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“Temos que criar uma APAVT muito forte no próximo mandato”

Por a 8 de Dezembro de 2016


O sector das agências de viagens está a passar “por alguns problemas”. É esta a análise de Vítor Filipe, presidente da Go4Travel, que em entrevista ao Publituris, considera que as próximas eleições da APAVT devem ter uma única lista candidata. Uma lista de consenso constituída pelas principais empresas do sector para, unidas, lutarem por melhores condições para o sector da distribuição.

vitor filipe

Um ano depois de ter sido eleito presidente da Go4Travel, Vítor Filipe faz uma análise da sociedade composta por 39 accionistas, mas também não deixa de avaliar e sublinhar os principais problemas do sector das agências de viagens em Portugal. As eleições da Associação Portuguesa de Agências de Viagens e Turismo (APAVT) de 2017 são um dos temas inevitáveis.

Um ano depois de ter sido eleito presidente da Go4Travel, que balanço faz?
Este primeiro ano foi de bastante trabalho. Logicamente, que uma nova administração vem com novas ideias, reformulámos algumas coisas dentro da Go4Travel. Houve um período de transição com a anterior administração, as coisas funcionaram bem e podemos dizer que tem sido um ano muito positivo para os objectivos da Go4Travel.

Conseguiram implementar todas as ideias iniciais que tinham para a Go4Travel?
Penso que tudo o que pretendíamos conseguimos, praticamente, realizar. Houve uma excepção, que foi a renovação do pacto social. Queremos introduzir algumas mudanças no pacto social, não foi possível durante este primeiro ano, mas pensamos que provavelmente até ao fim do ano isso se venha a concretizar. Ainda iremos realizar uma assembleia-geral extraordinária em que, entre outros assuntos, esperamos voltar à reformulação do pacto social. Um dos objectivos é condicionar o número de mandatos dos administradores para não se criar alguma habituação ou algum marasmo nas administrações. Queremos evitar isso. O resto foi praticamente concretizado. Houve algumas ideias que pretendíamos pôr em prática e achámos por bem trabalhar com uma consultora que nos tem apoiado e as coisas estão a demorar um pouco mais do que estávamos à espera. De qualquer das formas, ainda temos mais um ano de mandato com esta administração e esperemos que até aoseu final as coisas se concretizem.

Que mais-valias foram criadas para os 39 accionistas da Go4Travel?
O mais importante que foi feito foi a renegociação de praticamente toda a contratação, quer a nível de companhias aéreas, ‘hotel providers’, operadores turísticos. Todos os anos é reformulada essa contratação e estamos certos e convictos que melhorámos muitas das condições que tínhamos com vários fornecedores.

Para tornar a Go4Travel mais competitiva…
A Go4Travel já era competitiva, mas de qualquer forma o mercado está sempre em ebulição, há muitas alterações. Felizmente, conseguimos, até porque com a admissão que fizemos, durante o nosso mandato, de dois novos accionistas, trouxe-nos um peso maior junto dos nossos fornecedores e isso foi benéfico. Ajudou-nos também a criar melhores condições para todos. Isso foi um dos nossos desideratos, que era criar uma Go4Travel com maior peso no mercado e isso foi conseguido. Admitimos dois novos accionistas, que foi o caso da EmViagem e da Globalis, que foi também um dos objectivos que tínhamos em mente quando tomámos posse: tornar a Go4Travel mais forte. Isso foi conseguido e pensamos que não iremos parar. O objectivo tem sido sempre que a sociedade se torne cada vez mais forte. Nós somos muito selectivos em termos de accionistas, porque ao contrário de outros grupos que existem, somos uma sociedade em que todos os membros são accionistas, têm igual peso e o mesmo número de acções. Prevemos, provavelmente, que até ao final do ano possam aderir à nossa sociedade mais um ou dois accionistas, mas também pensamos que durante algum tempo vamos estabilizar. Esta administração tem um objectivo que é o peso da Go4Travel ser cada vez maior no mercado, mas também não vamos crescer à toa.

No mercado ainda existem potenciais futuros accionistas da Go4Travel?
Não existem muitos. Dentro das nossas características existem muito poucos. Há realmente algumas organizações que pensamos que está na hora delas também se juntarem a nós, mas há muito poucas. Para serem admitidos novos accionistas têm de ser levados a assembleia-geral, que vai decorrer ainda até ao final do ano. Tem que haver uma maioria de dois terços para serem admitidos e, às vezes, isso não é fácil. Às vezes podem haver conflitos de interesse entre accionistas actuais e candidatos a accionistas, portanto, temos sempre muito cuidado em não ferir susceptibilidades dos nossos accionistas.

Que mais-valias é que ainda vão ser criadas dentro da Go4travel?
Neste momento, não estamos a pensar envolver-nos noutras aéreas, a não ser naquilo que hoje já fazemos, que é a contratação global de todos os accionistas em todas as áreas. Agora, para termos peso temos de ter dentro dos nossos accionistas empresas fortes e credíveis. É isso que tentamos desde o início conseguir e temos conseguido.

Como correu o negócio da Go4Travel este ano?
Tem sido um ano difícil, principalmente com a quebra do negócio com Angola, em que alguns dos nossos accionistas estão mais expostos a esse mercado tiveram quebras de alguma importância. De qualquer forma, o objectivo da entrada de novos accionistas é também estancar quebras e podemos dizer que estes últimos accionistas que entraram, têm-nos ajudado bastante. São duas empresas com uma dinâmica grande, com pessoas conhecedoras do mercado, e composta por bons profissionais. Alguns dos nossos accionistas tiveram quebras, enquanto esses dois novos accionistas têm crescido. Mas fazendo uma análise, penso que poderemos, praticamente, fazer números idênticos ao do ano anterior, até porque as empresas têm estado a recuperar no último semestre. Isso já será uma grande vitória.

Esperam que 2017 seja melhor?
Esperamos que sim. Muitos dos nossos accionistas também são empresas com bastante visibilidade no incoming, mas o ‘core business’ da Go4Travel é o outgoing e, felizmente, os números dos últimos dois, três meses tem-se notado uma recuperação. A quebra que notámos nas nossas vendas, tanto de BSP, como nas vendas globais, tem muito a ver com a quebra do mercado angolano. Tivemos todos que reformular a estratégia. O que se verifica no sector das agências de viagens, as quebras que houve nas principais agências foi praticamente no mercado angolano. Além de ter muito peso em volume de vendas, ainda tinha peso em rentabilidade, era um mercado bastante rentável. Hoje em dia, a concorrência é grande e todos estamos a tentar, ao máximo, melhorar as nossas performances. Relativamente ao mercado de ‘outgoing’, considero que se está a atravessar uma fase de estagnação.

As empresas portuguesas estão mais comedidas?
Julgo que, quando aparece a crise, felizmente, em Portugal, as empresas tiveram que criar uma dinâmica para exportar e quando exportam, as agências que trabalham no corporate vão ter mais clientes e mais gente a viajar e isso aconteceu durante vários anos. Com a baixa do preço do petróleo, houve alguns mercados que caíram bastante, como o angolano e o brasileiro. As nossas exportações tiveram alguma queda, porque não são só bens materiais, também se exporta muitos serviços. O que notamos na Go4Travel é que tende a haver alguma estagnação no mercado, vamos ver se em 2017 as coisas melhoram. Temos esperanças que isso venha a acontecer.

O corporate representa uma grande fatia do negócio da Go4Travel?
Sim. Direi que entre 70 a 80% do negócio das agências da Go4Travel são as viagens das empresas. Temos também operadores turísticos que são nossos accionistas e de bastante peso: Nortravel, Viajar Tours, Lusanova. Depois temos agências com bastante facturação na área do incoming, mas essas também trabalham muito com o negócio de empresas. Há aqui um mix do negócio de agências, também temos algumas pequenas agências, algumas até situadas na província. Na parte do lazer, também se assiste a alguma estagnação. Se compararmos o que era há uns anos, não tem nada a ver. Hoje em dia, há um bom negócio que não se faz nas agências, muita gente hoje faz as suas reservas directamente nas companhias aéreas e nos hotéis na Internet.
Felizmente para nós, é que o tipo de apoio e assistência é diferente de quem trabalha com uma agência de viagens. Há muitos mais clientes a viajar do que havia há 20/30 anos, também são pessoas mais conhecedoras e hoje a concorrência é muito mais feroz. Cada um vai olhando por si. E as margens não têm nada a ver. Hoje são margens muito mais esmagadas e é um negócio muito complicado. Até a própria estrutura do que são as agências de viagens de hoje, hoje praticamente não há médias agências. Existem grandes organizações, existem empresas como a Go4Travel e outras que se juntaram para argumentar, lutarem e para terem armas semelhantes aos grandes, e depois as agências com pequenas estruturas, muitas delas que não são IATA, que são compostas com poucas pessoas. Uma das coisas que realmente me preocupa foi a desregulamentação que houve no sector. De vez em quando assistimos que houve um problema com uma agência de viagens, que houve uns passageiros que não viajaram ou porque a agência fechou ou que houve fraudes. E isso tem que ver com a desregulamentação que houve. Não sei se vale a pena.
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Desafios
Quais são os desafios que se colocam à Go4Travel e ao sector?
Os desafios da Go4Travel são tentar melhorar a contratação junto dos nossos fornecedores. São os nossos objectivos, mas logicamente para melhorarmos as condições junto deles temos também de lhes dar contrapartidas e volume de negócios. Temos de, cada vez mais, ser selectivos com quem trabalhamos. Basicamente as agências de viagens estão ao serviço dos seus clientes. Somos consultores de viagens e temos de ter junto de nós as empresas e o cliente de lazer. Temos de olhar pelos interesses deles e negociar o melhor possível para lhes oferecer as melhores condições. Não é fácil, hoje em dia, negociarmos com os nossos parceiros. Os nossos parceiros também têm os seus problemas, no caso das companhias aéreas, que com o advento das ‘low cost’ também se viram pressionadas a cortar custos. O que acontece, e já cá ando há alguns anos, é que nas horas de aperto eles vêm ter connosco, mas aí temos de ver quem esteve sempre do nosso lado e quem não esteve. Por exemplo, falo dos hoteleiros, que nesta altura está tudo de barriga cheia, as coisas estão a correr bem, mas isto também são ciclos.

Como está a vossa relação com a TAP?
A Go4Travel tem tido um relacionamento bom com a TAP, temos exposto os nossos problemas à TAP, também entendemos os seus problemas. Falo como Go4Travel, se falar a nível das agências de viagens se calhar a TAP tem-se portado muito mal com os agentes de viagens. Já falei que não estou de acordo com algumas posições que a TAP teve com as agências há alguns anos, não muitos, se calhar, será bom para a TAP ter uma melhor proximidade com os agentes de viagens ou, então ter um distanciamento. Assistimos a algumas situações que se calhar as agências de viagens não são tratadas como devem ser. Normalmente, com a TAP reunimos duas vezes por ano por causa da contratação. Temos os nossos interesses e a TAP os dela, chegámos a um acordo que tem sido benéfico para ambas as partes, logicamente que pretendíamos um acordo melhor e se calhar a TAP também. Tem havido algum equilíbrio. Com a nova reformulação da TAP, vamos reunir em Janeiro para negociar 2017 e vamos ver.se vai manter o clima de entendimento que tem havido ao longo dos anos.

APAVT
A nível do associativismo prevê-se uma maior intervenção da Go4Travel?
Prevê-se. Quando falo em Go4Travel, falo dos seus antecessores – Eloair e HCT – que sempre tiveram uma intervenção muito forte junto da APAVT. O que temos discutido neste momento, dentro do Go4Travel, é que consideramos que está na altura – até porque o negócio das agências de viagens não está nada fácil -, de haver uma união muito grande entre todos os principais players de forma a criar uma APAVT mais interventiva e com uma maior proximidade aos seus associados e também ter, cada vez mais, uma APAVT com mais associados. O Pedro Costa Ferreira termina no próximo ano o seu mandato… Tem havido conversas entre as pessoas para ver o que se vai fazer em termos da APAVT e o seu futuro, o que é que uma série de empresas pensa sobre qual o melhor caminho que a APAVT deve ter.

O Pedro Costa Ferreira termina no próximo ano o seu mandato… Tem havido conversas entre as pessoas para ver o que se vai fazer em termos da APAVT e o seu futuro, o que é que uma série de empresas pensa sobre qual o melhor caminho que a APAVT deve ter.

Actualmente, e poderei falar pela administração da Go4Travel, queremos uma APAVT mais forte e representativa. Não estou a criticar quem lá está, até porque considero que o Pedro Costa Ferreira tem feito um bom trabalho. Há muita coisa que não faria como ele fez, mas disse-lhe, agora o Pedro teve um trabalho enorme em recuperar a APAVT que foi deixada pelo anterior presidente numa situação complicada. Pretendemos que, em termos futuro, a própria direcção da APAVT e órgãos sociais sejam compostos por empresas que tenham um peso maior no sector. É a altura, de toda a gente se juntar e criar uma nova dinâmica e voltarmos a apresentar uma APAVT muito, muito forte, para as pessoas perceberem que os agentes de viagens têm importância. Quando falo de pessoas falo de clientes e fornecedores. O sub-sector dos agentes de viagens precisa de ter mais peso no sector do turismo.

O próprio actual presidente da Confederação de Turismo Português vem do sector das agências de viagens…
Se analisarmos isto, a CTP é o que é devido aos agentes de viagens. As pessoas não podem esquecer disto. Quem começou a CTP foram os agentes de viagens. Foi com a presidência de Atílio Forte que a CTP passou a ser uma organização reconhecida. Inclusivamente, quando entra para a concertação social, foi um trabalho feito na época. Logicamente, que não foram só as agências de viagens, mas foram as agências de viagens que lideraram. Depois da saída de Atílio Forte, pessoalmente, penso que houve uma quebra de importância da CTP. (…) Economicamente, os hoteleiros têm mais peso do que têm os agentes, mas se calhar os agentes são muito mais abrangentes. Nós conhecemos globalmente melhor o sector, trabalhamos com todos: rent-a-car, autocarristas, hotéis, companhias aéreas. Nós somos muito mais abrangentes, sinal disso é o trabalho que tem sido feito pelo Francisco Calheiros, que deu novamente uma dinâmica muito importante à CTP.
Em termos da APAVT, o objectivo principal da Go4Travel é que haja uma lista de consenso, entre os players do sector e que, logicamente, para a associação do sector ter peso especifico tem que ter os principais grupos e as principais agências representadas nos corpos sociais. Tudo numa única lista. Podem dizer que é bom que haja uma outra lista. Mas isto não são partidos políticos, mas eleições num sector que passa por alguns problemas e que precisa de estar cada vez mais unido para lutar pelo futuro para podermos realmente ter sucesso. Noto que tem havido algum afastamento, em termos de direcções e corpos sociais… as pessoas abandonaram um bocado o espírito da associação. Temos que criar uma APAVT muito forte para o próximo mandato.

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