Turismo em Portugal: Da recuperação da crise ao optimismo no futuro – Uma agenda para a competitividade (PARTE I)

Por a 5 de Junho de 2015 as 11:38

luís correia da silvaOs recentes indicadores e todos os sinais confirmam que a actividade e os negócios no sector das viagens e turismo em Portugal estão em acelerada recuperação. Em 2014 recebemos mais turistas, as dormidas no alojamento aumentaram e as receitas turísticas cresceram significativamente em relação ao ano anterior. Todos os destinos regionais parecem ter registado uma progressão interessante após a inversão de tendência verificada em 2013, embora no Algarve a mesma tenha sido mais débil e sentida apenas em algumas áreas da região. Nos primeiros meses de 2015 a tendência parece manter-se e as previsões para o verão são bastante optimistas.

Após anos de grandes dificuldades, a indústria de viagens e turismo respira de alívio e manifesta mesmo algum optimismo, pois verifica-se uma conjugação de factores excepcionalmente positiva em relação ao destino Portugal, que permite admitir que os resultados conseguidos no já longínquo ano de 2007 sejam finalmente ultrapassados.

Mas nem tudo foi negativo neste ciclo de dificuldades.

A recuperação da crise – lições para o futuro

No contexto de uma crise sem precedentes que se abateu sobre os países da Europa, o principal mercado para Portugal, conjugada com o impacto de novas tendências, modificações no comportamento das procuras e alterações dos modelos de negócio no transporte aéreo, na distribuição e comercialização, na hotelaria e alojamento e na restauração, empresários e empresas repensaram as suas estratégias, reajustaram as suas operações, esforçaram-se por reinventar, inovar e conferir mais valor nos produtos e serviços turísticos oferecidos e reforçaram o investimento na atracção e conquista de novos segmentos de procura de mercado no país e no estrangeiro.  Estas empresas saíram deste ciclo mais fortes, estruturadas e preparadas e são já hoje decerto as principais protagonistas da recente melhoria de performance do turismo em Portugal.

Alguns empresários, à época iludidos pelo acesso fácil ao financiamento bancário e aos incentivos obtidos ao abrigo dos programas comunitários, adquiriram, construíram e/ou lançaram empreendimentos turísticos com base em projectos desajustados e planos de negócio irreais e insustentáveis, perceberam à sua custa os erros que cometeram e viram-se forçados a abandonar a actividade ou obrigados a drásticos planos de reestruturação financeira e operacional, para que as respectivas empresas e os próprios empreendimentos pudessem sobreviver.

Outros foram incapazes de identificar e reconhecer para onde “sopravam os ventos da mudança” e a ultrapassagem dos tempos difíceis foi feita essencialmente através da mera redução dos preços que, inevitavelmente, conduziu ao abaixamento da qualidade das prestações e à consequente contribuição para a desvalorização da imagem e da percepção de valor do destino. Para estes, “o caminho das pedras” será porventura mais longo e difícil de percorrer, mas, se a conjuntura de mercado se mantiver positiva, dentro de algum tempo estarão em condições de recuperar e voltar a prosperar. Esperemos que aproveitem as “lições da crise” para não repetir os erros no futuro.

Um novo ciclo de crescimento sustentado para o turismo português

Mais do que expectativa, tenho hoje a convicção que a realidade actualmente vivida no sector das viagens e turismo em Portugal constitui a fase inicial de mais um ciclo de expansão prolongada e crescimento sustentado, que se explica pela conjugação no tempo e no espaço de factores e situações benéficas, tanto do lado do comportamento das procuras de mercado na Europa e noutros destinos potencialmente estratégicos, como da evolução recente da atractividade e capacidade competitiva dos destinos regionais e da oferta das empresas.

De facto, os estudos e análises parecem apontar para um crescimento continuado da procura global de viagens e turismo (2015-2020), embora continuem a existir interrogações sobre a evolução da mesma em relação a alguns destinos (África Sub Saariana, Norte de África, Médio Oriente, Pacífico etc.).

Portugal está a beneficiar das dificuldades conjunturais de destinos concorrentes na Bacia do Mediterrâneo e da tendência de desvio de fluxos para países/destinos tidos como seguros. Tem aproveitado bem as alterações entretanto confirmadas no comportamento das procuras de mercado (aumento das viagens em família ou multigeracionais, das viagens do segmento jovem, dos city breaks, das viagens motivadas pelo usufruto da natureza, dos cruzeiros, das viagens por motivação religiosa, da expansão mundial da prática dos desportos náuticos e em particular do surf, das viagens motivadas pelo enoturismo e pela gastronomia, etc), todas elas “em linha” com o que de melhor estamos em condições de oferecer.

Mas é extremamente injusto imputar os resultados positivos recentemente conseguidos pelo turismo português apenas à “insegurança e aos conflitos que grassam em alguns destinos próximos e concorrentes” ou aos “novos comportamentos das procuras de mercado”. Mesmo que muitos não o queiram reconhecer e que se aceite existir ainda muito por fazer, a verdade é que Portugal e as regiões enquanto destinos, melhoraram muito nos últimos 10 – 15 anos. Foi notável o esforço e o investimento feitos no aproveitamento dos recursos naturais, históricos e arquitectónicos, na reabilitação de infraestruturas e equipamentos, na requalificação dos centros urbanos, na criação de novos pólos turísticos e desenvolvimento de zonas de potencial interesse turístico, na limpeza e no paisagismo, na informação e sinalização, na segurança de áreas frequentadas pelos turistas, no esforço de evidência dos elementos e factores diferenciadores e qualificadores dos destinos e, obviamente, no marketing e promoção, através dos meios online e das redes sociais. Tal esforço e investimento feito pelos sucessivos governos, pelas autarquias, entidades públicas nacionais regionais e locais, com a participação e envolvimento de parceiros privados, apenas teve comparação com o concretizado no ensino e na saúde

E não foram apenas as regiões e os pólos turísticos tradicionais que beneficiaram desse investimento. Muitas autarquias despertaram para os benefícios do turismo, organizaram-se, criaram núcleos de gestão dos destinos, incentivaram os empresários locais a responder aos novos desafios. A expansão do turismo no Vale do Douro e Norte de Portugal, em algumas áreas da região Centro, no Alentejo, em particular na Costa Vicentina, ou mesmo nos Açores, são desse fenómeno o melhor exemplo.

Em paralelo, é assinalável o investimento realizado ao longo dos últimos anos pelos principais grupos nacionais e pelas empresas na construção de raiz ou na reabilitação e modernização de estruturas e equipamentos de hotelaria e alojamento, entretenimento e animação turística por todo o país, embora com destaque nas áreas da Grande Lisboa, Grande Porto, no Douro, no Alentejo, no Algarve e na Madeira. Tal investimento, aparentemente concretizado em contra ciclo, está agora a permitir que Portugal e as suas regiões se apresentem nos mercados com uma oferta mais organizada, moderna, inovadora, diferenciada, mais competitiva e mais capaz de dar resposta às tendências de mercado e a conquistar novos segmentos e nichos de procura.

Nota do editor: O Publituris publica em duas edições (15 e 29 de Maio) o artigo “Turismo em Portugal”, da autoria de Luís Correia da Silva. Nesta primeira parte, o autor escreve sobre a recuperação da crise e as oportunidades que lhe seguem. Na próxima edição, o artigo analisa uma agenda para a competitividade dos destinos e das empresas.

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