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Reportagem: Croácia – Um livro (em) aberto

Por a 6 de Julho de 2016


É um dos países mais jovens da Europa e, no entanto, tem milénios de História. Ao longo dos tempos, o território que corresponde hoje à Croácia, foi cobiçado por muitos povos e ocupado por diversos impérios. Hoje goza a merecida liberdade, mostrando as suas belezas naturais e a sua cultura sem nunca esquecer o seu passado guerreiro a sua honrosa valentia.
author Velid Jakupovic
Tal como os grandes autores – que tanto escreveram obras de sucesso mundial, como outras menos conhecidas – também a Croácia guarda pequenos tesouros que o tempo revelou na altura certa. Opatija, Nin e Zadar partilham o mesmo cenário principal, o mar Adriático, mas cada cidade revela um enredo e uma história singular. Pistas para conhecer a costa da Croácia ou trilogia para ler de uma assentada.

Um conto sobre Opatija

Opatija (lê-se Opatia) ganhou o nome de uma abadia beneditina do século XII e a fama dos poderes curativos do ar que parecia fazer milagres a uma nobreza europeia de finais de Oitocentos, desejosa do alívio das suas maleitas respiratórias e ansiosa por alguma diversão.
A receita médica era simples e consistia em inspirar o ar rico em iodo e sal marinho combinado com o perfume do loureiro, das exóticas magnólias e de outras plantas locais dos numerosos parques desta cidade à beira da baía de Kvarner.
O primeiro notável a descobrir a magia de Opatija foi o comerciante da vizinha localidade de Rijeka, Iginio Scarpa, que aqui construiu, em 1844, uma casa de férias a pedido de sua mulher, Angiolina. Quis o destino, contudo, que ela não chegasse a ver concluída essa casa, que hoje alberga o Museu do Turismo e, que viria a ser naqueles tempos recuados, o refúgio de uma elite endinheirada.
Assim foram chegando os turistas a Opatija. O primeiro hotel foi inaugurado em 1884 e desde então muitos outros abriram portas. França tinha Nice, Cannes e Biarritz e a Croácia marcava pontos com Opatija.
Reis, imperadores, escritores, filósofos, poetas e compositores espalharam glamour pela cidade durante mais de 150 anos. Toda essa memória não está perdida. Um mural pintado com personalidades que visitaram Opatija evoca esses anos dourados.
Os irmãos Lumière costumavam filmar aqui, Isadora Duncan, a mãe da dança moderna, bailava inspirada no esvoaçar das folhas de palmeira de Opatija e o escritor James Joyce (que tinha um bom dia aqui sempre que conseguia escrever uma frase inteira, terá dito), foram alguns dos notáveis turistas. A cidade é ainda mencionada em inúmeras obras de escritores famosos como o conto de Chekhov Ariadne ou a Primavera em Fialta de Nabokov.
A atmosfera aristocrática ainda se nota hoje em dia nas vilas e nos hotéis instalados em edifícios ‘belle époque’ emoldurados por agradáveis jardins. De um Turismo de luxo vocacionado para um público mais sénior, Opatija começa a dar passos largos na procura de visitantes mais jovens e até já é conhecida na Croácia como a Cidade dos Festivais. Os filmes, a cultura e a gastronomia (chocolate, café, vinho) são apenas alguns dos ventos que sopram essa mudança.
Lungomare
Com ou sem eventos, o que não deve perder em Opatija é o passeio de 12 quilómetros junto ao Adriático, chamado de Franz Joseph I, mas mais conhecido por Lungomare. Se o fizer poderá, com um pouco de sorte, ver golfinhos passar. Certo é que se vai deparar com inúmeras estátuas que lhe vão aguçar a curiosidade.
Uma delas, que já se tornou ex-líbris de Opatija, é a da Donzela com a Gaivota, um símbolo da eterna juventude. Colocada num rochedo em frente ao mar, parece enfrentá-lo destemida, embora às vezes também seja devorada por ele. Se gosta de mar mas dispensa areia, esta é a sua praia. Caso contrário, guarde esse prazer para a próxima paragem.

Ensaio sobre Nin

A primeira capital da Croácia está para os croatas como Guimarães para os portugueses. Nin é habitada há três mil anos, foi sede do bispado e, ainda segundo a lenda, aqui foram coroados sete reis croatas.
9. City bridge of Nin,author Velid JakupovicA sua localização – numa pequena ilhota com apenas 500 metros de diâmetro – tornou-a muito apetecível ao longo dos séculos, primeiro pelos ilírios, depois pelos romanos que fizeram dela um importante porto e, em seguida, pelos gregos. Turcos e venezianos que também aqui estiveram “hospedados” não foram brandos com Nin e destruíram a povoação duas vezes, uma no século XVI e outra no seguinte.
Daí que a sua monumentalidade esteja resumida a poucos vestígios romanos do que seria o maior templo da região do Adriático, a dois exemplares da condura – embarcação local que pode ser vista no museu arqueológico (ainda sem legendas em inglês) – e à catedral mais pequena do mundo, a Igreja de Santa Cruz. Graças à posição das janelas e do ângulo por onde entram os raios de luz, o templo do século IX actua como uma espécie de relógio e calendário solar indicando a data dos equinócios e dos solstícios.
Actualmente, o acesso à ilha faz-se através de duas pontes de pedra do século XVI. Fora dela, já na parte continental, encontra as salinas, cuja tradição tem mil anos e sustentou a prosperidade da região.
História à parte, o melhor de Nin é mesmo a praia. Nin tem a maior área de praias de areia dourada de toda a Croácia, ilhas incluídas. Fantasia ou verdade, conta-se que quando o primeiro rei croata Tomislav (início século X) estava em Nin, a rainha adorava passar a maior parte do tempo junto à água, perto de um sítio conhecido pelas lamas medicinais. Um dia o rei fez-lhe companhia e ter-lhe-á dito: “Este local será somente teu, isto é o céu na terra e esta será a tua praia.”
Quer um conselho? Siga as preferências da soberana e desfrute de um areal com três quilómetros e de banhos nas águas cálidas, tranquilas e pouco profundas deste espaço lagunar. O nome não o vai esquecer: Praia da Rainha, o que mais poderia ser?

Romance em Zadar

Quando Alfred Hitchcock passou por Zadar, em 1964, considerou o seu pôr do Sol o mais belo do mundo. “Mais bonito do que aquele em Key West, na Flórida, aplaudido todas as noites.”
Quem sabe se inspirado pelo mestre do suspense, um arquitecto local de nome Nikola Basic concebeu em 2007, nesta cidade, uma instalação a que chamou Saudação ao Sol. Durante o dia, um círculo de 22 metros de diâmetro – composto por 300 painéis solares – absorve a energia do sol. À noite devolve à cidade um espectáculo de cor.
Se ouvir uma sinfonia desafinada que soa a melancolia, fique a saber que vem do vizinho Órgão do Mar (2005), outra obra de Nikola Basic, instalada aos pés do Adriático. No interior da escadaria perfurada que desce até ao mar funciona um “instrumento musical” activado pelo movimento das ondas, nem sempre ritmadas, que quando tocam nos tubos subterrâneos produzem som.
Sentados nestes degraus, habitantes e turistas deixam-se ficar a olhar para a procissão de barcos que atravessa estas águas. Com um porto para grandes cruzeiros, aos poucos Zadar vai entrando no mapa turístico da Croácia, mas sem sofrer, pelo menos para já, com a sobrelotação de turistas.
Depois de conhecido o moderno, o encontro com o histórico dá-se já no interior das muralhas. A cidade chegou a ter 18 palácios mas até nós chegaram apenas três. Um deles acolhe a universidade, a mais antiga da Croácia, estabelecida em 1396. Aqui se desenvolveu a literatura do país, aqui foi impresso o primeiro jornal em língua croata.
Opte por entrar pela porta a sul, no lado oposto ao Órgão do Mar, para poder passar pelo Portão da Cidade. Este acesso quinhentista é o mais imponente e tem como destaque o leão de São Marcos, símbolo veneziano do poder então dominante.
Zadar é protegida por quatro santos padroeiros: Anastácia, Grisogono, Simão e Zoilo. Contudo nem estes conseguiram impedir os duros bombardeamentos na Segunda Grande Guerra e na Guerra da Jugoslávia, esta última há cerca de duas décadas. As marcas ainda estão lá, no receio dos habitantes que um novo conflito aconteça, mas também no pavimento desgastado pelos estilhaços das bombas junto às ruínas do fórum romano.
Igreja de São DonatoA igreja de planta circular que ali se encontra é dedicada a São Donato. De local de culto na Idade Média passou a sala de espectáculos musicais, devido à excelente acústica. Num curto passeio nas imediações vai encontrar outros templos dignos de visita como a catedral, a maior da Região da Dalmácia, onde é possível subir à torre.
Em Zadar sente-se muito a influência italiana na gastronomia, desdobrada nas gelatarias em cada esquina e nos menus dos restaurantes. Instalado numa destas mesas poderá ainda ficar a saber o que é o Maraschino, um licor transparente feito à base de cereja marasca produzido em Zadar desde o século XVI. A fama deste néctar correu de tal forma o mundo que o francês Balzac lhe dedicou umas linhas no seu livro Um Começo de Vida, numa conversa entre Schinner e Georges sobre Zadar e a Dalmácia. “É nessa cidade que o Maraschino é produzido. Eu estive lá. É na costa.”

*A jornalista viajou a convite da Croatia Airlines, com o apoio do Turismo da Croácia.

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