Turismo em Portugal: Uma agenda para a competitividade dos destinos e das empresas (PARTE II)

Por a 5 de Junho de 2015 as 11:55

luís correia da silvaNem tudo vai bem no “reino das viagens e turismo”. É necessário deixar claro que existem alguns problemas por resolver e situações que podem condicionar ou limitar o pleno aproveitamento das actuais condições conjunturais para um crescimento sustentado do sector e da indústria.

Em primeiro lugar, uma boa parte das empresas de viagens e turismo (agências de viagens, hotelaria, restauração, resorts, campos de golfe,), que no passado recente recorreram a instituições financeiras para financiamento dos investimentos realizados e apoio à tesouraria e enfrentaram um ciclo terrível de diminuição da procura e redução de preços, continuam em grandes dificuldades, estão em geral descapitalizadas e enfrentam um risco sério de falência. E o mais dramático é que muitas delas detém no seu portfolio de “activos”, alguns exemplos da mais moderna, ajustada, inovadora e competitiva oferta de hotelaria, alojamento e entretenimento a nível nacional.

Reconhecendo que não é ao Estado ou às instituições públicas que cabe a resolução dos problemas das empresas, não será de excluir a possibilidade de, em articulação com as instituições financeiras credoras, ser concebido e concretizado um “programa de apoio à reestruturação económica e financeira das empresas de hotelaria, viagens e turismo em dificuldades”.

Em segundo lugar, o destino Portugal, os destinos regionais, a oferta de produtos e serviços de alojamento classificado, de restauração e, em alguns casos, de entretenimento e animação, enfrentam um crónico problema de “preço”. Além da redução generalizada de preços registada a partir de 2008 e aparentemente só agora em vias de ser ultrapassada, a realidade é que o destino Portugal e as prestações da oferta nacional, obviamente com algumas excepções, são percepcionadas como muito competitivas ao nível da relação qualidade/preço, essencialmente porque os preços praticados são comparativamente muito baixos. Aliás, uma visita rápida aos websites de reservas e avaliação de viagens, hotéis, destinos, permite perceber que as expectativas dos turistas são em geral largamente excedidas.

Não temos dúvidas que a grande maioria dos stakeholders do turismo português, nomeadamente a indústria de viagens e turismo e os portugueses em geral, não desejam que o país e as suas regiões passem a ser percebidos no estrangeiro como destinos de massas e de low cost. Neste campo, sugiro que as entidades públicas nacionais e regionais e os principais grupos empresariais e empresas “façam de forma articulada a sua parte”, no sentido de uma aposta decisiva na valorização do destino Portugal e da sua oferta turística, nos principais mercados estratégicos. É urgente e importante um upgrade da imagem e um “reposicionamento competitivo” do destino, que permita um crescimento sustentado do preço das prestações e uma consequente melhoria nas margens de exploração e na rentabilidade das operações das empresas, facilitando um mais adequado “retorno dos investimentos realizados”.

Em terceiro lugar, é indesmentível que o sector e a indústria de viagens e turismo sofrem hoje de um enorme deficit de informação de carácter estratégico, fundamental, entre outros aspectos, para a quantificação e avaliação da sua dimensão, importância e impacto directo, indirecto e induzido na economia nacional. Tal informação é também essencial para o bom exercício da actividade e performance da indústria, para a análise das condições e perspectivas de negócio por potenciais investidores nacionais e estrangeiros e para a credibilidade do “país turístico” junto dos organismos internacionais.

É imperioso proceder a uma avaliação crítica da informação estatística actualmente disponibilizada e à consequente reflexão sobre a necessidade urgente de uma efectiva “reinvenção e readequação” do “sistema estatístico e de informação do turismo”, envolvendo não apenas as entidades responsáveis pela recolha e tratamento da mesma (INE, Banco de Portugal, Turismo de Portugal, CCDR´s, ERT´s, etc), mas também os “utilizadores finais”, nomeadamente as entidades representativas dos interesses da indústria turística (ex. CTP, AHP, APAVT, AHRESP, etc.) e a academia, que há muito denunciam a insuficiência, as lacunas e a incoerência da informação estatística.

Tão ou mais importante, as empresas não dispõem de informação estratégica sobre a evolução do comportamento das procuras nos mercados e sobre a evolução da performance e dos preços nos principais destinos concorrentes – a chamada business intelligence. Obviamente, interrogamo-nos se esta não deveria ser uma das preocupações prioritárias e mais relevantes das Delegações da AICEP/Turismo de Portugal nos mercados.

Incompreensível é também o adiamento sistemático na “reconstrução” e reutilização da TSA – Tourism Satellite Account/Conta Satélite do Turismo, que torna impossível a efectiva quantificação do impacto directo, indirecto e induzido da “economia do turismo” na economia nacional. Países como Portugal, em que a actividade do turismo assume real relevância, devem manter uma TSA operacional e actualizada.

Em quarto lugar, a constatação de que se nada for feito para prevenir e alterar, é previsível que, a médio prazo, a qualidade dos serviços prestados no sector das viagens e do turismo em Portugal se degrade para níveis que ponham em causa a percepção, imagem e atractividade dos destinos e a própria competitividade da indústria. Trata-se de um problema complexo, cuja responsabilidade deve ser em parte imputada ao actual “sistema de ensino e formação” público e privado, que não parece ter a capacidade de perceber as rápidas alterações e tendências dos mercados, dos destinos e da indústria. Mas, uma grande parte da responsabilidade deve ser assacada aos empresários e gestores turísticos, que não se interessam suficientemente pela gestão dos seus recursos humanos e não apostam em atrair e valorizar os jovens profissionais formados, incentivando-os a uma carreira e remunerando-os de acordo com os seus skills.

Tanto as entidades públicas como as principais empresas devem reconhecer a urgente necessidade de inverter tal situação, trabalhando, se possível de forma articulada, para avaliar as necessidades (ex. de gestores das actividades e empresas turísticas, especialistas nas áreas do marketing e das vendas a nível digital, quadros responsáveis em revenue and yield management, em CRM, etc.), definir novos perfis curriculares, envolver quadros experimentados das empresas no ensino e formação e criar as condições para o desenvolvimento de programas escolares integrados, que incluam estágios nas empresas.

Finalmente, seria desejável que Governo, entidades públicas, a CTP – Confederação do Turismo Português e outras associações representativas da indústria turística nacional tivessem a capacidade de criar uma “matriz de identificação e referenciação dos custos de contexto” que impactam e contribuem para condicionar e/ou limitar o crescimento sustentado da competitividade da indústria das viagens e turismo em geral e das empresas da hotelaria e do alojamento classificado em particular.

Estou certo que muitos outros problemas ou questões poderiam ser também incluídos, tais como a estratégia nacional e regional de marketing e promoção turística, a questão da política de acessibilidades e de transporte aéreo, a revisão da fiscalidade aplicável à actividade turística (IRC das empresas, IVA da restauração e do golfe), o incentivo ao envolvimento do sector e das empresas no Programa Portugal 2020, a questão da proliferação do alojamento turístico irregular e da “regulação” do alojamento local, etc.

Estamos em óptimas condições para aproveitar uma conjuntura favorável e  resolver definitivamente alguns problemas e questões que podem condicionar a continuação do sucesso do turismo português, impedindo que o país se projecte  para patamares ainda mais elevados no turismo europeu e mundial. Se fosse possível definir uma agenda e um calendário de abordagem, discussão e resolução das questões acima referenciadas, julgo que o sector, a indústria e as empresas agradeciam, investindo e criando mais riqueza e emprego.

Portugal e os portugueses também agradeceriam, pois, a breve prazo, o país seria um destino turístico mais valorizado, mais competitivo, mais sustentado e mais sustentável.

Já agora e os turistas que nos visitam…., não se importando de pagar mais, regressariam decerto ainda mais satisfeitos.

Nota do editor: Segunda parte do artigo “Turismo em Portugal”, da autoria de Luís Correia da Silva. Na edição passada, o autor escreveu sobre a recuperação da crise e as oportunidades que lhe seguem. Neste artigo expõe uma agenda para a competitividade dos destinos e das empresas.

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