» Textos: Raquel Relvas Neto

» Fotos: DR

» Data: 14 de Novembro de 2015 as 21:14

 
Distribuição

“Não faz sentido escolher uma estratégia de opacidade para o viajante”

Miguel Ángel Puertas, director-geral da Amadeus Portugal, em entrevista, fala sobre a penalização que o viajante tem com a estratégia adoptada pelo Grupo Lufthansa nas reservas nos GDS. O responsável adianta ainda as especificidades da plataforma que vão lançar no mercado português: o Amadeus Sell Connect.

 

Como está a decorrer para já 2015 para a Amadeus Portugal?
2015 tem sido um ano muito difícil para o sector do Turismo em geral. Não só para Portugal e para a Amadeus, mas para todos os países e todas as empresas do sector. Houve uma pequena prova – que ainda não está concluída – em que vamos demonstrar aos outros sectores da economia que a indústria de viagens pode e deve continuar a ser o contributo mais importante para o crescimento da economia.
Para a Amadeus Portugal, 2015 está a ser um ano positivo e a nossa contribuição para o grupo está a ser a que esperávamos. Embora o contexto macro não tenha sido o melhor, não favorecendo o crescimento, mantivemos a nossa quota de mercado e tanto as nossas receitas, quanto o nosso EBITDA aumentaram. São, obviamente, dados positivos que devem ser colocados no contexto de uma empresa tão grande como a Amadeus. Falamos de uma empresa com uma quota de mercado de 42,2% do negócio de distribuição no mercado mundial, que processa mais de 500 milhões de reservas por ano e com muito bons dados económicos para o primeiro semestre do ano: lucro ajustado 419,6 milhões de euros (10,3% mais que no ano passado), receitas de 1.976,8 milhões de euros e EBITDA de 778,8 milhões de euros.

Que perspectivas têm para este final de 2015?

O nosso objectivo é sempre crescer num ambiente economicamente saudável. Prevemos aumentar a produção das reservas feitas através dos agentes de viagens e basear este crescimento no valor que as nossas soluções trazem para os nossos clientes. Segmentando, em relação à distribuição, provavelmente venhamos a diminuir ligeiramente no segmento de viagens de negócio, mas crescemos na área do lazer. Contudo, há que ter em mente que ainda estamos a definir a nossa estratégia especialmente no segmento corporativo, onde vemos um potencial de crescimento mais atraente para as empresas que nos permitam mostrar o nosso valor. Esta estratégia virá especialmente a partir de 2016 com outras medidas destinadas a atrair novos clientes, corporativos e de lazer.

Novidades
Que novos produtos lançaram este ano ao mercado e o que ainda está para vir?

Talvez o desenvolvimento mais importante seja a nova plataforma que vamos oferecer às agências de viagens: Amadeus Sell Connect, ou como chamamos internamente, SELCO. É mais um passo no valor que a Amadeus oferece aos clientes. Trata-se de um novo conceito de front office que irá incluir tudo o que é necessário para melhorar a produtividade e eficiência do agente de viagens. É um produto que nasce do feedback que recolhemos dos nossos clientes. Nesta plataforma podemos encontrar, além de todas as soluções de vendas que a Amadeus já oferece no seu portfólio, muitas outras para melhorar a eficiência do agente de viagens e permitir que o agente, em vez de se preocupar com a plataforma de onde trabalha, possa focar-se com a venda.
Também lançaremos a curto e médio prazo mais soluções para ajudar a agência online, tanto de viagens de negócio quanto de lazer, a desenvolver o seu negócio. Finalmente, vamos ainda investir nas soluções que a Amadeus oferece para hotéis, cruzeiros e carros e duas novas linhas de negócio: publicidade e business intelligence.

Quais as vantagens da Amadeus para o agente de viagens português?
Há muitas vantagens. Algumas são muito palpáveis e tangíveis, como por exemplo, a tecnologia e funcionalidade que tem o Amadeus e que o agente de viagens percepciona desde o minuto zero em que começa a trabalhar no nosso ambiente, que se traduz em ferramentas como o ATC – Amadeus Ticket Changer – que faz reemissões automáticas; ou o Amadeus Master Pricer, que oferece a melhor tarifa com disponibilidade garantida. Outras são menos tangíveis, porque estão orientadas para o negócio online, mas ajudam a posicionar a agência dentro das primeiras posições quando um viajante realiza pesquisas na Internet. Finalmente, existem as vantagens do conteúdo que disponibilizamos. Estas são talvez as menos visíveis e no entanto as mais importantes.
O conteúdo que a Amadeus oferece em Portugal é particularmente bom já que as três companhias aéreas mais vendidas no País são clientes da Amadeus. Isto quer dizer que as disponibilidades da TAP, SATA e Lufthansa estão “hospedadas” em Amadeus, o que significa que o seu ambiente de trabalho é Amadeus, o mesmo que o agente de viagens. É especialmente importante porque dá acesso aos últimos lugares disponíveis destas companhias aéreas e qualquer alteração de qualquer tipo é feita no mesmo arquivo de backup sem sincronização, ao contrário do que acontece em qualquer outro GDS.

Que novos clientes estão previstos dentro do portfólio da Amadeus?
Como de certo entenderá, não posso divulgar nomes específicos, mas estamos a trabalhar com muito dinamismo para atrair novos clientes e aumentar a produção das reservas nas agências que têm dois ou até mesmo três sistemas de GDS.

O nosso objectivo é sempre crescer num ambiente economicamente saudável. Prevemos aumentar a produção das reservas feitas através dos agentes de viagens e basear este crescimento no valor que as nossas soluções trazem (…)”

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Evoluções do mercado
Com a queda do BSP em Portugal nos últimos tempos, que soluções a Amadeus vai apresentar para colmatar esta situação?
Se se refere à queda do número de agências IATA no BSP português, seria a IATA que teria de propor uma solução e se a Amadeus puder trabalhar conjuntamente com a IATA nessa solução, seguramente que o faria.
Por outro lado, ainda que para a Amadeus o ideal é que a agência seja IATA e tenha a capacidade de emitir bilhetes para poder desfrutar plenamente de todas as nossas soluções, a verdade é que um agente não-IATA continua a ser um cliente da Amadeus e tem excelentes ferramentas para desenvolver o seu negócio. O que certamente terá sido afectado por esta mudança na IATA, é o modelo de negócio. O cenário na indústria mudou com o surgimento de agências especializadas na consolidação, caso em que os benefícios se repartem entre quem faz a reserva e aquele que emite o bilhete.

Que alterações ao mercado trará a nova ferramenta da IATA, o NDC? De que forma isto vos condiciona?
Houve muito ruído sobre o tema do NDC, mas trata-se de uma falha na interpretação do conceito. O NDC não deixa de ser um standard para que o conteúdo das companhias aéreas seja gerido com um formato homogéneo e permita-lhes um merchandising mais ajustado, aumentando a possibilidade de fazer crescer o negócio, tanto através do canal agências de viagens, como passageiro final. A Amadeus sempre apoiou a homogeneização de sistemas e plataformas na medida em que favorece o crescimento da indústria.

Considera que este pode, de certa forma, absorver o BSP?
São duas coisas diferentes. BSP é a entidade que gere todos os agentes com a capacidade de emitir bilhetes, sejam estes companhias aéreas ou agências de viagens, e garante a redistribuição dos valores dos bilhetes vendidos independentemente do canal. O NDC algum dia irá ser o standard na indústria para promover a homogeneização do conteúdo aéreo. Penso que não irá suceder uma absorção sob um conceito tradicional, embora seja a IATA que tem a última palavra sobre a direção a ser tomada por ambos BSP e NDC.

Lufthansa
Desde a implementação da taxa de 16 euros para reservas via GDS nas companhias do Grupo Lufthansa, sentiram alguma diminuição das vendas de bilhetes aéreos para estas companhias?
A Amadeus acredita que o viajante está no coração da Indústria de Viagens.
O Grupo Lufthansa (LHG) optou por uma direcção diferente através da introdução de encargos que irão penalizar os viajantes com base no canal de compras que estes utilizam. Os viajantes irão ter que pagar mais para o mesmo serviço ou, caso as agências de viagens sejam obrigadas a aceitar esta nova estratégia comercial, modificando a forma como acedem ao conteúdo apenas para o LHG, haverá lugar a custos adicionais de TI que podem vir a ser repassados ao viajante, colocando o agente de viagens, e / ou o consumidor final, em desvantagem. Claro que vai ter consequências no canal GDS.

Temem que possa ser repercutido por outras companhias?
É difícil saber a estratégia de outras companhias aéreas, mas na minha opinião, não faz muito sentido escolher uma estratégia de opacidade para o viajante. O viajante de hoje tem no seu ADN pesquisar, comparar e analisar a oferta antes de comprar. Acho que uma empresa deve jogar com outras armas para manter-se competitiva e não apostar em deixar de ser visível ou ser relegada para a última posição em qualquer um dos canais que um viajante usa todos os dias para comprar bilhetes.

Qual será assim a evolução natural do GDS no mercado?
O conceito tradicional de GDS mudou há já muitos anos. Nenhum dos grandes players é um GDS como concebíamos na década de 90. Tornámo-nos um parceiro tecnológico do sector que oferece uma ampla gama de soluções para muitos agentes da indústria do Turismo.
No nosso caso, os clientes Amadeus são as agências de viagens, companhias aéreas, centrais hoteleiras, aeroportos, instituições turísticas, universidades, empresas, etc… Assim sendo, este negócio não era mais apenas um GDS há anos. A nossa estratégia é ser o agente que molda o futuro da viagem junto com os nossos clientes e os nossos fornecedores e com um foco comum: o viajante.

Quais são os desafios dos agentes de viagens portugueses?
Um agente de viagens é o perfil profissional mais complexo pode ser encontrado em muitos sectores. Falamos de uma pessoa altamente educada.
Com uma forte componente técnica, com uma cultura de viagens muito sólida, conhecimentos de contabilidade, e também com habilidades de negociação e vendas altamente desenvolvidas. Um profissional completo deve instruir, treinar e especializar-se para ter unicamente dois focos: vender e fornecer os melhores serviços aos viajantes. Para mim, o maior desafio é a formação profissional constante que deve ter um agente de viagens para se tornar um profissional completo.

“Os viajantes dos tempos modernos estão à procura de consistência, transparência e escolha em todos os canais e nós, como indústria, podemos providenciar-lho melhor ao conectar e integrar todos os intervenientes.”

 

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