Portugal e República Dominicana

Por a 11 de Dezembro de 2015 as 11:32

Jorge MangorrinhaO primeiro “turista” a visitar a República Dominicana foi Cristóvão Colombo. Mas mais de cinco séculos depois este país caribenho foi um território de descoberta para uma equipa de consultores portugueses que, a partir de 1995 e durante mais dois anos, planeou o futuro. Há vinte anos, portanto, esteve nas nossas mãos o primeiro plano de ordenamento turístico que uma equipa portuguesa realizou no estrangeiro. E em duas dezenas de anos a República Dominicana transformou-se turisticamente e tem sido um dos destinos preferenciais dos Portugueses. Será que evoluiu segundo as recomendações do Plano Nacional de Ordenamento do Território Turístico, designadamente respeitando valores de sustentabilidade, sobretudo num contexto de “turismo de massas”? Que doutrina ficou deste plano pioneiro, tanto para esse território, como para o universo do planeamento turístico à escala global? E o que é que Portugal beneficiou com isso?
Este plano foi possível através do financiamento do Governo português junto do Banco Interamericano de Desenvolvimento, seguido da revisão e actualização de documentos dispersos existentes, da formulação de estratégias e do desenho de novas zonas de atractivo ecoturístico que motivasse o interesse por parte do sector privado.
A equipa de consultores enfrentou este desafio com um pioneirismo sempre motivador. A elaboração do Plano induzia, para além do rigor técnico, uma necessária criatividade por parte dos futuros planificadores e investidores, em relação a assuntos importantes e transversais em todo o mundo, como a capacidade de carga das praias, a diversificação da oferta turística mediante a exploração do potencial do ecoturismo e a criação de rotas que permitissem aos visitantes conhecerem outros recursos, sem estarem condicionados ao distintivo principal do produto turístico “sol e praia”. A necessidade de dotar o país de melhores condições infra-estruturais e de segurança foi uma preocupação nossa, de forma a atingir níveis de sustentabilidade, no primeiro caso, e de estimular o turista a percorrê-lo, no segundo caso. Também se revelou importante sublinhar o território cultural e arquitectónico muito para além dos “resorts” turísticos, como novo interesse de busca e conhecimento de um pais muito mais surpreendente do que aquilo que é difundido nos meios convencionais de promoção turística.
As praias de areias brancas, as águas cristalinas e os hotéis populares com “tudo incluído”, para turistas de classe média, são marcas registadas da República Dominicana, mas essa oferta já se amplia com outro tipo de elementos para classes mais elevadas de turistas, designadamente o “turismo residencial”. A República Dominicana recebe, anualmente, mais de 4 milhões de visitantes, dos quais quase 20.000 são portugueses, e a capacidade hoteleira eleva-se a mais de 100.000 camas oficiais. O turismo representa 15% do PIB dominicano e cresce 10% ao ano.
Para tal, muito contribuiu a expansão dos investimentos em locais identificados como de grande potencial turístico, onde nasceram novos “resorts”, marinas, parques temáticos e campos de golfe. Os maiores investidores são espanhóis, norte-americanos, alemães, franceses, canadianos, chineses, israelitas e ingleses, ou mistos com financiadores locais, o que revela que o Estado português não acompanhou os resultados de um plano pioneiro feito por técnicos portugueses com o estímulo aos investidores nacionais, apenas potenciado pelo interesse dos portugueses por este país durante os períodos de férias. Mas também tem sido relevante o investimento nas infra-estruturas públicas e nos melhoramentos urbanos, tal como preconizámos como sendo tarefa do Estado dominicano.
O balanço que se faz revela uma realidade que se repete em muitos outros locais do mundo e no nosso país em particular: a politização das estratégias para o turismo e os interesses económicos prevalecentes impedem que o planeamento seja a matriz fundamental do ordenamento territorial, sendo desrespeitado ou uma bandeira política para justificar a adjudicação de outros planos que revêm os anteriores, ao mesmo tempo que os investimentos se sucedem a uma velocidade que o planeamento não consegue acompanhar.
Este país insular (divide a ilha com o Haiti) é rico em história e tornou-se num dos destinos turísticos mais excitantes do mundo, oferecendo uma mescla de sabores locais e europeus. A independência nacional foi conquistada em Fevereiro de 1844, mas entretanto, em 1861, a Espanha voltou a exercer domínio no país, que só obteve total autonomia em 1865. No século XX, foi marcado por diferentes regimes políticos, designadamente uma ditadura (1930-1961) e uma intervenção directa norte-americana (1961-1966). O alto nível de corrupção e as políticas ditatoriais enfraqueceram-no, socialmente. Mas há cerca de meio século que o turismo passou a ser visto como uma actividade económica de futuro, embora ainda com poucos aportes para as populações residentes. Punta Cana é o destino mais frequentado pelos turistas estrangeiros, seguido da capital Santo Domingo e de Puerto Plata, sendo que os produtos “sol e mar” e “golfe” são os mais procurados.
Se há vinte anos estávamos registados 20 portugueses residentes, hoje estes atingem quase duas centenas. A criação de uma Câmara de Comércio, Indústria e Turismo entre Portugal e a República Dominicana, recentemente apresentada, e a instalação, em Santo Domingo, da Casa de Portugal, para promover a cultura, os produtos lusos e a língua portuguesa, vêm ao encontro de uma das oportunidades propostas pelo Plano, ou seja, a criação de um pólo aglutinador dos dois povos, para dinamizar a troca de ideias e de projectos, sendo o turismo o sector-chave, mas alcançando um conjunto de negócios nas áreas das telecomunicações, energia, ensino, agricultura e comércio, numa visão estratégica global.

Artigo de opinião de Jorge Mangorrinha, professor universitário e coordenador técnico do Plano Nacional de Ordenamento do Território Turístico da República Dominicana

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