A Globalização e o Turismo

Por a 11 de Novembro de 2009 as 5:31

José Gil Duarte, António Fontes, Rui Soares Franco e Hernâni Almeida
A globalização pode ser definida como o processo de interacção e integração entre as pessoas, as empresas e os diversos governos. É, pois, um processo promovido pelo comércio internacional, pelas movimentações do capital e acelerado pelas tecnologias de informação. A conjugação destas variáveis tornam o processo uma realidade incontornável e imparável. Como qualquer acção dinâmica, esta tem impactos nos sistemas ambientais, culturais, políticos, assim como ao nível do desenvolvimento e da prosperidade económico-social e do bem-estar humano no planeta.

Há quem defenda que a Globalização não é algo dos tempos modernos, mas sim um processo desencadeado durante o período da Idade Média, com as trocas comerciais, entre a Oriente e a Europa, numa primeira fase por via terrestre, e após a descoberta do Caminho Marítimo para a Índia, por Vasco da Gama, por ligação marítima. Durante o século XIX e no início do XX, políticas e várias iniciativas propunham políticas mercantis semelhantes, embora em dimensões mais modestas, que viriam ser a derrotadas pelos nacionalismos e proteccionismos do período entre a primeira e segunda grande guerra.

Este movimento imparável da Globalização é impulsionado sobretudo por dois factores: por um lado, a alteração ou eliminação das barreiras aos movimentos internacionais de pessoas, mercadorias, serviços e capitais, associado à redução dos custos de transporte; por outro lado, pela redução e eficácia dos novos modelos de comunicação. Os factores impulsionadores da Globalização são, hoje, de tal forma fortes e atingiram uma tal dinâmica, com particular realce para o desenvolvimento tecnológico, que qualquer que seja o país não a consegue travar. Sem embargo, este processo não é de igual forma vantajoso para todos os actores: como todos os processos de transformação, a Globalização encerra um conjunto de vantagens e de desvantagens, variando de acordo com as abordagens.

De entre as principais vantagens, há que destacar o acesso a novos bens e serviços, a fontes de informação alternativas e a difusão da informação. Ou seja, a Globalização contribui, sem dúvida, para a melhoria dos níveis de conforto das populações. Como desvantagem, é apontado o domínio das culturas mais frágeis pelas culturas mais fortes. Assim, terá de ser destacado que esta melhoria observada não é igual para as populações do “Mundo em Desenvolvimento”, como é para as do “Mundo Desenvolvido”. Pelas mais diversas razões, há um fosso de desigualdade entre estas duas realidades.

Focalizando-o na dimensão turística, este fenómeno tem contribuído de forma significativa para a afirmação do turismo internacional. É, sem dúvida, a par do desenvolvimento dos transportes e do aumento do rendimento disponível e do tempo livre, um dos factores que mais tem contribuído para a afirmação do Turismo como indústria do século XXI. Este facto tem sido defendido pela própria OMT que sugere a supressão dos vistos ainda utilizados por alguns destinos. A União Europeia é disto um bom exemplo com as medidas inerentes ao Acordo de Schengen, convenção entre países europeus sobre uma política de livre circulação de pessoas no espaço geográfico da Europa.

Assim, com a afirmação do processo de globalização, em todas as suas dimensões, com todas as suas vantagens e consequências inerentes, é necessário acautelar os efeitos perniciosos sobre a actividade turística. Se por um lado, a globalização funciona como um forte estímulo à actividade turística, por outro lado, é necessário ter em atenção os riscos que esta acarreta para uma actividade que tem como base de sustentação, e de dinamização, a diversidade e o perfil único de cada um dos destinos. Na verdade, o visitante quando viaja pretende evoluir enquanto tomador e fazedor do conhecimento.

Na realidade, a Globalização contribui fortemente para o crescimento económico dos diversos países. No entanto, o que se assiste é que muitos dos destinos, sobretudo do Hemisfério Sul, são transformados em resorts dos países mais ricos, especialmente aqueles que são considerados mais exóticos, como é o caso das Caraíbas, entre outros.

Assiste-se a um verdadeiro domínio da cultura local, pelos padrões culturais dos países desenvolvidos, em particular pela cultura americana. Como exemplo convido-vos a visitar este endereço na internet http://conexoturismo.blog-spot.com/2009/05/documentario-turismo-e-globalizacao.html

Na relação entre o turismo e a globalização, verifica-se que a sua concretização, muitas das vezes, dá-se pela entrada de marcas internacionais nos territórios nacionais, sobretudo no sector do alojamento. Numa visão mais específica, e pela importância económica e social do sector, este fenómeno é mais frequente nos destinos dos países em desenvolvimento, que dependem da actividade turística para desenvolverem as suas infra-estruturas básicas. Aqui, e pela necessidade, assiste-se muitas das vezes a uma permissividade quase ofensiva, das autoridades locais que, em nome do desenvolvimento, muitas das vezes ignoram o atropelamento das normas e dos regulamentos nacionais para tornarem mais competitivos e atractivos os respectivos destinos. Desta forma, assiste-se muitas das vezes à criação de “guetos turísticos” onde as populações locais são relegadas para segundo plano, sendo privilegiada a estada dos turistas, à custa do uso e abuso dos recursos locais. Assim, muitas das vezes o que se pretendia alcançar pelo impulsionamento da actividade turística acaba por nunca se concretizar. Pelo contrário, é agravado ainda mais o fosso que separa as duas realidades.

Na verdade, em muitos casos as marcas internacionais desempenham o seu papel na afirmação dos destinos turísticos emergentes. São um sinal de confiança para os turistas, garantem um determinado nível de serviço e de assistência que seria difícil de assegurar caso estas não existissem. No entanto, noutros casos, essas marcas, e as lógicas de exploração que a elas estão associadas, não disponibilizam ao visitante as “chaves” correctas do território e das suas populações. Pelo contrário, estas “vivências” muitas vezes são remetidas para uma certa “folclorização” da cultura local. Oferecem-se aos turistas actividades programadas despojadas de qualquer essência. Nestes casos, quando o turista regressa ao seu local de residência habitual, o que recorda das suas férias é simplesmente “uma estada agradável num resort com tudo incluído”, não criando laços afectivos com o destino. Desta forma, a população e o próprio território não beneficiam das potenciais mais-valias do desenvolvimento turístico, antes pelo contrário, podem ser geradas relações de conflito e de desagrado entre os visitantes e os visitados, muitas das vezes com consequências sérias. Os turistas por seu turno não geram afinidades com os destinos e não se fidelizam.

Paralelamente, também se assiste à presença das mesmas marcas internacionais em destinos já afirmados e reconhecidos. Assim, muitas vezes a sua existência é, para as autoridades responsáveis, um argumento de reconhecimento da qualidade das suas ofertas turísticas.

Como se fosse uma medalha. No entanto, é necessário que nos questionemos sobre a real importância da presença de marcas internacionais num destino turístico maduro. Será vital para o sector a sua existência? Não podemos esquecer que as marcas internacionais, assim como entram, também abandonam um destino, deixando desamparados quer os promotores, quer as próprias autoridades.

Perante as tendências emergentes do sector, onde se assiste, por oposição à globalização, a uma valorização do que é especificamente local, ou seja, do reconhecimento da experiência e da vivência real dos destinos, a escolha do visitante, cada vez mais, é feita segundo parâmetros de “afinidades” e não simplesmente por categorias de “motivações”. Em destinos afirmados, onde a segurança individual é um pressuposto garantido, as marcas internacionais não podem ser encaradas como a “certificação” e a “acreditação” do mesmo nos mercados turísticos. Já as especificidades locais, se devidamente trabalhadas e credibilizadas nos mercados, podem ser o garante do sucesso, contrariando a oferta padronizada, predefinida e previsível das grandes marcas internacionais.

Hoje em dia, assiste-se a uma alteração do paradigma turístico, não só do lado da procura, mas também do lado da oferta. A “Aldeia Global” está a ser questionada, não nas suas virtudes, mas sim como está a ser governada. Com uma procura turística cada vez mais sofisticada, informada e responsável, será dada prioridade aos negócios de inspiração local, devendo por isso as marcas globais rever a sua estratégia de expansão e implantação nos territórios, devendo assumir uma verdadeira política de responsabilidade social e de compromisso com o bem-estar das populações, fomentando o desenvolvimento horizontal e não vertical.

Assiste-se à emergência do denominado “Turismo de Afinidades”. Assim apelidado pela RDPE, o “Turismo de Afinidades” é aquele que estabelece laços afectivos com os mercados, é aquele que responde às expectativas da procura, não pela oferta de produtos que respondam às motivações, mas sim pelo desenvolvimento de “valores” com os quais o visitante se identifica. Cada vez mais os canais virtuais informais assumem o papel de decisores da viagem, secundarizando o papel das marcas internacionais um factor crítico de sucesso do destino nos segmentos turísticos de maior valor, que são afinal aqueles que desejamos para Portugal.

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