009, começaram a ver–se os primeiros resultados encorajadores. No entanto, nesse mesmo ano, o Executivo alterou os escalões do IVA e, por lapso – como admitiu – alocou o golfe no mesmo escalão dos ginásios e não no da hotelaria, onde sempre tinha estado. Resultado: os campos, ainda mal refeitos da crise, tiveram que suportar uma quebra de receitas de 17%, a diferença entre os 6 e os 23 pontos percentuais de IVA que passaram a ser aplicáveis”.

Ainda segundo o CNIG, “a indústria regressou a indicadores de rentabilidade ainda piores do que os anteriores à crise”. Hoje, o CNIG aplaude o trabalho do Turismo de Portugal. “Tem feito um excelente trabalho de promoção internacional do País como destino de golfe. Com essa ajuda, e com o trabalho continuado do CNIG, dos campos e de outros interessados no sector, o número anual está a regressar a níveis comparáveis aos de 2009”.

Reino Unido, Algarve e a concorrência

Tem sido assim ao longo dos anos e assim se mantém: o Reino Unido é o principal mercado emissor com 37%. A seguir, surgem os golfistas portugueses com 17% – menos de metade – e os suecos fecham o pódio com 5%. Alemães (4%), irlandeses (3%), holandeses (2%) e franceses (1%) são as nacionalidades mais relevantes. Destaque, porém, para os restantes 30 pontos percentuais que representam os mais diversos mercados. Referência para o facto de, no Algarve, apenas 4% das voltas serem realizadas por portugueses, percentagem que dispara em Lisboa – 74% – e que cobre quase a totalidade no Porto: 96%.

Voltando à região mais a Sul do território, é importante reter este dado: 70% das voltas de golfe em Portugal são aqui realizadas. Sendo que, como mencionado mais em cima, os portugueses apenas representam quatro pontos percentuais no Algarve, rapidamente percebemos a importância dos mercados externos nesta indústria. O restante território tem o Centro, Lisboa e Alentejo com 22%, e Norte com 4%. A Madeira e os Açores completam o bolo em falta. Relativamente aos dois arquipélagos, um par de dados que merecerão reflexão: os Açores mantém o mesmo número de campos desde 1985 e a Madeira construiu dois campos em 30 anos.

Sobre a concorrência, o CNIG apresenta alguns países do Leste da Europa, Mediterrâneo e Médio Oriente como destinos emergentes. Porém, o facto de nações como a República Checa, Polónia e Hungria apresentaram temperaturas médias abaixo dos 10 graus no Inverno – altura em que os golfistas mais viajam – é uma grande desvantagem. O Dubai, por exemplo, “é visto como um destino de prestígio/exótico, uma viagem que vale pela experiência e, por isso, não recorrente”, explica fonte do CNIG. Já a Turquia, “apresenta boas condições climáticas, mas tem tido limitações ao nível da segurança”.

Tecnologia e Marketing

De regresso à Conferência Nacional do Turismo Residencial e do Golfe, é importante fazer referência a uma voz que apontou caminhos para tornar o produto “mais jovem e fresco”: John King, co-founder da Golf Marketing Lab. “O grande problema dos principais clubes de golfe é que estes criam, primeiro, os seus produtos e só depois olham para os seus potenciais clientes. Isto está profundamente errado e deve ser feito ao contrário. No marketing, a prioridade é o cliente, porém, os clubes de golfe não o fazem”, começa por dizer, fazendo a ponte para a questão da faixa etária: “Há clubes que trabalham bem o marketing e direccionam o seu produto para um target entre os 18 e os 35 anos, com outro tipo de comunicação e tom”, exemplificou.

Golfe

“Se querem refrescar o produto e/ou a modalidade é este o caminho”, sublinhou. Definindo-se como “o melhor amigo do golfista”, a Hole 19 é uma aplicação mobile que ajuda o golfista a encontrar os melhores campos, fornece mapas GPS com distâncias exactas para o buraco e obstáculos no campo, revê as suas estatísticas, pontuações e partilha a sua experiência com um milhão de membros que compõem a comunidade.

Não fazendo qualquer tipo de segmentação por idade, a ligação à tecnologia, smartphones e mobile acaba muitas vezes por empurrar este tipo de soluções para um target mais jovem e, hoje, mais exigente. Anthony Douglas, CEO da Hole 19, sem segmentar, traça um perfil daquilo que é, actualmente, um cliente millennial. “Os clientes são cada vez mais exigentes. Através da Internet ou de um smartphone, temos acesso a tudo na ponta dos dedos. Se queremos comprar um voo, é na hora; se queremos reservar um hotel, temos milhares à escolha com confirmação imediata”.

Apesar de algum conservadorismo associado à indústria, o CEO da Hole 19 considera que se trata de “uma excelente oportunidade para fazer evoluir a modalidade, tal como ocorrido em sectores como a aviação ou o alojamento”. “Acreditamos que a tecnologia tem o poder de melhorar as nossas vidas e de as tornar mais simples”. Relativamente ao papel da Hole 19 no desenvolvimento de um produto estratégico para o Turismo em Portugal, Anthony Douglas explica que a empresa “mostra ao mundo aquilo que o país tem de melhor”. “Temos cá alguns dos melhores campos de golfe da Europa e do Mundo, mas ainda existem algumas pessoas que não os conhecem e nós estamos a trabalhar para mudar isso”.

Também alinhado ao digital, o CNIG criou uma plataforma de reservas online – portugalgolfbooking.com. É gerida pelo conselho e permite ao jogador ter acesso à disponibilidade dos campos de golfe em tempo real e com antecedência até um ano. De acordo com o CNIG, “até Dezembro de 2016, já passaram pela plataforma 670 mil visitantes, sendo que as receitas estão perto de um milhão de euros”. Sem surpresas, os principais utilizadores da plataforma vêm do Reino Unido, Portugal, Alemanha, França e Irlanda.

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