E a selva aqui tão perto…

Por a 30 de Dezembro de 2014 as 12:47

Por Joana Barros

A cidade de Manaus é uma entrada privilegiada para o universo das piranhas, dos botos, dos igarapés e um sem fim de nomes que até agora faziam parte apenas do imaginário. Com cerca de dois milhões de habitantes, a sétima cidade do Brasil fica nas margens do Rio Negro. É, actualmente, um importante pólo industrial (é aliás uma zona franca), com cerca de 720 empresas, em especial do sector automóvel, informática e televisão.

Mas nem só de indústrias se faz Manaus. A cidade teve o seu momento áureo no fim do século XIX, com o negócio da borracha a aumentar e a trazer avultadas quantias de dinheiro para a região. Daí que muitos fundos tenham sido canalizados para a construção de edifícios art nouveau, sendo o Teatro Amazónia o expoente máximo deste estilo arquitectónico. Inaugurada em 1896, esta sala de espectáculos é uma demonstração de luxo e ostentação. Prova disso é a forma como foi construída com quase todos os materiais a virem da Europa (excepção para algumas madeiras locais e instalação eléctrica). Cristais de Paris, ferro de Glasgow… a lista de cidades é interminável.

Na altura do aparecimento do Teatro Amazónia, este era uma oportunidade para empresários e suas esposas exibirem as roupas e as jóias enquanto ouviam ópera. Hoje, os espectáculos são tão ecléticos que vão desde concertos de rock, passando por peças de teatro, até à tradicional ópera. E está acessível a todos, com os bilhetes por vezes a serem mais baratos do que uma viagem de autocarro.

Outro exemplo do estilo art nouveau é o Mercado Adolpho Lisboa, também ele datado do final do século XIX. Um bom ponto de partida para começar a conhecer aquela que provavelmente será a sua gastronomia dos próximos dias: pirarucu, tambaqui, tucunaré… Atenção, estamos a falar de alguns dos peixes do Rio Negro que nos vão parar ao prato.

Do Peru até ao Atlântico

Manaus é, também, o porto de partida para uma das principais atracções da região: o Encontro das Águas. Trata-se do ponto em que dois rios se juntam sem se misturarem, numa extensão de seis quilómetros: Rio Negro e Rio Solimões.

O fenómeno dá-se devido às diferentes temperaturas dos dois rios, e diferentes densidades e velocidades a que circulam as águas. O Negro corre a cerca de 2km/h e o termómetro sobe até aos 28ºC, enquanto o Solimões atinge os 7km/h mas desce para os 22ºC. O pH das águas também tem influência, com o Rio Solimões a apresentar-se mais neutro e da cor do barro. Já o Rio Negro possui um pH mais elevado e uma cor a fazer lembrar o chá preto.

E para quem não conhece o Solimões, ele é, na verdade, o Rio Amazonas. Nascido nos Andes peruanos, o curso de água entra em território brasileiro com aquele nome (proveniente de tribos que habitavam as suas margens) e já em Manaus, após a junção com o Rio Negro, é-lhe finalmente dado o nome de Amazonas. Daí, segue até ao Atlântico totalizando quase sete mil quilómetros.

Amigos da onça

A Amazónia acolhe também vários animais endémicos. E muitos deles temidos, com a onça pintada e a anaconda a liderarem a lista. Mas enquanto a probabilidade de encontrar esta cobra durante o passeio é muito reduzida, já a de ver uma onça é quase garantida. Como? Basta visitar o mini-jardim zoológico do Hotel Tropical. O espaço surgiu há 36 anos e tem a mesma idade da unidade hoteleira. Aqui, pode encontrar 22 das espécies que habitam a Floresta Amazónia. E, claro, a estrela é a onça pintada.

Além do felino, há várias espécies de macacos, roedores, aves e jacarés, com nomes tão originais como capivara, paca, guariba, aracuã, caititu ou quati. Destaque para quatro das 1025 espécies brasileiras ameaçadas que habitam o zoo: a onça, o macaco aranha, o mutum cavalo (ave) e a jaguatirica (felino).

Paredes meias com este espaço está o já referido Hotel Tropical. Situado a 16 quilómetros do centro da cidade, este foi, durante muitos anos, quase um hotel de selva, uma vez que estava afastado do resto da civilização. Com o desenvolvimento de Manaus, a cidade acabou por “engolir” o hotel.

Actualmente, oferece 611 quartos, muitos deles a manterem a tradicional decoração colonial. A unidade hoteleira abarca as duas vertentes, quer seja turismo, quer seja negócios. Daí que tenha divisões que variam entre o espaço infantil (tropikids) até ao centro de convenções (com salas de reuniões que acomodam até 1200 pessoas). Na lista encontra-se ainda uma suite presidencial com 313 metros quadrados, que já albergou nomes como Bill Gates, Dilma Rousseff, Lula da Silva, Arnold Schwarzenegger ou Julio Iglesias.

E é do porto em frente a este hotel de personalidades que partimos para a selva.

No coração da Amazónia

Uma viagem de hora e meia pelo Rio Negro leva-nos até ao mítico Ariaú Amazon Towers. Trata-se de um hotel construído em palafitas de madeira. Mas quem é que se lembra de erguer tal construção no meio da selva? A história remonta a 1982, quando o oceanógrafo francês, Jacques Cousteau, passou quatro meses a estudar espécies na Amazónia. Na altura, estava hospedado no Hotel Mónaco. À conversa com o dono, Francisco Rita Bernardino, sugeriu que fosse construída uma base para as pessoas conhecerem a Amazónia e investigadores a explorarem. Quatro anos depois nasceu o Ariaú.

Esta unidade é composta por oito torres ligadas por passadeiras, também elas em palafita. Dispõe de área de eventos e festas, bem como de um anfiteatro junto à beira do rio e três heliportos. Tem ainda um museu e um aquário com peixes locais, que são resgatados das poças criadas pelo fim da época das chuvas e que quando o nível do rio volta a aumentar, são devolvidas à natureza. Existem três tipos de quartos e um deles é a casa tarzan, construída na copa das árvores.

Mas por motivos de manutenção, por agora, e até Abril, só estão a funcionar quatro torres. Assim, dos actuais 160 quartos, o hotel vai passar para os 260.

­­Aqui, temos a perfeita noção que estamos bem no coração da Amazónia, não só pelo verde que nos rodeia, mas também pela interação dos animais. Basta chegar à recepção para ver araras e macacos que não se coíbem de vir ter connosco.

Este é, também, um dos pontos de partida para as actividades na selva. A começar: nadar com o boto (golfinho) cor-de-rosa. Normalmente os golfinhos atraem sempre a simpatia dos humanos, mas aqui o boto tem fama de safado. É que quando os colonos portugueses começaram a entrar nesta região, algumas indígenas apareceram grávidas. E puseram as culpas no boto. Fama essa que até hoje o boto não se livrou. Neste passeio somos levados de piroga até uma plataforma no meio do rio onde se pode nadar com esta espécie.

Seguindo com as actividades, voltamos à piroga e às águas do Rio Negro. As águas são escuras devido à acidez libertada pela decomposição de algumas plantas, que deixa matéria orgânica. Sendo que o rio corre por 1700 quilómetros, recebe uma grande quantidade de restos de folhas e troncos. Sedimentos que são dissolvidos no leito do rio e decompostos, sendo aí que ocorre a libertação dos ácidos que dão ao rio a tal cor de chá preto.

Somos ainda levados por igarapés (afluentes) até ao ponto de partida para uma caminhada na selva. De catana na mão, o guia Miranda explica-nos que estamos num Igapó, um tipo de vegetação característica de terrenos baixos, próximos de rios e frequentemente inundados. Aqui, a copa das árvores não sobe mais do que 25 metros. O passeio dura cerca de meia hora, durante a qual Miranda explica várias técnicas de sobrevivência. Encontrar água nas árvores, usar algumas destas como sistema telefónico, encontrar comida, identificar remédios para as mais diversas maleitas, fazer fogo com o que a natureza nos dá, encontrar um anti-séptico e cicatrizante natural. A selva é um supermercado, aqui encontra-se de tudo, é só saber procurar.

Já no regresso, uma paragem para visitar as casas dos caboclos (mestiços de branco com índio), onde aprendemos a fazer tapioca. O programa termina ao fim da tarde com uma paragem obrigatória para pescar piranhas, que mais tarde serão comidas sobre a forma de caldo. Mas esta não é a última actividade em agenda: falta ainda esperar pelo cair da noite para regressarmos ao barco. Desta vez para a focagem de jacarés. Na proa da embarcação segue um homem com um holofote que, quando detecta um jacaré na margem do rio, aproxima o barco e salta para o apanhar. O animal é então “convidado” a juntar-se a nós durante alguns minutos para uma sessão fotográfica.

A selva também é uma farmácia

Num estilo ligeiramente diferente surge o Amazon Ecopark Jungle Lodge. É também um hotel de selva, mas com uma estrutura térrea e alojamento, na sua maioria, feito em bungalows de madeira. A funcionar neste formato desde 1995, tem 64 quartos, um bar, restaurante/buffet e um salão de eventos com capacidade para 110 pessoas em formato auditório. Também é possível encontrar uma praia e piscinas naturais com pequenas cascatas.

Para chegar ao Ecopark são precisos 20 minutos de carro e outros 20 de barco. E, à semelhança do Ariaú, as principais actividades são, entre outros, a focagem de jacarés, nadar com os botos, visita às casas dos caboclos e à Floresta dos Macacos, pesca da piranha e, claro, o passeio na selva.

Esta, mais do que um supermercado, perfila-se como uma farmácia gigante. Desde a árvore com propriedades semelhantes às do Vicks Vaporub, passando por um repelente natural à base de formigas esmagadas, ou mesmo uma seiva de árvore que cura problemas respiratórios e tem poderes depurativos. Ah! E também há espaço para a estética. Isso fica a cargo do Mulateiro, uma árvore que serve para fazer champôs e cremes.

Oferta semelhante tem o Amazon Jungle Palace, uma terceira opção de alojamento na selva. Construído numa balsa, encontra-se localizado a dez quilómetros de Manaus (20 minutos de barco) e oferece actualmente 69 quartos, número que em breve vai aumentar para 149, quando a construção do novo bloco terminar. Estima-se que em Maio esteja concluído.

Inaugurado em 2009 com a actual gerência, a unidade oferece todo o conforto de um hotel de cidade e devido à proximidade de Manaus tanto atrai um público de lazer como de negócios. Para isso, contribuem as suas salas de reuniões com capacidade até mil participantes e uma vista de cortar a respiração.

Da reserva indígena para as cachoeiras

Foi a partir do Jungle Palace que partimos à descoberta da reserva índia. Fomos recebidos por elementos da tribo Dessana, mas no total da reserva existem 26 etnias. A visita começa à porta da casa da sabedoria e medicina tradicional, à espera de um convite para entrar. Mas primeiro uma explicação sobre a sua origem por parte do mestre de cerimónias: vêm de Pari-Cachoeira, em S. Domingos de Cachoeira, a 1800 quilómetros de Manaus, na fronteira com a Colômbia. Já dentro do espaço, é altura de assistir a uma sequência de músicas e danças. Numa delas somos convidados a participar.

E da reserva índia de volta a Manaus para nos fazermos à estrada em direção ao município de Fernando Figueiredo. Fica a 107 quilómetros da cidade (1h30m de carro) e é uma região conhecida por ter mais de 150 cachoeiras, das quais 49 estão identificadas. Iracema Falls é uma delas. Um momento de lazer que pode ser disfrutado num passeio de um dia ou durante um fim-de-semana, uma vez que possui alojamento e restaurante. Esta última constitui mais uma oferta que vem reforçar o carácter exótico e variado deste novo destino, que está agora mais acessível aos portugueses. ¶

* A jornalista viajou a convite da Solférias com o apoio da TAP

 

Deixe aqui o seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *