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As crónicas de Miguel Júdice na WTTC: The last but not the least

18 de Maio de 2009 às 13:30:00 por Ruben Obadia

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Miguel Júdice*

O último dia da cimeira da WTTC abriu com um painel sobre a alteração dos sistemas de valores na sociedade actual e sobre o impacto desse facto numa indústria que é feita por pessoas para pessoas e que por essa razão tem um “delivery” muito associado aos estilos de vida dos seus colaboradores e dos seus clientes. Alterando-se os lifestyles, altera-se a propensão das pessoas para viajar, assim como o tipo de viagens, destinos e hotéis que escolhem. A maior sensibilidade do mundo para factores ambientais, por exemplo, implica que cada vez mais os turistas (prefiro os viajantes), os operadores turísticos e as empresas valorizem e cheguem mesmo a condicionar as suas escolhas de destino, seja a nível macro (país ou região) ou a nível micro (hotel), a factores de ordem ambiental.

Liderado pelo experiente jornalista Peter Greenberg e com a participação, entre outros, de Sonu Shivdasani (da cadeia Soneva), o painel falou também do que é o luxo nos dias de hoje? O velho paradigma de luxo tornado inacessível pelo preço está em queda. A palavra luxo é hoje sinónimo daquilo que não temos, a que aspiramos, e por isso pode não custar nada. O luxo pode ser o que é “priceless”, que não custa dinheiro ou algo que não se pode comprar. Para quem trabalha loucamente, o tempo é um luxo, para quem vive numa megapólis onde os alimentos chegam depois de dias de transporte, um produto apanhado na horta de um hotel e servido à mesa minutos depois é um luxo. Nessa óptica, todos têm acesso ao luxo, independentemente do seu nível de vida e qualquer hotel, de 1 ou 5 estrelas, pode oferecer “luxo” aos seus clientes. Um conceito interessante.

Seguiu-se mais um painel onde a crise esteve na ordem do dia. Foi curioso (um pouco triste também) ver que também neste fórum de líderes globais (à semelhança do que é norma em Portugal), de pessoas inteligentes e experientes, a crise é vista como algo assustador. Não se ouviram muitas palavras de esperança, de soluções criativas, de consciência que as crises vão e vêm e que as empresas as devem aproveitar para recentrarem, para fazerem re-engenharias de processos e produto, para questionarem as suas formas de actuar. Os dias não estão fáceis para ninguém mas acho que devemos sempre tentar “to look on the bright side of life”. Mas enfim, se calhar sou eu que estou errado em olhar para os problemas como oportunidades à espera de resolução, como desafios que quebram a rotina, a monotonia, a indolência que a prosperidade tantas vezes trás. Se calhar devia começar a lastimar-me e enfiar a minha cabeça na areia com os problemas que me assolam, porque também os tenho, todos os dias, e muitos deles difíceis de resolver. Não, acho que não, a alegria e a esperança são maravilhosas terapias.

O momento seguinte foi de grande peso. Falou um tal Martin Feldstein, que chegou com um pedigree impressionante: Professor em Harvard, Presidente durante vários anos do National Bureau of Economic Research, consultor económico de três presidentes, entre os quais Obama, e por aí fora. O referido “stôr” começou por dizer que o sector de Travel&Tourism é essencial ao mundo. Por um lado é um ingrediente crítico nos negócios, permitindo a globalização da economia, fomentando o comércio. Por outro lado, viajar é uma das grandes recompensas que damos a nós próprios, algo que nos motiva a trabalhar e a poupar… para viajar. Enfim, sem viajar a vida não tem o mesmo sabor. Alguém discorda? Bem me parecia que não. Sobre a economia em geral Feldstein referiu como factos determinantes a enorme quebra no consumo privado, na construção, a disfuncionalidade dos mercados financeiros, a espiral decrescente dos preços das casas, nomeadamente nos Estados Unidos, que faz com que os empréstimos devidos pelas famílias aos bancos sejam superiores ao valor das casas que as pessoas estão a pagar. Isso provoca falta de pagamento das “mortgages” e empurra a economia para baixo.

Para a próxima década Feldstein prevê factos que irão beneficiar a indústria: o regresso ao crescimento da economia, o aumento do rendimento disponível com o consequente aumento do consumo de viagens, um crescimento dos níveis de educação e do interesse por viajar, alterações na pirâmide demográfica com o inerente aumento do número de reformados com tempo para viajar. A desvalorização sustentada do dólar (admite que a prazo estabilize nos 1,6 dólares por cada euro), que também prevê vá acontecer, beneficiará mais os EUA do que o resto do mundo (em termos de viagens claro está) pois tornará esse destino mais competitivo. Pelo lado contrário vaticina uma provável subida dos custos energéticos, o aumento da poupança (pessoas vão ter receio do futuro e irão gastar menos), e as inovações tecnológicas, vão tornar soluções como vídeo-conferências mais baratas e eficientes. O futuro dirá quais serão as forças mais poderosas, se as que fomentam o turismo, se as que o inibem.

A cimeira acabou pouco depois, não sem ter havido uma compromisso conjunto da WTTC e da sua cara-metade pública, a WTO (World Travel Organization das Nações Unidas), de emitirem um comunicado conjunto, que por simbolismo será dado presencialmente aos media no México, sobre a importância do sector de Travel&Tourism para o mundo, seja pelos 220 milhões de empregos que garante, seja pela sua importância para a vida em sociedade tal como a conhecemos. Pode ajudar, sem dúvida, mas os agentes individuais, todos nós, temos de nos motivar e de ajudar a ultrapassar esta crise, não deixando de viajar. É que mesmo sem sabermos, todos trabalhamos em turismo, nomeadamente num país como Portugal. O efeito multiplicador deste sector é tal que ninguém beneficia com a sua fragilidade. Podemos contar convosco?

* O Miguel Júdice está em Florianópolis a participar na Cimeira Global de Turismo e Viagens da WTTC e a convite do Publituris assina uma crónica diária da sua experiência.

Palavras Chave: Colunista Convidado

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