» Textos: Raquel Relvas Neto

» Fotos: DR

» Data: 13 de Novembro de 2015 as 22:06

 
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Estabilização do Real, precisa-se!

A desvalorização do Real ou a valorização acentuada do Euro e do Dólar tem causado instabilidade no mercado brasileiro, que tem agora mais dificuldade em comprar viagens para destinos internacionais. Se a flutuação cambial estabilizar, há quem diga que os brasileiros vão continua a viajar e, Portugal, continua a ser um destino apetecível.

 

Nas últimas semanas, a moeda brasileira, o Real, tem desvalorizado face ao Euro e ao Dólar, com oscilações cambiais constantes. Este factor tem provocado alterações no comportamento do mercado de turistas brasileiros, seja pela retracção em viajar, seja pela escolha por destinos brasileiros em detrimento dos internacionais.

Enquanto a moeda não estabilizar, parte do mercado turístico começa a recear mais uma crise no Brasil, no entanto, há quem encare esta conjuntura económica do Brasil como uma oportunidade para continuar a investir.

Luís Matoso, administrador do Turismo de Portugal, à margem da 43ª ABAV – Expo Internacional, que aconteceu no de 24 a 26 de Setembro, em São Paulo, no Brasil, realçou que os efeitos da desvalorização do Real ainda não se fizeram sentir na procura de turistas brasileiros por Portugal: “Os dados que temos de Janeiro a Julho indicam um crescimento praticamente idêntico, verdadeiramente, não sentimos, mas é natural que no final do ano possa haver alguma coisa, mas o que estamos aqui [ABAV] a fazer é contrariar essa eventual expectativa”. É neste sentido, que o instituto público, que está a despender um milhão de euros em promoção neste mercado, pretende reforçar essa presença. “Não vamos abrandar o ritmo de investimento, porque achamos que a situação particular que o Brasil vai viver deve justificar mais atenção, pelo menos para ver se não diminuímos ou se houver alguma descida que não seja tão abrupta”.

Apesar da companhia aérea portuguesa ter registado um decréscimo de cerca de 3% em número de passageiros brasileiros e 10% em receitas nas ligações aéreas neste mercado, Mário Carvalho, director da TAP no Brasil, considera que “o grande problema é a desvalorização do Real. Como os preços das viagens são em Dólares, contrai muito a procura.” O responsável revela que se tem notado um grande desvio para o mercado doméstico. “É mais uma crise que esperamos que seja passageira o mais rápido possível e temos que inventar coisas novas”, refere, realçando que Portugal pode ter a ganhar com esta desvalorização por “continuar a percepção de um destino mais barato que outros países da Europa ou até que os EUA”.

Contracção do mercado
“O Brasil está a entrar numa recessão muito forte, a economia teve um abrandamento enorme, uma grande desvalorização do Real e uma dificuldade nas pessoas comprarem férias para destinos internacionais”, começa por dizer Luís Tonicha, director da Abreu online ao Publituris. Esta situação tem-se reflectido na plataforma de reservas hoteleiras B2B, onde se verifica um aumento da procura por destinos brasileiros, em detrimento da procura por destinos internacionais.“Já nos vínhamos a preparar para isto há alguns anos, começámos uma contratação por destinos brasileiros, que muitos dos portugueses nem conhecem. Vamos compensar a queda das vendas do mercado internacional com uma subida no mercado brasileiro”, refere. No entanto, o responsável considera que pode existir agora um retorno da procura dos portugueses pelo Brasil, porque agora, com a valorização do Euro, “fica muito barato para os portugueses virem passar férias ao Brasil”.Para Daniel Marchante, director da Lusanova, é urgente que o Real estabilize. “Quando estabiliza, as pessoas num mês habituam-se e funciona, porque quem tem dinheiro, vai na mesma, o problema é a oscilação, porque se traduz em medo e não traz estabilidade”, indica.Segundo o responsável, “estamos a pensar passar os nossos preços para Real, publicando em Real semanalmente, de forma que as pessoas não tenham a fobia da questão cambial”. Contudo, o responsável da Lusanova entende que como o Dólar também está alto como o Euro, os brasileiros vão optar por viajar para a Europa em detrimento dos EUA.

“Não vamos abrandar o ritmo de investimento porque achamos que a situação particular que o Brasil vai viver deve justificar mais atenção”, Luís Matoso (TdP)”

1302_pg24_2Questionado sobre se com esta situação instável do mercado brasileiro ainda vale a pena investir neste, Daniel Marchante é peremptório em afirmar que “num país como este, uma potência económica, agora é que vale a pena investir. Para nós, convertendo os Euros em Reais, é benefício. Vale a pena investir, porque as grandes vantagens das crises no Brasil é que duram meses ou um ano, não duram mais do que isso. Ao fim de um tempo, a própria economia reage e reverte facilmente para voltar aos índices que tinha há um ano.”

Em Portugal, os Hotéis Dom Pedro sentiram um ligeiro decréscimo de 4% no mercado brasileiro, o que faz Pedro Ribeiro, director de marketing e vendas da cadeia hoteleira portuguesa, realçar que ainda não houve um reflexo substancial desta flutuação cambial. Contudo, “esta crise cambial e este aumento exponencial do Euro perante o Real fazem com que as pessoas se retraiam e não possam viajar”, mas sendo o Dom Pedro Palace um hotel cinco estrelas, que trabalha para uma classe mais alta, “não irá notar tanto, mas acho que o grande volume do mercado brasileiro, que era a classe média, vai deixar de viajar, claramente. Enquanto não estabilizar. Acaba por ser muito psicológico, porque as pessoas não vão arriscar ir numa viagem para não saber depois quanto é que vão gastar”.

A Nortravel leva já um crescimento de 30% de facturação no mercado brasileiro este ano face a 2014. Isto porque, segundo Nuno Aleixo, director-geral do operador turístico português, “as vendas para 2015 já estavam todas efectuadas, como o mercado compra com mais antecedência”. O responsável realça que nesta altura, “esta crise cambial que está a acontecer aqui no Brasil, não terá reflexo imediato” para este ano. Mas, no que refere ao primeiro semestre de 2016, cujas vendas se realizariam agora nos próximos meses de Outubro, Novembro, a perspectiva da Nortravel é que “2016 não poderá ter um crescimento como tivemos em 2014 para 2015, mas sim pelo menos, manter os números de 2015 que já seria muito bom, dada a conjuntura económica e cambial do Brasil”.

Mas existem situações de empresas portuguesas que têm sido beneficiadas por esta alteração do mercado, como é o caso do Grupo Vila Galé, com sete unidades no país. Contrariamente ao que seria expectável, o grupo Vila Galé registou um crescimento das suas unidades no Brasil face a 2014, com particular destaque para os resorts, como explica Gonçalo Rebelo de Almeida, administrador da cadeia portuguesa: “Os resorts estão melhores em ocupação e em receitas. (…) Não tínhamos previsto um grande crescimento este ano, estamos a apontar para crescer 10 a 12%, em receitas face ao ano anterior”. “Acho que o nosso produto de resorts tem sido do agrado do público brasileiro. Temos agora aqui duas oportunidades: uma é de crescimento do mercado da Europa, com a desvalorização do real nunca se sabe bem o que acontece, pode potenciar o crescimento do turismo internacional outra vez no Brasil. O Brasil volta a estar acessível com preços acessíveis, pois estava muito caro, e a Europa também melhorou um bocado as condições, então acredito que possa voltar a crescer o turismo internacional. E há uma parte do público brasileiro que estava a viajar para fora, nomeadamente para os EUA e Caraíbas, que vai optar por fazer férias cá dentro”, explica o responsável. ¶

*A jornalista viajou para São Paulo a convite da ABAV com o apoio da TAP.

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A presença de Portugal da 43ª ABAV foi mais forte nesta edição, revelando a importância do mercado brasileiro no destino.

“Com a desvalorização do real nunca se sabe bem o que acontece, pode potenciar o crescimento do turismo internacional outra vez no Brasil”, Gonçalo Rebelo de Almeida (Vila Galé)

 

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